OK (ou KO!?) em patins

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OK em patins é preciso treinar mais!

Não correu pelo melhor. Compreende-se que o seleccionador tenha procurado renovar a equipa, mas a verdade é que os veteranos argentinos mostraram ser melhores. Portanto, é preciso acreditar no futuro e sobretudo treinar, treinar mais e melhor.

É neste sentido que trago hoje um contributo julgado oportuno e adequado. É tão perfeito que, embora tenha sido proposto em 12 de Janeiro de 1952, há mais de cinquenta anos, revela-se actual.

O óquei em patins, jogo admirável em que os portugueses foram e -esperamo-lo todos!- hão-de voltar a ser campeões do Mundo, é um desporto magnífico em que a mocidade gosta de exercitar-se. OK0

Ora isto não é actualíssimo, embora já escrito há mais de meio século!?

Fui buscar o texto, as imagens e as instruções a um jornal de quadradinhos de referência, o Cavaleiro Andante. E foi logo a abrir, nos seus históricos números 1 e 2, que este apoio desportivo foi publicado como separatas. O regulamento do jogo foi divulgado no segundo número, na data atrás indicada.

O traço inconfundível de mestre Fernando Bento, uma “herança” que o director Adolfo Simões Muller trouxera do Diabrete, é bem patente nos “bonecos”.

Eis uma relíquia de tempos em que o nosso hóquei (agora com um h, apesar do acordo ortográfico e mesmo sem o lermos!) patinado dispunha de um mais risonho futuro…

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Enfim, outros tempos, de antes das troikices desportivas que nos vão afectando. Por isso, o conselho aqui fica. Basta seguir as instruções, colando as figuras em cartolina fina, face com face, e o tabuleiro em cartão grosso. Com discos de cortiça ou madeira leve como base erguem-se na vertical os jogadores. As balizas ganharão em ser compostas segundo a sugestão, com ajuda artesanal familiar e a bola pode ser um pequeno botão -aqui as coisas parecem resvalar um pouco para o hóquei sobre o gelo!- preferindo eu uma esfera…

Aplica-se depois o regulamento do jogo, que é comandado pela sorte dos dados. Enfim, já aqui isto me parece um desporto mais ou menos aleatório, fora da verdade ética e olímpica. Pensando melhor, talvez seja realista.

E pronto! Vamos a treinar, porque o Campeonato do Mundo está à porta!

À porta da saída, acrescento e rectifico. À porta baixa.

António Martinó de Azevedo Coutinho

SYNTAGMA – a crise grega vista pelo povo

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SYNTAGMA – A crise grega vista pelo povo

SYNTAGMA é um filme documental de curta metragem realizado na Grécia pela MOVA FILMES  durante a crise económica que teve início em 2010. Uma crise nacional que se iniciou através da Crise da dívida pública da Zona Euro, esta última com origens em 2008. A situação agravou-se quando se descobriu que o governo grego estava a ocultar dados macroeconómicos, entre eles o verdadeiro valor da dívida nacional.

Rodámos mais de 6.000 quilómetros de carro. Iniciámos em Atenas, onde alugámos um carro e começámos a descer a costa Leste. Atravessámos o estreito que liga ao Peloponeso e por lá nos estabelecemos durante mais de 30 dias. Tivemos a oportunidade de conhecer de perto os verdadeiros motivos que geraram e continuam agravando a crise grega, que não se resume apenas a uma crise económica mas a algo muito mais profundo: UMA CRISE CULTURAL.

As novas gerações nascem completamente presas numa complexa trama económica: um voraz sistema capitalista de luxo, onde aqueles que não possuem automóveis, roupas e costumes luxuosos são automaticamente marginalizados nas suas rodas sociais. Isso gera algo surpreendente no pensamento dos jovens. Eles constroem cascas falsas, tornando as suas imagens glamorosas, porém com dívidas astronómicas. Presenciámos algumas situações absurdas como famílias morando todas juntas em casas extremamente simples do interior, e carros de alto luxo nas suas garagens. Quando conversávamos com estes, diziam que as dívidas podem ser levadas até o fim! SYNTAGMA é o nome da principal praça grega, localizada em frente ao Parlamento em Atenas. Durante a crise económica de 2010, Dimitris Christoulas, um farmacêutico aposentado de 77 anos, suicidou-se, com um tiro na cabeça após gritar “para que eu não deixe dívidas aos meus filhos“.

 Publicado em 21 de Fevereiro de 2014

A produtora MOVA Filmes, com sede em São Paulo, Brasil, é especializada em vídeos para a web e vem expandindo a sua área de actuação desde Outubro de 2009.

mova filmesSomos uma trama tecida por sonhadores; verdadeiros entusiastas da vida. Pessoas que dedicam suas atenções às questões mais puras e verdadeiras para si mesmas. A MOVA são os olhos e ouvidos pelos quais interagimos com o mundo; são os olhos e ouvidos de um organismo completo, chamado PROJECTO MOVA.

PROJECTO MOVA é uma produtora de projectos livres focada na área da educação. Isso envolve saúde, economia, audiovisual, política, cultura, arte entre outros. Domínios de profunda relevância para o desenvolvimento de uma sociedade mais consciente e consequentemente presente em sua própria existência. Cada projecto é uma célula criativa que ganha vida e tamanho a medida em que novas ideias e pessoas se incorporam. Estas células, por sua vez, se conectam entre si de maneira a gerar sinergia e escala, formando assim uma robusta estrutura de comunicação e disseminação do conhecimento.

Somos a favor da vida; da felicidade; da saúde e da paz. Nosso foco está em disseminar o conhecimento e assim promover a realização de algo que leve as pessoas a serem mestres de si mesmas e, consequentemente, seres humanos melhores. Para conhecermos a nós mesmos, precisamos reflectir, e interpretar a nós mesmos. A isso chamamos autoconhecimento, fruto da introspecção e da meditação. Todos somos tutores; mestres.

O estranho caso do submarino voador – 17

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Arrumado aeronauticamente O Caso Tournesol, o que nos espera é uma aventura cheia de aviões, onde figura imensa gente recuperada de anteriores crónicas. Ficou esta nova história conhecida como Coke en Stock ou, entre nós, Carvão no Porão, e tratou de um tema muito sério, as formas modernas de escravatura. Aconteceu em 1956 e ainda hoje, quase sessenta anos depois, se mantém actual. Infelizmente.

Embora por alguns considerada como uma espécie de retrospectiva da obra de17 - 0 Hergé tal a profusa participação de figurantes secundários, esta aventura não vai proporcionar a Tintin qualquer intervenção aeronáutica relevante. A este nível, a história é pouco representativa, uma vez que o jornalista apenas será passageiro, por diversas vezes, sofrendo até um acidente aéreo sem qualquer consequência de vulto, sendo também atacado por aviões e assistindo ainda a mais manobras bélicas acontecidas com participação de outras aeronaves. Apenas isso.

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Os aviões são portanto peças constantes no desenrolar da aventura, começando por uma sua fotografia logo na página 3 até uma notícia alusiva na 60.

Onde eles começam a intervir mais acentuadamente é na notícia de venda de aviões, tanques e submarinos patente num velho jornal, logo associada à tal fotografia inicial, assim desencadeando a trepidante aventura. No entanto, como se pode constatar pela imprensa de certas épocas, a venda pública de excedentes de guerras era um negócio quase vulgar.

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A história que se segue virá trazer à tona dos sucessivos episódios uma numerosa galeria de personagens secundárias do universo tintinesco, ao ponto de certos estudiosos da obra, com algum exagero, lembrarem o friso humano de Balzac em A Comédia Humana. Mas podemos citar, para além das figuras centrais do costume, o general Alcazar, o emir Ben Kalish Ezab e Abdallah, seu incorrigível filhote, os infames Rastapopoulos, Muller e J. M. Dawson, os patuscos Oliveira da Figueira e Seraphin Lampion, o enigmático Allan, o fidelíssimo Nestor e ainda a inenarrável Bianca Castafiore…

Segue-se a relação, também notável, das aeronaves que vão surgindo, para além das referências já anotadas.

O primeiro, encontrado por Tintin num armazém (pág. 12), é um modelo Mosquito, integrado no conjunto de uma dúzia, segundo a conversa ouvida pelo jornalista, que também fica sabendo que o lote inclui peças sobresselentes para os DC3 comerciais da Arabair.

É precisamente num destes aviões, um Douglas DC3, bimotor de uso civil muito generalizado e popular na época, que Tintin, Haddock e Milou embarcam (pág. 15), para mais adiante sofrerem uma aterragem de emergência numa praia, sem consequências.

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Mais adiante (pág. 26), vão surgir em acção alguns aviões da frota de combate do sheik rebelde no poder Bab El Ehr, os De Haviland Mosquito, os tais bombardeiros rápidos que tinham figurado passivamente até então. De realçar que se trata aqui de aeoronaves com o “focinho” adaptado à instalação de quatro metralhadoras.

Estes mesmos aviões atacarão depois a pequena barca onde os nossos heróis se deslocavam (pág. 34), acabando por afundá-la.

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A próxima aeronave é mais “pacífica”, pois trata-se de um Fairchild 24W, com motor Warner Scarab, avião ligeiro de transporte aqui usado em mera missão de observação e reconhecimento (pág. 51).

A variada relação vai terminar com a intervenção de pequenos e mortíferos hidroaviões de combate Curtiss Seahawk, com base num cruzador norte-americano da U. S. Navy (pág. 57).

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17 - 06Os aviões, de diversos tipos, surgem na presente aventura de Tintin sem que este tenha com eles qualquer especial proximidade. Há alguns estudiosos de pormenor da obra de Hergé que anotam certos desajustamentos cronológicos quanto à utilização de particulares tipos de aeronaves, nesta aventura. Acho que isso é irrelevante, pois a ficção permite uma ou outra pequena discrepância a este nível, onde tal rigor parece desprezível. A inserção lógica na narrativa e a sua verosimilhança são os factores mais significativos e, a esta luz, tudo se afigura normalíssimo.

A história termina com mais uma teatral e enigmática escapada marítima do inimigo tradicional de Tintin, o sinistro Rastapopoulos, e uma abusiva e desastrada intervenção terrestre do parasitário Lampion.

Voltarão os aviões na próxima oportunidade?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Colecções, profissões e mais sugestões – 23

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Para concluir esta passagem pelos temas militares no domínio das colecções, ainda por cima tendo aqui incluído um desvio temporal pela infância a propósito dos soldadinhos de chumbo, mal andaria se olvidasse as colecções de cromos. Também este domínio foi aí tratado e por diversas vezes. Trago apenas uns exemplos soltos.

As cadernetas, já em tempos modernos após a fase lambuzada dos caramelos de lata, propuseram em várias oportunidades a temática militar, armas, uniformes, exércitos, batalhas, insígnias e emblemas. No curto espaço de quatro anos, de 1963 a 1966, portanto há cinco décadas, foram publicadas entre nós, pelo menos que eu conheça (porque as possuo), três colecções alusivas, a saber:

1963 – Bandeiras e Uniformes, edição Ibis, Venda Nova-Amadora, com 264 cromos, numa adaptação do original espanhol da Bruguera, Barcelona.

1965 – História do Trajo Universal, edição Agência Portuguesa de Revistas, com 360 cromos originais.

1966 – Armas e Soldados, edição Ibis, Venda Nova-Amadora, com 248 cromos, numa adaptação do original espanhol da Bruguera, Barcelona.

A colecção de 1963, a primeira destas, é dividida em duas partes sensivelmente iguais, contendo bandeiras de países de todo o Mundo, por ordem alfabética, mais as das Nações Unidas, Leão e Sol Persa, Meia Lua Vermelha e Cruz Vermelha Internacional, as três últimas equivalentes. Portanto, é da segunda parte que constam os uniformes, surgidos, segundo o texto introdutório, da necessidade de os exércitos se distinguirem nos momentos de luta. Tendo os editores nacionais dedicado expressamente o conjunto ao “valoroso e nobre soldado português” sentiram-se na necessidade de acrescentar 13 cromos, os últimos, contendo representação de uniformes nacionais, que não constam no original espanhol, onde abundam ilustrações de origem hispânica. Os uniformes portugueses vão da Ordem de Avis, nos tempos do Condestável Nun’Álvares, até aos camuflados da Guerra Colonial, ainda na versão de 1963, portanto alusivos aos territórios ultramarinos ameaçados pelo terrorismo…

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Já a colecção de 1965, embora contendo uma maioria de trajos civis, apresenta alguns uniformes e apenas um destes dedicado a Portugal, com a representação de um soldado dos tempos da I Guerra Mundial. Sendo os cromos, capas e legendas da autoria de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes, com ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante, sob a supervisão de José de Oliveira Cosme, o “nacionalismo” não trouxe qualquer especial benefício à causa dos cromos, de apreciável qualidade, pois estes revelaram-se bastante isentos e neutrais…

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Quanto à caderneta editada em 1966, com um texto introdutório imbuído de pacifismo, o seu conteúdo mostra-se como o mais belicista de todos os agora evocados. Da fisga ao armamento nuclear, Portugal fica arredado de qualquer alusão.

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Após esta diversificada abordagem a temáticas militares, é tempo de regressarmos à sociedade civil. No próximo “capítulo” se dará aqui conta da inflexão aplicada às colecções, com ou sem fósforos como pretexto.

A seu tempo saberemos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um “paraíso” à beira-mar plantado…

portugal a saqueRelatório norte-americano denuncia
violações de direitos humanos em Portugal

Violência contra mulheres e crianças, tráfico de pessoas para exploração sexual e laboral, uso da força policial excessiva, sobrelotação das prisões e exclusão social de ciganos  são mencionados no relatório de 2014 do Departamento de Estado norte-americano

Um relatório do Governo norte-americano, divulgado quinta-feira, 25 de Junho, aponta a Portugal várias violações dos direitos humanos, como violência sobre mulheres e crianças, tráfico de pessoas para exploração sexual e laboral e uso da força policial excessiva contra detidos.

O relatório de 2014 do Departamento de Estado norte-americano, sobre direitos humanos, refere ainda, no que toca a más práticas de Portugal, a detenção de pessoas que procuram asilo, a discriminação e a exclusão social de ciganos, a diferença salarial entre homens e mulheres e a prática da mutilação genital feminina entre a comunidade da Guiné-Bissau residente no país.

Em particular, sobre o sistema prisional e judicial, o documento enumera o abuso e o uso da força excessiva da polícia e dos guardas prisionais sobre detidos e reclusos, a sobrelotação e a insalubridade das prisões, o menosprezo da Polícia Judiciária pelos direitos dos detidos, o tempo prolongado da prisão preventiva, a recusa do contacto de detidos com familiares e advogados e a integração no mesmo espaço de reclusos jovens com adultos e de presos preventivos com condenados.

Para Portugal, o relatório cita, em geral, dados de organizações não-governamentais, organismos estatais e documentos oficiais, de 2012 e 2013, salientando serem os mais recentes que foram disponibilizados.

O documento destaca que, nos primeiros 11 meses do ano passado, foram assassinadas 39 mulheres, por violência doméstica, crime cujas denúncias aumentaram 2,4 por cento em 2013 face a 2012.

A maioria das queixas de maus-tratos e outros abusos das forças policiais sobre detidos e reclusos, decorrentes do uso da força excessiva, recaía, em 2012, sobre a PSP (405) e a GNR (310).

Segundo o relatório, as prisões foram concebidas para um total de 12.591 reclusos, mas tinham, em Novembro, 13.938.

No emprego, as mulheres ganham, em média, menos 27 por cento do que os homens, apesar de a lei prever a igualdade salarial.

Sem mencionar números, o documento aponta um “vasto número” de ciganos a viver em acampamentos instalados em áreas isoladas, sem acesso a água ou luz, e, por vezes, separados com muros do resto da população. Refere também abusos da polícia.

Quanto ao tráfico humano, o Departamento de Estado norte-americano regista que, em 2012, havia 219 casos confirmados ou pendentes, sendo que 138 das vítimas eram sujeitas a trabalho escravo e 53 a exploração sexual. Do total de casos, 49 reportavam-se a crianças.

O trabalho escravo ocorria na restauração e agricultura, adianta o Departamento de Estado.

Lusa/EXPRESSO
26 de Junho de 2015

Um Astérix lusitano

José Ruy é um dos mais férteis e inspirados autores portugueses de bandajose_ruy desenhada, felizmente ainda em actividade numa longa e notável carreira. São quase incontáveis as suas obras, quer em jornais da especialidade ou em álbum, assim como na ilustração.

Na minha colecção de recortes existe a primeira edição, integral, de uma sua história, com argumento de Paulo Madeira Rodrigues, parodiando o mito de Astérix. Visando transplantar o clima, o tema e o estilo narrativo da romanesca crónica da resistência gaulesa ao domínio romano para a Lusitânia, procurando transferir para a nossa terra uma certa idiossincrasia genética, histórica e geográfica, a dupla criativa engendrou uma paródia divertida -ao estilo da época- que preencheu semanalmente, durante alguns meses, dezenas de páginas do já desaparecido diário A Capital, no seu suplemento Cena 7. capa

Foram no total 44 pranchas, uma delas dupla, publicadas aos pares todos os sábados entre 1 de Julho e 16 de Dezembro de 1972, ocupando praticamente o segundo semestre desse ano. Trata-se de uma história intitulada A Conquista do Algarve, integrada numa provável série de As Aventuras de Quatro Lusitanos e uma Porca. Mas a verdade é que aquela aventura permaneceu como a única e, quando mais tarde surgiu em álbum, em 1984 (Ed. Futura), o título escolhido foi este.

00-02Sendo certo que a nossa dupla não corresponde precisamente ao carismático par Goscinny e Uderzo, também parece evidente que o seu trabalho se terá revelado suficientemente digno dos objectivos visados, em particular o de “nacionalizar” a mítica criação, à nossa moda muito especial. O guerreiro lusitano Lusido, mais o seu inseparável companheiro Lusitanso, a rotunda sacerdotisa Lusidia com a sua porca-da-murça e ainda Lusibanco, um chico-esperto, descendo dos Montes Hermínios a caminho da Cinetânia, com passagem pelas terras de ribatajanos e além-tajanos, vivem algumas aventuras mais ou menos trepidantes, mais ou menos dialogantes…

Vou aqui reproduzir a história original, directamente digitalizada das páginas de A Capital, que coleccionei. Começarei simbolicamente essa “reposição” no dia 1 de Julho, quando se cumprem 43 precisos anos sobre o início da sua publicação no jornal, prosseguindo ao ritmo de quatro páginas de cada vez, às quartas-feiras e aos sábados, em onze sucessivas “entregas”.

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Pretendo tanto reproduzir uma raridade como lembrar, simbolicamente, a obra de um dos maiores e mais dotados criadores nacionais de BD, José Ruy, aqui assente num interessante e bem elaborado argumento de Paulo Madeira Rodrigues, que não deve ser esquecido.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Peniche já está a arder?

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fogueirinhas-1Escrevi o artigo a seguir há quase vinte anos. Hoje, repete-se aqui, em Peniche, aquela que é a sua prova desportiva mais carismática, num calendário anual rico e variado em diversas modalidades.

Este texto foi originalmente publicado no  jornal Fonte Nova, de Portalegre, e mais tarde na Voz do Mar, de Peniche, por vontade do saudoso amigo António Alves Seara, que então dirigia o quinzenário local. Há dois anos, por esta altura, coloquei-o no blog.

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Repito isso, hoje, como uma espécie de compensação. É que já corri as Fogueirinhas e tenho as Fogueiras como objectivo a cumprir, mas ainda não me sinto preparado para a sua dureza. Ficam por isso as palavras, por enquanto, pelos passos de corrida…

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GENTE CRESCIDA À VOLTA DAS FOGUEIRAS

De há anos que habitualmente passo algum do meu tempo numa pequena e simpática cidade do litoral, onde ainda me surpreendo com hábitos e costumes bem distintos dos que, por estas terras do norte alentejano, nos marcam.
No passado fim-de-semana aconteceu por lá uma corrida pedestre que a natural curiosidade e o expresso desafio de amigos me levaram a presenciar.
O primeiro sinal fora-me fornecido pelos cartazes que enchiam os espaços a isso destinados, paredes e montras em especial, proclamando a edição número de ordem não sei quantos da tradicional e clássica “Corrida das Fogueiras”. Num percurso de 15 quilómetros, bordejando o mar em quase toda a sua já apreciável extensão, a prova inseria-se mesmo no contexto de um conhecido troféu desportivo nos domínios do atletismo.
Mergulhei então mais a sério do que imaginara no ambiente da corrida. Acompanhado por sábio e experimentado cicerone, percorri previamente o traçado. Um pouco por todo o lado, preparava-se com profissionalismo um serão diferente. Para além da rigorosa marcação, quilómetro a quilómetro, de todo o duro percurso, empilhavam-se estrategicamente fragmentos de paletes de contentores destinados a constituir, pelo fogo, a nomenclatura justificativa do título da prova. Mais tarde, interrompendo o negrume da noite, as fogueiras constituíram simbólico testemunho e significativa imagem de marca. No concertado trabalho entre os aprumados escuteiros que alimentavam o fogo e os diligentes bombeiros que, posteriormente, anulavam os seus efeitos, desde logo encontrei justificação para o desconforto pessoal de enfrentar a noite de vento um pouco agreste, como é hábito por aquelas bandas do litoral oeste.
Porém, residiu na massa inicialmente quase indistinta dos próprios concorrentes o mais interessante da prova. Não sei quantos eram, mas seguramente muito mais de um milhar… à partida! E, surpreendentemente, talvez não muito menos… à chegada! Como é lógico, talvez o último tenha chegado -não posso precisá-lo com rigor- uma dilatada hora depois do primeiro. O que não teve, aliás, a mínima importância…
Dispus do privilégio de –atravessado por estratégico plano o sinuoso trajecto da corrida- acompanhar de muito perto e com inusitada frequência toda a prova. Bem cedo deixei de me preocupar, confesso-o!, com a cabeça do pelotão e a consequente luta pelo pódio. O que me prendeu foi a capacidade de um já maduro concorrente envolto numa inacreditável indumentária rosa eléctrico, a persistência de um invisual encostado ao seu paciente par, o insólito grupo excursionista constituído por uns quantos sexagenários ou, talvez, septagenários, os muitos conjuntos familiares onde só terá faltado cãozinho e papagaio para se apresentarem na máxima força, umas quantas consideráveis barrigas ou débeis cargas-de-ossos, gente, muita gente de óculos com imensas dioptrias, alguns coxos, não sei quantos diabéticos, asmáticos também alguns outros, certamente, todos heróis anónimos daquela noite tornada, afinal, inesquecível. Que me lembre, todos os que fixei, de início com algum injusto, irónico ou mesmo cruel comentário, depois, pouco a pouco, com quase desvelado e carinhoso apoio, embora apenas moral, todos vi chegarem ao fim… E, juro-o!, num primeiríssimo e ex-aequo lugar!
Foi essa, para mim, a grande lição da Corrida das Fogueiras, edição 1996.
Se aqui trago, por hoje, esta crónica (aparentemente) banal, ela não é menos sentida do que outras, talvez mais espectaculares.
Poluem-me ainda o espírito as aderências do bacoco empate parlamentar e das suas repugnantes sequelas, tanto as políticas como as chamadas desportivas. Quando reflicto sobre as ameaçadoras promessas da Liga do Pontapé na Bola de não mais investirem na formação -como se fosse aí que delapidassem milhões!-, junto-lhe a partir de agora a pedagógica lembrança aquela respeitável gente crescida correndo em volta das fogueiras. Se aquilo não era o povo, onde é que estava o povo?!
Seguramente, tal como eu, estão-se olimpicamente borrifando para a mafiosa classe dirigente do desporto luso, salvaguardadas as raras excepções que, felizmente, ainda por aqui restam. A imensa maioria daquela gente não precisa, para nada, da formação prodigalizada por suas excelências. Se puder fazer escola, autêntica, aquele contagioso espírito até pode produzir campeões.
Acredito, muito sinceramente, que não há nada mais profissional do que um bom amador.

 Portalegre, 1 de Julho de 1996
António Martinó de Azevedo Coutinho

Vozes no Largo – quatro

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QUESTÕES DE IDENTIDADE

 O caso passou-se há uns tempos, mas a sua actualidade mantém-se. Talvez seja mais correcto falar em casos, ainda que no fundo estejam intimamente ligados. Foram seus protagonistas o Super-Homem e o presidente Barack Obama, o primeiro a negar a sua nacionalidade e o segundo a confirmá-la.

Vamos por partes.

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O Super-Homem, extra-terrestre natural do planeta Krypton, “aterrou” no nosso globo no já distante ano de 1938. Dispenso-me de aqui relatar exaustivamente os pormenores da infância do super-herói, resumindo-os à sua adopção por um casal de fazendeiros do Kansas, os Kent. Assim, o pequeno Ka-El, kryptoniano de nascimento, tornou-se Clark Kent, cidadão norte-americano de pleno direito. Depois, também todos sabemos (através da banda desenhada ou do cinema) que os poderes sobrenaturais derivados da sua alienígena origem o transformaram numa espécie de “bombeiro de turno”, sempre pronto a intervir em todas as transgressões da lei e da ordem, resolvendo-as sempre em favor dessa lei e dessa ordem… desde que norte-americanas. O facto de se “enconder” sob a personalidade timorata dum vulgar jornalista não ilude os seus fãs, que tudo conhecem sobre as suas verdadeiras origem e crónica. Portanto, sobre o Super-Homem, não existem quaisquer confusões de identidade.

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Quanto a Barack Obama, as coisas parece não terem sido tão límpidas nem tão inequívocas. Pelo menos, foram recentemente postas em causa as suas autênticas origens, sobretudo quanto ao exacto local de nascimento. Também são conhecidas as razões, sobretudo conspirativas, dessas recentes acusações, insinuando-se que ele nascera no Kénia, provavelmente local bem mais distante do americano Kansas que o próprio planeta Krypton…

Posta em causa, desta forma quase “kafkiana”, a legitimidade constitucional da sua presidência, Obama viu-se forçado a exibir publicamente em finais de Abril de 2011 a própria certidão de nascimento, autenticada, por onde oficialmente ficou provado que nascera em Honolulu, no Hawai (portanto território norte-americano), no dia 4 de Agosto de 1961, pelas 19h24, hora local…

Intérpretes privilegiados e fiéis da american way of life, tanto Obama como o Super-Homem tornaram-se símbolos e imagens dos USA.

Quase coincidente com o episódio (real) da recente campanha anti-presidencial, o outro herói viveu um turbulento e grave capítulo (virtual) da sua vida pública. Foi este relato divulgado na revista Action Comics n.º 900, também em finais deste Abril. Aí, na aventura The Incident, o Super-Homem voou até Teerão onde participou, pacífica e solidariamente, numa manifestação pública de iranianos, na Praça de Azadi, contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad. O pior aconteceu no regresso à “pátria”, durante um forçado encontro com Gabriel Wright, conselheiro da segurança nacional, onde foi confrontado com a acusação de ter causado, com a sua atitude, um grave incidente diplomático: o governo iraniano entendera que o Super-Homem tinha agido em nome do próprio presidente dos USA, considerando tal intervenção como um acto bélico.

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Resumindo o crispado diálogo a seguir travado, aconteceu uma dura e firme reacção do herói, ao declarar que iria no dia seguinte à ONU, para informar esta organização da sua renúncia à cidadania norte-americana. É que -e continuo a citar o Super-Homem- ele estava farto de que todas as suas acções fossem interpretadas como instrumentos da política dos Estados Unidos. E, perante o espanto do agente governamental, continuou, dizendo que a verdade, a justiça e o modo de vida americano já não bastavam, porque o mundo era hoje mais pequeno, com a globalização… Terminou o seu duro testemunho, curiosamente lembrando que, como natural de outros mundos, era um extra-terrestre, estando no planeta Terra para defender e proteger toda a Humanidade…

Foi imediata e quase instintiva a reacção da opinião pública norte-americana, entre a profunda tristeza e a mais furiosa revolta. Um influente editorialista, Jonathan Last (The Weekly Standard), declarou: “Se o Super-Homem já não acredita na América, então ele não acredita em nada!

Em inúmeros blogs, foi defendida a deportação do herói para o seu planeta de origem e começou mesmo a circular um abaixo-assinado destinado a forçar os editores e autores da revista a retratar-se. Alguns comentadores viram neste episódio a prova definitiva da decadência do país mais poderoso da Terra…

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Estivemos no mundo fascinante da ficção, o do Super-Homem. Coincidente com este há o mundo real, o de Barack Obama. E o Prémio Nobel da Paz, um reconhecido admirador do Homem-Aranha, resolveu rapidamente a nascente crise cultural e ideológica, restabelecendo nos concidadãos o seu violentado amor-próprio: quase de imediato, no início de Maio de 2011, liquidou o sinistro arqui-inimigo número um dos Estados Unidos e de todo o Mundo, o super-terrorista Bin Laden.

E, para realizar tal proeza, não precisou da intervenção de qualquer super-herói alienígena, dotado de mágicos poderes.

Barack Obama confirmou assim a sua indiscutível cidadania norte-americana; até ao momento, ainda não constou que o Super-Homem se tivesse apresentado na ONU para ratificar a prometida renúncia. Questões, afinal, de identidade.

 António Martinó de Azevedo Coutinho
in A Voz Portalegrense (blog)
sexta-feira, 1 de Julho de 2011