Novela gráfica – catorze

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Fixemos estas datas como fundamentais: em 1978, Will Eisner consegue fazer publicar Um Contrato com Deus, a sua primeira graphic novel, e em 1985 é editada a obra teórico/prática da sua autoria Os Quadradinhos e a Arte Sequencial.

Devemos supor que o autor tenha procurado traduzir neste volume de tese a suanov 0 visão sobre a novela gráfica. E tal acontece.

Disponho das duas obras teóricas de Will Eisner em edições brasileiras, julgando que elas não terão sido traduzidas em Portugal. A primeira é da Martins Fontes, e dispõe de um sub-capítulo dedicado ao tema que nos interessa. Vale a pena transcrever o conceito que o autor da obra que é comummente considerada pioneira no género ali esboçou sobre esta, até porque tinham então passado apenas sete anos sobre o seu lançamento.

Eis o que ali escreveu a propósito Will Eisner, sob o título A graphic novel:

Em anos recentes, um novo horizonte se abriu com o surgimento da graphic novel, uma forma de revista de quadradinhos, ainda em estado embrionário de desenvolvimento, que vem sendo foco de grande interesse. Os esforços com vistas a essa aplicação do meio, aleatórios e entusiásticos, ainda esbarram num público impreparado, para não falar num sistema geral de distribuição mal equipado, adaptado às condições de um mercado geral em que a apresentação segue padrões antiquados.
Historicamente, os quadradinhos têm-se restringido a narrações breves ou a episódios de curta duração, mas movimentados. Na verdade, supunha-se que o leitor buscava nas histórias em quadradinhos informações de transmissão visual instantânea, como nas tiras de jornais, ou uma experiência visual de natureza sensorial, como nos quadradinhos fantásticos. Entre 1940 e o início da década de 1960, a indústria aceitava, comummente, o perfil do leitor de quadradinhos como o de uma “criança de 10 anos, do interior”. Um adulto ler histórias em quadradinhos era considerado sinal de pouca inteligência. As editoras não estimulavam nem apoiavam nada além disso.
As primeiras narrações em tapeçarias, frisos ou hieróglifos registavam eventos ou procuravam reforçar mitologias; elas falavam a um grande público. Na Idade Média, a arte sequencial procurava narrar episódios edificantes ou histórias religiosas sem grande profundidade de discussão ou nuance, para um público que tinha pouca educação formal. Assim, a arte sequencial desenvolveu-se até atingir a forma de uma espécie de taquigrafia, que empregava estereótipos ao referir-se ao envolvimento humano. Para os leitores que desejavam temas mais refinados, narrativas mais subtis e complexas, era mais fácil aprender a ler palavras. A aplicação futura da arte sequencial descobrirá que este é o seu maior desafio.
O futuro da graphic novel encontra-se na escolha de temas importantes e na inovação da exposição. Dado que, apesar da proliferação da tecnologia electrónica, a página impressa comum manterá o seu lugar no futuro imediato, parece que atrair um público mais refinado está nas mãos de artistas e escritores sérios de quadradinhos, dispostos a correr o risco do ensaio e erro. Os editores são apenas catalisadores. Não se deve esperar mais nada deles.
O futuro dessa forma aguarda participantes que acreditem realmente que a aplicação da arte sequencial, com o seu entrelaçamento de palavras e figuras, possa oferecer uma dimensão de comunicação que contribua para o corpo da literatura preocupada em examinar a experiência humana. Essa arte, então, consiste em dispor imagens e palavras, de maneira harmónica e equilibrada, dentro das limitações do veículo e em face da ambivalência do público em relação a ele.
Apesar do estilo, da apresentação, da economia de espaço e da natureza tecnológica da reprodução, os balões e os quadradinhos ainda são as ferramentas básicas do trabalho. Quanto à receptividade do público, ela deverá mudar, e certamente aumentará à medida que o produto oferecer mais e se tornar mais importante.

Parecem bem claros os argumentos e os objectivos traçados por Will Eisner. E pode agora perceber-se o motivo pelo qual eu quis oportunamente citar John Steinbeck e a sua admiração por Al Capp.

Will Eisner é uma personalidade invulgar no mundo da banda desenhada e John Steinbeck no da literatura. Pois a grandeza dos seus pensamentos pode desde logo medir-se pela universalidade patenteada nas respectivas sumárias transcrições aqui trazidas, quando o primeiro, um homem da imagem, garante que a página impressa, escrita, manterá o seu lugar no futuro imediato apesar dos progressos electrónicos, enquanto o segundo, um homem das palavras, admite que a literatura de amanhã poderá ser projectada nas nuvens, como imagem, devido aos progressos electrónicos…

Curiosíssimo complemento!

Não começámos, em sintonia com João Miguel Lameiras, a destacar a base de tudo, na imagem e no texto originais? Tudo se vai articulando, sobretudo agora, quando vamos afinando (!?) critérios em torno da novela gráfica.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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