Tintin volta ao Irão – 24

TINTIN NO IRÃO 2

Aproximam-se do seu final as aventuras de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente vividas em 1929, que aqui têm vindo a ser evocadas, na versão iraniana decalcada sobre um álbum clandestino, sincopado e colorido.

Reproduz-se hoje mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as correspondentes duplas originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          96 e 97                                               43
          98 e 99                                               44
        100 e 101                                             45
        102 e 103                                             46
             104
        105 e 106                                             47

24- 01 24- 02 24- 03 24- 04 24- 05 24- 06

Desde logo se nota a necessidade do acréscimo de uma página original para conseguir manter o paralelismo narrativo entre a criação de Hergé e a versão agora em apreço. Portanto, às cinco páginas actuais correspondem neste bloco onze e não apenas dez das originais. Mas não fica por aqui o interesse do conjunto.

A publicação da história no Le Petit Vingtième incluiu uma prancha nunca mais reproduzida, com excepção do luxuoso álbum n.º 1 dos Archives Hergé, em 1973. Essa página “desaparecida” incluiu-se entre as agora numeradas de 98 e 99, denominando-se por isso 98a. Foi publicada no dia 18 de Dezembro de 1929.24-08

Se atentarmos na sequência gráfica, facilmente notaremos a sua lógica, pois Tintin ainda leva as mãos à cabeça, atingida em cheio pela caveira projectada do armário e pelo quadro tombado da parede, e não está frente à porta que acabara de fechar mas junto ao canto da sala… Em boa verdade, a página suprimida nada acrescenta em valor narrativo, embora constituindo um interessante registo histórico.

Já agora, para completar esta nota formal, cite-se outro facto de similar e curioso interesse. As páginas 99 e 100 da aventura publicada no Le Petit Vingtième dispuseram de um luxo inabitual, sendo coloridas em vez de impressas a preto e branco como era costume. Tratou-se do número de Natal, em 25 de Dezembro de 1929, pelo que esta bicromia -preto e magenta- valorizada por tramas tipográficas, permitiu o raro efeito que aqui se evoca. Depois, a restante história continuaria a preto e branco…

24-07

Por falar no preto e branco, valerá a pena citar uma “artística” interpretação atribuída por alguns respeitáveis estudiosos da obra de Hergé. Por exemplo, quanto à sequência de três vinhetas negras, no final da página 103, Michael Farr (Tintim – O sonho e a realidade, Difusão Verbo, 2005) relaciona-a com a influência do suprematismo russo, doutrina pictórica que tem como principal cultor Kazimir Malevitch (1878-1935). Sendo certo que a obra mais representativa do seu abstraccionismo é Quadrado negro sobre fundo branco, pintada entre 1913 e 1915, parece-me abusivo, especulativo, talvez mesmo pedante estabelecer qualquer paralelo entre este quadro e a vinheta final da página, totalmente negra, situação aliás desprezada, como de costume, na versão clandestina iraniana.

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Ora acontece, em primeiro lugar, que Hergé utilizara em situações anteriores, a páginas 5 e 44, vinhetas negras deste tipo, e que irá abundantemente repeti-las no decurso de obras posteriores. Depois, nesta concreta passagem narrativa, as exigências da sua própria e natural auto-censura criativa implicariam a ausência de representação do auto-massacre perpetrado pelos comissários soviéticos. Já bastará observar de relance os seus dramáticos efeitos, logo na vinheta em que regressa a iluminação, estrategicamente desligada e ligada por Tintin…

Por quê procurar em inventivas e artificiais “explicações” aquilo que está à vista -passando o paradoxo- com linear clareza?

Analisando o conteúdo deste bloco, nele notaremos mais uma insistência nostalinlenintrotsky primarismo da mensagem anti-soviética que constitui um dos mais óbvio objectivos desta aventura. O casual encontro de Tintin com o esconderijo dos tesouros acumulados por Lenine, Trotsky e Estaline, depois de estes terem espoliado o pobre povo russo, vem baralhar grosseiramente a realidade, para além de meter no mesmo saco personalidades tão diversas como as unidas naquele triunvirato.

Depois, no mesmo esconderijo povoado de “fantasmas”, encontraremos as reservas de trigo, caviar e vodka destinadas a exportação, para assim as autoridades provarem virtual e propagandisticamente os “excessos” da produção soviética, em clara oposição à real fome reinante no país.

Finalmente, são apresentadas as reservas de dinamite e chedite (explosivo constituído por uma mistura de clorato de potássio com substâncias carbonosas), estas destinadas à exportação de… atentados.

Neste episódio ficam portanto registadas mais algumas das constatações in loco colhidas nesse ano de 1929 pela reportagem do enviado especial à Rússia Soviética, o jovem e prometedor jornalista Tintin.

            António Martinó de Azevedo Coutinho

1 thought on “Tintin volta ao Irão – 24

  1. Olá, meu nome é Victor e acabei de encontrar por acaso esta sua série de posts sobre a edição iraniana de Tintin. Muito interessante.

    Ao ler estes posta, me lembrei de um artigo do TheComicsJournal que analisa o cuidado com que o Hergé distribuía a informação visual em suas páginas –– algo que a edição iraniana certamente ignora e altera. Pode ser do seu interesse.

    http://www.tcj.com/layout-workbook-4/

    Um abraço!

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