Bem vindos

kraft

Já aqui abordei, por mais de uma vez, os germânicos Kraftwerk. Desde que quase casualmente os descobri, certa vez em Évora pelos anos 80, com o soberbo Trans-Europe Expresss, não mais os larguei. Em Berlim, corri discotecas até ter completado a colecção dos seus discos e tenho-a prolongado depois disso, mantendo-a actualizada. A continuação do grupo em plena actividade é sinal evidente da sua pertinência musical.

Confirmei há pouco a notícia já conhecida, a de em mais uma digressão pelo mundo os Kraftwerk novamente nos visitarem. Na programação de Abril da Casa da Música, no Porto, está prevista uma sua actuação ao vivo, no dia 20.

Na síntese de apresentação, creio que o texto contém o essencial. Evoca a formação do grupo nos anos 70, o uso inovador de computadores na criação de música, o complemento visual na construção de um espectáculo multimédia arrojado e por vezes surpreendente. Nesta sua fase, os Kraftwerk apresentam um concerto dotado de reportório com efeitos em três dimensões, o que revela não ser a veterania um obrigatório sinónimo de conservadorismo, bem pelo contrário.

Há quase três décadas e meia que considero a música dos Kraftwerk entre as minhas mais assumidas predilecções na arte dos sons. Ainda não encontrei razões para mudar de opinião. Por isso escreveria outra vez a ligeira crónica que publiquei no saudoso jornal portalegrense Fonte Nova, a 22 de Julho de 2000.

 CENTRAL ELÉCTRICA

Hoje apetece-me uma crónica de férias, quase incolor, insípida e inodora, mais ou menos neutra q.b., por outras palavras.

Não é que faltem palpitantes assuntos, isto é, mais intervenientes. Basta olharmos em volta, mesmo distraidamente. Os temas continuam vivos, como que desafiando-nos. Um simples exemplo: o balanço (final?!) de 1998, ou da EXPO, assim como a antevisão daquilo que aí vem, já em 2001, com o Porto Cultural, ou mais tarde, com o EURO 2004, que prometem o bom e o bonito… Continuará aí o fartar vilanagem do nosso dinheiro?

Prefiro, por agora, a comodidade de um quotidiano mais tranquilo e mais doméstico. Curiosamente, esta ideia que hoje me domina até tem a ver com EXPO’s, não a nossa mas a que -frustrante, ao que dizem, a diversos níveis- vem acontecendo por terras alemãs. É que a canção-tema (ou hino oficial) de Hannover 2000 foi composta e interpretada pelos Kraftwerk.

Os Kraftwerk (nome germânico cuja tradução literal é central eléctrica) são uma banda musical, de perfil pop, cujo pioneirismo electrónico ainda hoje é reconhecido, apesar da discreta presença-ausência que deliberadamente têm assumido nestes últimos anos do século.

Descobri os Kraftwerk há mais de duas décadas, em Évora, quando aí frequentava na companhia do Bentes (e de outros lagóias inconformados) um curso sobretudo virado para a animação cultural de museus que, ao contrário daquilo que por aqui se costuma entender e praticar, podem ser espaços vivos e dinâmicos. Como fundo (ou pretexto?) musical de um trabalho colectivo organizado pelo grupo onde me integrara, alguém sugerira então uma faixa dos Kraftwerk intitulada Trans-Europe Express. Foi uma autêntica revelação pessoal, a descoberta dessa música inspirada, feita de sons de função descritiva quase onomatopaica, dominados por uma melodia que constantemente se sobrepunha à técnica, perfeita, da sintetização electrónica.

Desde então, sempre me pareceu que, muito para além das modernas ideologias musicais -dos house aos techno- que não entendo nem aprecio, as criações dos Kraftewerk constituem a prova indiscutível de que a tecnologia acústica pode (e deve) constituir-se como extensão (quase) natural da criatividade humana. Mais recentes que os Beatles -estes quatro músicos de Düsseldorf apenas apareceram em 1974, como a nossa Revolução-, os Kraftwerk não dispuseram do poderoso e insuperável arsenal de marketing que apoiou e projectou aqueles. Porém, atrevo-me a dizer que não será menos significativa a sua influência no panorama da música moderna, talvez em função da sólida formação clássica do quarteto original alemão.

Escrevo estas linhas enquanto o sistema sonoro do próprio computador reproduz sucessivamente as faixas de um dos meus discos preferidos, The Man Machine: The Robots, Space Lab, Metropolis, The Model, Neon Lights, The Man Machine… É que consegui reunir, após uma pesquisa de anos, cá dentro e lá fora, o conjunto fundamental da discografia dos Kraftwerk, produzida entre 1974 e 1986. O (re)edição digital tem vantagens destas, como a de permitir recuperar o que já se perdeu no vinil…

O último dos CD’s, precisamente o álbum Electric Cafe, apenas o obtivera há escassas semanas, e sou agora surpreendido pela prometedora notícia da ressurreição do conjunto, quase quinze anos após aquela que julgara ter sido a sua derradeira obra de vulto.

Crónica ligeira de férias, esta. Pude ocupar, com íntimo prazer, o espaço habitual em que há outros mundos, até este. Que mo desculpem –o gosto pessoal- aqueles que talvez esperassem que aqui traduzisse hoje, por mero exemplo, uma opinião solidária quanto ao drama nacional que vivem as famílias atormentadas pelo pagamento dos crescentes encargos com as prestações da casa e/ou do carro… Ou que comentasse os assustadores níveis de insegurança que vêm afligindo a zona da Grande Lisboa e que, mais dia menos dia, também nos atingirão…

Mas isso é política e sinto-me (virtualmente) nos antípodas, isto é, de férias. Depois falamos nisso, porque agora -se me permitem- vou ouvir tranquilamente Musique Non Stop.

Kraftwerk, claro!

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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