DOIS MIL E QUINHENTOS

2500

Coloquei ontem, no blog, o post número 2.500. Dois mil e quinhentos, escrevo por extenso para marcar com maior ênfase a quantidade. Bem sei que são desiguais na qualidade, sobretudo no entendimento dos leitores para quem escrevo. Percebo que alguns dos meus escritos alegrem ou contrariem certos amigos, pelos clubes da sua predilecção, pelos partidos da sua convicção, pelos ideais da sua formação. Se isso me parecesse o fundamental, escreveria um diário íntimo. Quando escolhi esta modalidade de comunicação foi para partilhar, com os outros e no momento certo, aquilo que penso.

Depois da experiência, prolongada e colectiva, no excelente blog do Mário Casa Nova Martins, A Voz Portalegrense, ele e outros amigos incentivaram-me à autonomia. Esta criar-me-ia outras exigências porque funcionar por conta própria, sem rede de protecção, tem as suas vantagens mas atrai sobretudo imensos riscos.

Pouco depois de o Largo dos Correios ter arrancado, em Junho de 2012, a minha vida sofreu uma radical e inesperada alteração, com a voluntária, forçada e necessária saída de Portalegre. Dos quase três anos que o blog vai levando de vida, apenas meia dúzia dos meses iniciais tiveram a minha terra como cenário inspirador. No entanto, o universo de um construtor de sonhos -tal como entendo o uso de um instrumento destes- é o mundo todo e não uma sua parcela. Por isso, em determinados aspectos, esta alteração não constituiu um entrave, antes um desafio.

O afastamento físico das raízes é uma séria limitação na ausência dos amigos, na indisponibilidade das fontes mais férteis, no corte com as rotinas lagóias de muitas, muitas décadas, nos cenários e nos climas familiares. Aqui sou um exilado, em terra alheia embora acolhedora e bela, num admirável cenário com gente disponível e simpática. Localmente, a vida cultural é modesta e os recursos inerentes limitados, a vida social em pouco ultrapassa a banalidade e os meios de comunicação situam-se ao nível paroquial. Sinto-me quase um estranho.

Na ilusória tentativa de uma forçada integração, cheguei a mudar o cabeçalho e a ampliar a designação do próprio blog. Quando adquiri a certeza desta formal inutilidade voltei à condição, incontornável e definitiva, de portalegrense. Portalegrense exilado pela força das circunstâncias, nunca um desertor -expressão colhida em João Miguel Tavares- porque não adocei em mim a imagem distante de uma terra cada vez mais entregue ao abandono. Chega por vezes a tocar-me a cruel convicção de terem os conterrâneos que permanecem em Portalegre o justo merecimento do seu triste destino, pela persistente indolência, quase masoquista, do seu comportamento. O rumo suicida a que têm vindo a ser conduzidos inclui a sua cumplicidade, pela inacção colectiva de uma comunidade inteira onde as vozes de protesto vão sendo raras e sempre débeis. Cada vez mais. Por vezes, sinto-me quase confortado pela ausência, na minha solidão…

Continuam os portalegrenses a resolver à mesa do café ou da tasca, agora também nas redes sociais, os magnos problemas da sua terra, permanecendo a elite local e os fazedores de opinião na fase que Feliciano Falcão claramente descreveu n’A Rabeca, quando explicou a sua indiferença perante a presença de José Régio. Isso foi há quase setenta e cinco anos, uma eternidade, mas nada mudou no essencial…

Coloquei ontem, no blog, o post número 2.500. Não é muito nem pouco, é o possível, sobretudo na coerência de que um instrumento deste tipo deve ser permanentemente actualizado. Em dia algum, destes oitocentos e tal já decorridos, faltei à chamada que a mim impus como norma obrigatória. A todos os textos, a todas as imagens, a todo o material de produção própria ou de colheita alheia dediquei a mesma atenção, o mesmo cuidado. Fi-lo por uma mera questão de respeito tanto pelos que me dedicam a sua atenção como por mim próprio. Nunca me pauto pela vulgaridade, mesmo quando não atinjo o nível que desejo. Sempre procurei orientar-me pela verdade e pela justeza, mesmo quando errei. E isso aconteceu, seguramente, porque ninguém é infalível.

Sinto que dei mais atenção a uns temas do que a outros, reflexo das opções pessoais que sobrelevam outros interesses. Tentei aproveitar o imprevisto para além dos meus reflectidos projectos, das minhas esforçadas planificações. Mas um blog não é um jornal de actualidades. Por isso, têm-me sido muito úteis os arquivos pessoais que organizei, embora sem um absoluto rigor, durante décadas.

Experimentei há meses uma primeira incursão pelo facebook, sem grandes expectativas à partida, que depois confirmei. Logo que me canso saio e volto por lá de vez em quando. Não suporto com facilidade ter a caixa do correio quase sempre cheia de banais e automáticas notícias sobre actualizações que na sua grande maioria nada me interessam. Também não respondo quando me pedem para gostar disto e daquilo, para ser amigo deste ou daquele, para jogar assim e assado, para aderir a um grupo ou a outro. Procuro não misturar sentimentos ou relações reais com a banalidade do virtual, nestes domínios de equívocas nomenclaturas. Portanto, um dia destes saio de lá em definitivo. Sinto-me imensamente melhor aqui.

Recordo o que se me impõe, faço bisbilhotices onde me apetece, vou-me perdendo pelos interesses de sempre e procuro conquistar outros, novidades que por vezes me surpreendem. Investigo nos limites dos recursos disponíveis e partilho tudo com quem queira recebê-lo. Reencontrei aqui amigos de longe, provavelmente perdi outros, mas também conquistei insuspeitos conhecimentos, que se vão consolidando. Por vezes recebo menos respostas do que esperava, surpreende-me de quando em quando a anormal profusão das visitas recebidas.

Na minha ocasional solidão, o blog faz-me companhia. Silenciosa, por vezes quase impertinente. Inspira-me rotinas, impõe-me desafios. Torna-se elo de ligação mas provoca rupturas. É o meu emprego curricular, exigente, tolerante, imperativo, sedutor.

Dois mil e quinhentos textos que escrevi, copiei ou adaptei, que ilustrei, compus ou digitalizei são dois mil e quinhentos capítulos de não sei quantas enciclopédias, páginas tantas de uma colecção inteira com volumes encadernados de afectos, alegria, dores, desespero, saudade, emoções, raiva, tristeza, amor…

Quantos mais escreverei para esta involuntária estatística que o computador friamente contabiliza é uma questão que nada me preocupa. O que me interessa é o que na programação tenho para dar conta, inflexivelmente amanhã, do quinto capítulo das crónicas que vou tecendo sobre a novela gráfica e duma reflexão sobre o latim… e sei lá que mais vai acontecer, para além destes previstos posts, os números dois mil quinhentos e seis e dois mil quinhentos e sete. Há dias perdi um bom amigo, que me casou, e ontem foi Manoel de Oliveira que nos deixou. Estas e outras são as transgressões, imperiosas, que complicam e enriquecem os rigores do plano prévio, dilatando, ou desorganizando?,  a tal contabilidade organizada pelo cérebro desta máquina de escrever onde cada tecla escreve as palavras alinhavadas, e alinhadas, num discurso onde coloco aqui e agora o ponto final.

 [foi o post número dois mil quinhentos e dois]

1 thought on “DOIS MIL E QUINHENTOS

  1. Dois mil e quinhentos “posts” em quase três anos é obra… ainda por cima sem ter faltado um único dia à chamada (ou ao dever que a si próprio impôs)! Muitos parabéns, Professor Martinó, e votos de longa e próspera vida para o “Largo dos Correios”, com a mesma assiduidade – a par de outras relevantes qualidades: pertinência, rigor, saber, amor à cultura, à tradição e à língua pátria – com que nos brindou durante todo o tempo em que eu e a Catherine (também o mais assiduamente possível), o acompanhámos, com grande prazer e proveito da nossa parte.
    Um abraço de muita amizade,
    Jorge e Catherine

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s