Refugiados dentro e fora de portas

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Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.
H. Auden, Blues dos refugiados

O mundo dos grandes negócios internacionais do tráfico humano passa a ser, sem novidade, o fenómeno social deste novo século. Concluímos que tudo na vida é negociável (já o sabíamos, mas dissipam-se as dúvidas), ainda que não fosse expectável a dimensão institucional do paradigma. Poderemos apelar à ética ou à moral religiosa, mas o certo é que a complexidade dos interesses humanos e do mundo globalizado se sobrepõe a palavras, a tentativas moralizantes de denúncia, ao policiamento dos infractores e ao silêncio ensurdecedor dos inocentes.

Chegámos ao tempo da ritualização do mal. Se assistimos, no passado, a genocídios circunscritos a períodos de tensão bélica entre nações, a novidade é a de se esvaziar agora a carga trágica do termo (genocídio), apelidando-o de “desastre humanitário” (genopatia), para o qual a própria morte é comutada pela vida precária e adiada, a vida a prémio – uma vida detém uma cotação financeira potencial, no plano da adopção, da prostituição, da mão-de-obra cativa. Há um regresso a uma ordem esclavagista sem o cenário compulsivo de outros tempos – porque tudo agora é mais difuso. A própria qualificação do crime é uma nebulosa. O cenário assim montado permite-nos falar da teatralização da sociedade: sujeito, oponentes e adjuvantes, todos actantes necessários ao novo sistema económico-financeiro assente no sector da matéria-prima da reificação humana, coberto pelo manto diáfano da inevitabilidade do mercado.

Quando pensamos a questão dos refugiados, consideramos que não é fácil definir o seu estatuto, sem o inteirar, pelo menos, dos conceitos de deslocação e liberdade. O primeiro aspecto que nos autoriza a reflexão é o do imobilismo: deslocados por factores que não interessa enumerar, aos refugiados é retirado o sentimento de pertencer a um lugar e o livre-arbítrio de eleger uma forma de deslocação. Ao contrário, os refugiados são imobilizados, os seus direitos recusados, as suas possibilidades de acção vedadas. O lugar de acolhimento, um exílio, torna-se um local de paralisação, incompatível com o princípio de respeito pelo direito à liberdade. O paradoxo abominável dos refugiados reside na natureza perversa de que quem recebe também confina. O refugiado torna-se, não apenas um foragido imobilizado, mas um refém mais ou menos legitimado pela ordem judicial dos países ocidentais.

É por isso que a obra de García Lorca, A Casa de Bernarda Alba, (peça levada à cena no Liceu Francês pelo Grupo de Expressão Plástica e Dramática do Agrupamento de Escolas José Régio de Portalegre, nestes dias de Maio) exprime de uma forma absolutamente admirável o paradoxo da imobilização de quem, não estando sujeito a contingências extraordinárias, vive o drama da sua existência conforme o espartilho social assente na lógica da dominação das consciências. As mulheres desta casa, reféns de princípios morais, perderam o direito à deslocação e ao uso da sua liberdade. Todas as suas acções se orientam para subsistir num mundo que lhes retira a possibilidade de movimento. Mesmo quando acreditam ingenuamente que lutar por um homem é conquistar esse direito de circulação. Diria Tocqueville, porém, que “Quem procura na liberdade outra coisa que não ela mesma é feito para servir”. Todas estas mulheres, de uma forma geral, servem – não percebem que não podem aspirar a outra coisa. A verdade é que o contexto (de que Bernarda Alba é o modelo simbólico) da época fazia da mulher o eterno, imperceptível e socialmente aceite refugiado. Não temos a certeza de que isso tenha acabado.

Quando pensamos em refugiados, pensamos que se devem estabelecer alguns padrões. Os mais velhos, as crianças e as mulheres sofrerão sempre um mais intenso processo de paralisação, uma dupla discriminação. São os refugiados dos refugiados. E a sociedade da renúncia está instalada. Venha o espectáculo.

António Jacinto Pascoal
Professor

Um ricochete certeiro! – 01

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Em mais uma interessante iniciativa editorial do Público no aliciante domínio da BD, eis-nos perante um regresso, em oportuno ricochete: Ric Hochet, ardina-jornalista-detective que fez as delícias de muitos de nós, desde as páginas, saudosas, do Cavaleiro Andante, do Zorro, do Tintin e de alguns outros títulos nacionais de referência.

Ric Hochet, embora nunca tenha atingido o íntimo significado pessoal de Tintin que descobri muitos anos antes e em inolvidáveis circunstâncias, é um dos meus heróis predilectos.

Criado há 60 anos por uma dupla de notáveis criadores da escola francófona dos quadradinhos, o argumentista belga André-Paul Duchâteau e o desenhador francês Tibet (Gilbert Gascard), o onomatopaico Ric Hochet nasceu para a aventura em 12 de Maio de 1955, nas páginas da edição francesa n.º 342 do jornal Tintin. Era então um adolescente curioso e decidido, ardina e detective ocasional.

O seu próprio estilo gráfico, tal como aconteceria um pouco com o jornalista ric 01 - 09Tintin, foi evoluindo até se tornar quase realista, tanto nas figuras como nos cenários. A personagem ganhou direitos de cidade e bem depressa conquistaria imensa popularidade entre os leitores.

Os seus companheiros ou aliados tornaram-se consistentes -Bourdon, Ledru, Nadine, Richard, Hermelin…- e o herói mereceu mesmo o direito a possuir inimigos de estimação, como o Carrasco e o Serpente. Sinceramente, com todo o respeito pela escolha do Público, acho que falta aqui o Camaleão, algo subalternizado, apenas com uma referência.

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Como quase sempre vem acontecendo -Tintin é uma das raras excepções- outros criadores foram continuando a série das aventuras de Ric Hochet, que hoje contará com cerca de oito dezenas de títulos. Uma curiosidade: tal como Tintin tem como companheiro o cão Milou, também Ric Hochet, embora sem uma tão estreita relação, dispõe de um gato, o Nanar…

O jornalista Ric Hochet, que pertence aos quadros do jornal La Rafale, apresenta uma quase invariável imagem de marca, calças de ganga, camisola vermelha de gola alta, um casaco pied de poule e, por vezes, uma gabardina bege, deslocando-se prioritariamente num vistoso Porsche amarelo. As suas histórias rivalizam de algum modo com as do lendário 007, mantendo sempre um suspense onde por vezes o jornalista-detective corre perigo de vida.

É muito antigo e bastante diversificado o percurso indígena de Ric Hochet.

A sua primeira aparição aconteceu no Cavaleiro Andante, o jornal juvenil que sucedeu ao Diabrete e antecedeu o Zorro. Foi aí reproduzida a pequena historieta completa de apenas 4 páginas que o apresentara no Tintin francês, Mène le Jeu, entre nós traduzido por Qual dos Três? Aliás, o próprio herói, estávamos então no período “nacionalizante” mais agudo, 1955, foi crismado de João Nuno!

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Pela sua curiosidade, iremos aqui reproduzir amanhã esta curta banda desenhada, que servirá como uma espécie de apresentação do herói, quando ainda muito jovem, antes da divulgação de outras suas posteriores aventuras.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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Novela gráfica – catorze

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Fixemos estas datas como fundamentais: em 1978, Will Eisner consegue fazer publicar Um Contrato com Deus, a sua primeira graphic novel, e em 1985 é editada a obra teórico/prática da sua autoria Os Quadradinhos e a Arte Sequencial.

Devemos supor que o autor tenha procurado traduzir neste volume de tese a suanov 0 visão sobre a novela gráfica. E tal acontece.

Disponho das duas obras teóricas de Will Eisner em edições brasileiras, julgando que elas não terão sido traduzidas em Portugal. A primeira é da Martins Fontes, e dispõe de um sub-capítulo dedicado ao tema que nos interessa. Vale a pena transcrever o conceito que o autor da obra que é comummente considerada pioneira no género ali esboçou sobre esta, até porque tinham então passado apenas sete anos sobre o seu lançamento.

Eis o que ali escreveu a propósito Will Eisner, sob o título A graphic novel:

Em anos recentes, um novo horizonte se abriu com o surgimento da graphic novel, uma forma de revista de quadradinhos, ainda em estado embrionário de desenvolvimento, que vem sendo foco de grande interesse. Os esforços com vistas a essa aplicação do meio, aleatórios e entusiásticos, ainda esbarram num público impreparado, para não falar num sistema geral de distribuição mal equipado, adaptado às condições de um mercado geral em que a apresentação segue padrões antiquados.
Historicamente, os quadradinhos têm-se restringido a narrações breves ou a episódios de curta duração, mas movimentados. Na verdade, supunha-se que o leitor buscava nas histórias em quadradinhos informações de transmissão visual instantânea, como nas tiras de jornais, ou uma experiência visual de natureza sensorial, como nos quadradinhos fantásticos. Entre 1940 e o início da década de 1960, a indústria aceitava, comummente, o perfil do leitor de quadradinhos como o de uma “criança de 10 anos, do interior”. Um adulto ler histórias em quadradinhos era considerado sinal de pouca inteligência. As editoras não estimulavam nem apoiavam nada além disso.
As primeiras narrações em tapeçarias, frisos ou hieróglifos registavam eventos ou procuravam reforçar mitologias; elas falavam a um grande público. Na Idade Média, a arte sequencial procurava narrar episódios edificantes ou histórias religiosas sem grande profundidade de discussão ou nuance, para um público que tinha pouca educação formal. Assim, a arte sequencial desenvolveu-se até atingir a forma de uma espécie de taquigrafia, que empregava estereótipos ao referir-se ao envolvimento humano. Para os leitores que desejavam temas mais refinados, narrativas mais subtis e complexas, era mais fácil aprender a ler palavras. A aplicação futura da arte sequencial descobrirá que este é o seu maior desafio.
O futuro da graphic novel encontra-se na escolha de temas importantes e na inovação da exposição. Dado que, apesar da proliferação da tecnologia electrónica, a página impressa comum manterá o seu lugar no futuro imediato, parece que atrair um público mais refinado está nas mãos de artistas e escritores sérios de quadradinhos, dispostos a correr o risco do ensaio e erro. Os editores são apenas catalisadores. Não se deve esperar mais nada deles.
O futuro dessa forma aguarda participantes que acreditem realmente que a aplicação da arte sequencial, com o seu entrelaçamento de palavras e figuras, possa oferecer uma dimensão de comunicação que contribua para o corpo da literatura preocupada em examinar a experiência humana. Essa arte, então, consiste em dispor imagens e palavras, de maneira harmónica e equilibrada, dentro das limitações do veículo e em face da ambivalência do público em relação a ele.
Apesar do estilo, da apresentação, da economia de espaço e da natureza tecnológica da reprodução, os balões e os quadradinhos ainda são as ferramentas básicas do trabalho. Quanto à receptividade do público, ela deverá mudar, e certamente aumentará à medida que o produto oferecer mais e se tornar mais importante.

Parecem bem claros os argumentos e os objectivos traçados por Will Eisner. E pode agora perceber-se o motivo pelo qual eu quis oportunamente citar John Steinbeck e a sua admiração por Al Capp.

Will Eisner é uma personalidade invulgar no mundo da banda desenhada e John Steinbeck no da literatura. Pois a grandeza dos seus pensamentos pode desde logo medir-se pela universalidade patenteada nas respectivas sumárias transcrições aqui trazidas, quando o primeiro, um homem da imagem, garante que a página impressa, escrita, manterá o seu lugar no futuro imediato apesar dos progressos electrónicos, enquanto o segundo, um homem das palavras, admite que a literatura de amanhã poderá ser projectada nas nuvens, como imagem, devido aos progressos electrónicos…

Curiosíssimo complemento!

Não começámos, em sintonia com João Miguel Lameiras, a destacar a base de tudo, na imagem e no texto originais? Tudo se vai articulando, sobretudo agora, quando vamos afinando (!?) critérios em torno da novela gráfica.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Obrigado, Portalegre! – seis (fim)

obrigado portalegre

As redes sociais, apesar de alguns relativos méritos, transformaram-se num veículo acessível, poderoso amplificador de opiniões, de todas as opiniões e… palpites. Infelizmente, sob esta capa de aparência democrática, também carregam consigo a possibilidade do fácil exercício das críticas mais superficiais e mesmo o contributo das inconveniências em que o anonimato esconde a cobardia de uns quantos. Estou apenas a repetir-me, pois já aqui por diversas vezes referi o que penso a este respeito e, sobretudo, a explicação dos motivos pelos quais, a custo, mantenho alguma ligação ao facebook, apenas e só para o diálogo mais próximo com um grupo de familiares que estimo. De resto, nunca intervenho fora desse contexto e não exprimo ou não respondo a amizades, gostos, convites e outras banais formalidades de estilo, vazias de qualquer conteúdo ou significado autênticos. IMG_0612

Foi com alguma surpresa, depois com certa indignação, que me apercebi da polémica desencadeada a propósito do discurso da Presidente da autarquia portalegrense. Se coloquei aqui no blog os dois textos da responsabilidade da Rádio Portalegre e o do jornal Alto Alentejo foi precisamente por isso.

Presente na sala, como outras largas dezenas de participantes, ouvi as palavras da autarca, os seus cumprimentos, as referências ao tema do património industrial escolhido para este ano, os convites à participação, as alusões iniciais à sua esperança no futuro. Depois, escutei o sumário retrato que traçou do momento difícil que hoje Portalegre atravessa, fruto de orientações, opções e equívocos na vida comunitária que conduziram a perdas lentas mas constantes de tempo, de oportunidades e de recursos. A Presidente associou ao fenómeno um misto de indolência, apatia e dificuldades de afirmação e de reivindicação, comportamentos ligados a uma típica forma local de ser e de estar que nos conduz a criticar os nossos e a elogiar os outros…IMG_0613

Assim, chegámos ao que foi dramaticamente denominado de ponto de não retorno. Após este diagnóstico, que só poderia surpreender os mais desatentos, o que ouvi, o que creio termos todos os presentes ouvido, foi um testemunho de esperança, um convite à junção de esforços, uma afirmação de vontade para o combate à crise. Retive algumas frases e conceitos, como o do apelo à união dos autarcas, outras entidades e portalegrenses em geral, vivendo ou não em Portalegre, sem qualquer excepção, todos convocados para darem o seu contributo à difícil, mas possível, tarefa da recuperação. Manifestou expressamente a autarca a sua disponibilidade para um diálogo franco e aberto, sem sectarismos nem facciosismos, na procura das fontes do entendimento colectivo, sendo ainda tempo para a constituição de uma grande e coesa equipa apta à vitória no difícil e decisivo combate pelo futuro de Portalegre.

Foi o que entendi.DSC03876

Não ouvi desculpas fáceis, antes a assunção de responsabilidades. Não associei as referências à maneira “lagóia” de ser e de estar a um endosso de culpas, muito menos à procura de alibis. Então não é verdade, e todos certamente ouvimos, que o portalegrense Ceia da Silva, um homem carregado de experiência e de responsabilidade, aproveitou a ocasião para pedir à cidade que considere e realce o que de bom há nos portalegrenses, afirmando que tem pessoas de grande valor, mas é madrasta para aqueles que são seus?

E ninguém o criticou, tendo ele dito rigorosamente o mesmo, embora por outras palavras, que disse a autarca…

Sim, embora talvez isto custe a ouvir, somos desmazelados e resolvemos tudo à mesa do café, onde discutimos este mundo e o outro, desde o comportamento da mulher do próximo ao árbitro que prejudicou a nossa equipa, dos problemas da limpeza da nossa rua aos da administração da empresa do vizinho. Mas quando nos é pedida acção e intervenção concreta, assobiamos para o lado e não levantamos o rabo da cómoda cadeira onde nos instalámos. Somos assim.

Revelamo-nos excelentes a criticar, menos eficazes a produzir, magníficos a teorizar, mais modestos e praticar. Refugiamo-nos no individualismo mais egoísta, fácil e instantâneo, porque ser-se militante da uma autêntica intervenção comunitária é exigente, dá algum trabalho, chega mesmo a cansar e apenas produz frutos a mais longo prazo.

Não se pense que fui tentado a deixar aqui uma apreciação lisonjeira ao discurso da Presidente da autarquia portalegrense por dever de gratidão ou por simples solidariedade.DSC03877

Em termos meramente formais, não me limitei a reflectir sobre frases soltas retiradas e desligadas do seu contexto, processo sempre arriscado e apto a divergentes interpretações. Por isso, tive o cuidado prévio de transcrever as notícias, escritas, emitidas pela Rádio Portalegre. Em pura teoria da comunicação, elas podem prestar-se a estabelecer erróneas ou equívocas leituras, por vezes motivando falsas relações de causa e efeito. Pelo contrário, vi e ouvi repetidamente o registo videográfico, integral, das declarações produzidas. A diligente cooperação do meu neto Manuel permite-me conservar para o futuro a memória, completa, de uma tarde inesquecível. E isso foi-me útil neste particular.

Como portalegrense sempre preocupado com o destino da sua comunidade, manifesto a total disponibilidade pessoal para colaborar na tarefa de urgente e necessária recuperação da nossa terra.

Ficarei atento, extremamente atento, ao cumprimento das intenções claramente expostas pela Presidente da autarquia portalegrense. Creio que, em plena coerência com as suas lúcidas e corajosas afirmações, a formação da coesa e forte equipa apta ao combate terá de começar, incontornavelmente, pelo próprio elenco da edilidade.IMG_0608

Advoguei-o já publicamente, e por diversas vezes, antes do recente dia de festa que motivou esta série de crónicas hoje findas: uma Câmara com todos os membros dotados da possibilidade do pleno e efectivo exercício dos seus poderes e das suas responsabilidade é um instrumento decisivo, uno e apto a congregar todos os elementos da comunidade dispostos à dura luta pela recuperação e pelo futuro.

Por Portalegre, sempre!

António Martinó de Azevedo Coutinho