Revogável apesar

Provavelmente Rui Cardoso Martins, se escrevesse hoje a crónica em apreço, contaria com mais um incontornável apesar para a sua notável lista, o de Adolf Hitler (1889-1945), cabo do 16.º Regimento Bávaro da Reserva, cujo 70.º aniversário da miserável morte hoje mesmo passa. Mas a verdade, verdadinha, é que o cronista não precisaria de juntar mais nenhum apesar à relação desses arrolados grandes da História da Humanidade. Eu é que, com certo embaraço, sou obrigado e denunciar o revogável apesar pessoal, com sincero e humilde pedido de desculpa a gentes de honra como por exemplo o senhor ministro Paulo Portas, incapaz de similar contradição intestina.

Explicando-me melhor, tinha prometido arrumar o caso da miserável afronta que o especialista tecnofórmico pago por fora e trânsfuga da Segurança Social cometera sobre o cientista especialista em física de partículas e político que fez a ciência avançar 20 anos em Portugal.

Tinha prometido e juro pelas alminhas que com total sinceridade. Mas o meu conterrâneo Rui Cardoso Martins obriga-me a ser perjuro. Seria maior crime ignorá-lo do que ser eu tomado por irrevogável. Como o outro, atrás citado.

Por isso e só por isso, contrito aqui venho e estive para pedir o burel e o baraço a Egas Moniz para, descalço, humildemente solicitar o conveniente perdão. Mas isto é serviço público e do obrigatório por lei. Deixar passar em claro o escrito do portalegrense Rui Cardoso Martins sobre o dr. Pedro Gaffe de Propósito Coelho isso sim, é que seria omissão e grave.

Portanto, dedicados a quantos tenham perdido o imperdível e revogando a minha própria irrevogabilidade, aqui ficam Grandes Apesares da História, com justa vénia ao suplemento S do Público do passado Domingo, 26 de Abril, e com um solidário e grato abraço ao Rui. Que nunca lhe doa a pena para desancar a mediocridade e os medíocres. E para louvar a excepcionalidade e os excepcionais, embora raros.

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Colecções, profissões e mais sugestões – 15

colecções

Na apresentação da colecção gémea da anterior, apenas dela diferindo na cor base do motivo, talvez se justifique uma breve alusão aos principais componentes da caixa, imagem e texto.

A representação gráfica dos castelos é muito sumária e eficaz, num jogo de traços e sombreados que define com clareza e certo rigor a imagem própria, ou “clássica”, de cada fortaleza. O conjunto obtido prestar-se-ia a uma adaptação a pin, tal como se verificou na colecção anterior. A clara identificação de cada castelo foi bem conseguida.

Já quanto ao texto relativo a cada fortaleza, este é sumário q.b. dada a escassez do espaço disponível. O seu autor teve o cuidado de o reduzir ao essencial, relatando a época, estilo e um ou outro episódio histórico associado ao local. Julgo que é um bom e útil complemento da imagem.

Portanto, este duplo conjunto é positivo, apenas se lamentando a sua curta dimensão quantitativa, que obrigou a uma selecção que não é suficientemente representativa do vasto e valioso acervo dos castelos e fortalezas que o país ostenta.

A seguir, nesta rubrica das colecções, dada a sua relação de proximidade, apresenta-se uma série de bilhetes postais ilustrados sob a temática Exército Português.

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Escola Secundária de São Lourenço, Portalegre, parabéns!

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Ministério da Educação distingue trabalho de mérito de 11 escolas

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) entrega na quinta-feira o Prémio Escola 2013-2014 a 11 escolas e agrupamentos escolares, premiando não só o trabalho das instituições, mas também de uma individualidade que se tenha destacado.

Instituído no ano lectivo de 2012-2013, o prémio distingue este ano o Agrupamento Vertical de Escolas Professor João Meira, de Guimarães, a Escola Secundária Inês de Castro, de Canidelo, o Externato Vila Meã, de Amarante, a Escola Secundária Quinta das Palmeiras, da Covilhã, o Agrupamento de Escolas Figueira Mar, da Figueira da Foz, o Agrupamento de Escolas da Zona Urbana da Figueira da Foz, o Agrupamento de Escolas de Alcochete, o Colégio da Bafureira, da Parede, o Agrupamento de Escolas N.º 2 de Abrantes, a Escola Secundária de S. Lourenço, de Portalegre e o Colégio Luz S. Gonçalo, de Lagos.

O “Prémio de Escola”, de atribuição anual, distingue um máximo de três escolas ou agrupamentos em cada uma das cinco áreas geográficas do mapa educativo (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve).

As instituições, para além de uma placa de distinção e um louvor em Diário da República, recebem ainda apoio ao nível de recursos humanos e materiais destinados a projectos culturais e científicos dos alunos.

O louvor individual, entregue à personalidade indicada pela escola como a que mais se destacou no trabalho em prol do sucesso escolar dos alunos e das boas práticas no meio escolar, consiste na atribuição de um diploma que, caso seja entregue a um director, professor, aluno ou funcionário da escola, será incluído no seu processo individual. 

O despacho do ministro Nuno Crato que criou a distinção elencava uma série de critérios que as escolas deveriam cumprir ou promover “de forma meritória” para serem elegíveis a receber o Prémio Escola, como o sucesso dos alunos a qualidade da aprendizagem, o desenvolvimento do ensino experimental das ciências, a criatividade aplicada nas ciências sociais ou a difusão e fortalecimento do interesse pelas artes.

A diminuição do insucesso escolar e do abandono precoce, inicialmente um dos critérios previstos, foi retirado da lista em 2014, numa alteração ao despacho de 2012.

Na 1.ª edição do Prémio Escola, no ano lectivo anterior, as escolas distinguidas receberam um louvor em Diário da República, um troféu e uma colecção de mais de 50 livros para as suas bibliotecas, oferecida pelo Plano Nacional de Leitura, pelas editoras Gradiva, Leya e Porto Editora e pela Fundação Calouste Gulbenkian. 

Presidiu ao júri da 1.ª edição o presidente do Tribunal de Contas e antigo ministro da Educação do Governo socialista de António Guterres, Guilherme d’Oliveira Martins.

A cerimónia da entrega do prémio relativo à edição deste ano está marcada para as 15:00, no Teatro Thalia, no Palácio das Laranjeiras, em Lisboa.

Na cerimónia é também entregue o Selo Escola Voluntária, destinado a reconhecer o contributo dado pelos estabelecimentos de educação e ensino que, através de projectos educativos, valorizam as actividades de voluntariado, fortalecem o envolvimento da comunidade educativa no projecto da escola e da escola na comunidade e que contribuem para o desenvolvimento de laços sociais dentro e fora dela”, de acordo com a informação disponibilizada no ‘site’ da Secretaria-Geral do MEC.

Segundo a mesma informação, o selo “consiste numa placa a afixar numa parede da escola, com a data da concessão”.

 Lusa/SOL

Necrópole mediterrânica

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Necrópole mediterrânica

A Europa está de novo a fazer contas à vida, engasgada entre o constrangimento real de um imprevisível superpovoamento e o sentimento de culpa de que não se livra, ao olhar as pregas da História da colonização africana.

Em A África Começa mal, René Dumont (ed. D. Quixote) alerta para o primeiro modelo civilizacional (a corrupção mercantil) que os europeus ofereceram aos africanos: no século XVI, os agentes negreiros vendiam armas e álcool aos chefes tribais, corrompendo-os, para que estes lhes oferecessem homens e mulheres a serem integrados no tráfico humano. Foi um bom princípio. Os mapas manipulados em Berlim, em 1885, resultantes do tratado que retalhou África em fatias atribuídas a alguns países europeus, permitiram quebrar as organizações indígenas, eliminaram imensas distinções autóctones e inventaram pátrias onde as não havia. Além disso, impuseram uma lógica civilizacional baseada na “ilusão de que o etnos [europeu] constituía o centro do universo cultural, o núcleo paradigmático de normas, instituições e valores em torno do qual giram, para sua glória, todas as outras culturas como satélites” (Urrutia). Sem darem por isso (exceptuando-se as elites corruptíveis), os africanos ficaram fora do processo histórico de que eles deveriam ser protagonistas — como se sabe, apenas na segunda metade do século XX surgiram os movimentos de consciencialização e de libertação dos povos africanos. “Nada está fora de um território ideológico”, enuncia Jorge Urrutia (Leitura do Obscuro, Uma Semiótica de África, Teorema). E não. Acontece que as ideologias esculpidas nos territórios africanos não passam de pérfidas réplicas daquilo que há de pior nos capitalismos europeus do século passado.

Entretanto, tem-se como seguro que a repatriação dos desesperados que atravessam o Mediterrâneo (fugidos às guerras, à seca, à pobreza e ao banditismo), vítimas de redes mafiosas a quem pagam montantes elevadíssimos por documentação que de nada lhes servirá, deverá ser a única saída possível de um complexo jogo em que tudo está em causa: a inclemência de uma Europa que fecha as portas aos outros (e aos seus); a inflexibilidade dos angariadores de migrantes nos países africanos; a severidade das redes mafiosas que garantem liquidez aos bancos europeus e confortam o BCE; a montagem do circo humanitário, gerador de novos empregos filantrópicos e paliativos (e este é um caso de matéria sensível); a indecência das redes de adopção clandestina, de lenocínio e tráfico de menores.

Os tempos não estão bons para acusar ninguém, de tal modo estão todos os agentes relacionados. Nem as nossas lágrimas conseguem afirmar que não são as de crocodilo. O Frontex faz o que pode (e seria prudente que a agência pudesse ser ainda dotada de mais meios); os centros de refugiados e a ONU actuam como podem e conhecem-se casos de verdadeira abnegação; as organizações religiosas (especialmente católicas) denunciam as situações. Mas neste cenário, nem os românticos (os que teorizam sobre as razões do caos e imputam à Europa o crime global) nem os pessimistas (aqueles que, no fim de contas, pensam como os românticos, mas sem chorar) têm razão. Não é um tempo para razão. É talvez um tempo para aceitar que o mundo é um lugar terrível, mas merecedor de uma pequena tarefa diária.

De resto, é impossível uma leitura do obscuro, sem a sensação de nos enganarmos.

 António Jacinto Pascoal
Professor

O seu a seu dono

Há dias circulou pelas chamadas redes sociais um libelo acusatório contra o Charlie Hebdo. Calculo que por aqui e por ali se rasgassem as faixas de apoio ainda frescas e se apelasse à organização de contra-manifestações de repúdio pelo comportamento da publicação e dos seus membros. O motivo invocado foi a divulgação, nas suas páginas, de um cartoon sobre os sucessivos naufrágios e correspondentes afogamentos, acontecidos no Mediterrâneo. O desenho em causa é este.

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As críticas são unânimes, ao considerarem vergonhosa a publicação de semelhante cartoon, onde são ridicularizados os migrantes africanos que morrem na sua desesperada ânsia de encontrar refúgio e futuro na Europa. Denominar esta tragédia como uma reunião ou reagrupamento de família no Mediterrâneo atropela todas as normas da decência e da dignidade humanas. Porém, considerar esta infâmia como inserida no Charlie Hebdo não é um menor atropelo à verdade.

O cartoon existe, é da autoria de um desenhador recentemente admitido pelo Charlie Hebdo, mas foi publicado pelo jornal Liberte, da Argélia, e nunca no semanário francês.

Mais, a frase lida liminarmente até pode parecer o que não é. De todo. Reagrupamento familiar é a designação oficial de uma política de imigração francesa ali aplicada aos residentes no exterior da União Europeia. As exigências são grandes pelo que se tem considerado esta política como um sério contributo para as mortes no Mediterrâneo, pelo esforço desesperado feito por famílias ansiosas pelo reencontro, fugindo de qualquer maneira de mortíferas guerras.

O Charlie Hebdo, quanto a este facto, já criticou as leis do Reagrupamento familiar e até lhes dedicou uma recente capa. Um Titanic por semana, eis a versão satírica do desenhador Luz, metáfora alusiva ao paquete que em Abril de 1912 matou 1.500 passageiros após colisão com um iceberg. O sentido do cartoon é muito claro: o aviso de que, sem inversão de políticas, em cada semana muitos inocentes morrerão, numa equivalência àquele que foi o mais chocante e célebre dos desastres marítimos. A mulher ali representada é Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, de extrema direita, defensora de uma forte campanha de dissuasão através de navios que remetam os imigrantes (ou refugiados) de volta. Por isso ouve um imperativo: Cala essa boca!

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Fariam bem melhor os injustos e raivosos críticos que querem agora lapidar o Charlie Hebdo em virar a sua agressividade contra os (ir)responsáveis da União Europeia porque nada fazem para impedir a catástrofe humana que se abateu sobre a Líbia e a Síria, para citar apenas estes países, e porque restringem as operações de salvamento e a posterior protecção dos refugiados sobreviventes, após enfrentarem os perigos do mar. Não será, afinal, uma certa forma de encoberto racismo que está a matar os mártires do Mediterrâneo?

O autor do cartoon que desencadeou esta desajustada campanha é o argelino Ali Dilem, talentoso desenhador que junta a esta capacidade um agudo sentido crítico. Os seus cartoons são interventivos e oportunos. Creio que fará carreira no Charlie Hebdo, até pelo seu inconfundível estilo, de eficaz simplicidade. Aqui ficam, como exemplo, algumas das suas mais recentes obras.

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Para concluir este reparo, que entendi necessário para repor a verdade sobre tão odioso equívoco, junto-lhe uma breve antologia de cartoons de diversa origem sobre o drama dos refugiados no Mediterrâneo, uma forma séria e acutilante de provocar a opinião pública, impelindo-a a agir numa urgente pressão sobre os que têm a obrigação e o poder de alterar o sentido da presente tragédia humana.

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 António Martinó de Azevedo Coutinho

25 de Abril aos quadradinhos – dois

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João Paulo Cotrim, com uma autoridade que ninguém lhe recusará, resumiu com clareza o panorama relativamente delirante da época, para o bem, para o mal, para o assim-assim, no campo dos quadradinhos, imagens com memórias e evocações dos acontecimentos de Abril de 1974. Com qualidade e interesse variáveis, lembrou.

O acontecimento central desta questão era, ao tempo, a oportuna e esclarecedora exposição, com o respectivo catálogo, que João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos organizavam. Recordo, eles procuraram -e creio terem-no conseguido- documentar os mais variados aspectos, permitindo evocar de forma sugestiva e sintética a multiplicidade de perspectivas e tendências, tanto políticas e sociais como estéticas, de que este período histórico [o 25 de Abril de 1974] foi feito.

Ora é precisamente a esta luz que li aquele opúsculo. Patrocinado pelo ministério da Educação, terá sentido e objectivos pedagógicos, editado por um diário de grande expansão, contará com ampla difusão, subscrito pela Bedeteca, é-lhe garantida a qualidade de género.

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Aliás, as ambições desta publicação estão claramente definidas no seu “editorial”:

Uma revolução tão séria como a do 25 de Abril de 1974 pode dar excelentes histórias aos quadradinhos. Foi isso que nós fizemos, DN, Ministério da Educação e Bedeteca de Lisboa. O resto agora é convosco…

Após tão prometedor preâmbulo, resta-me, à prudente distância de 16 anos, aqui reproduzir as páginas da brochura. Sem qualquer comentário.

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