Novela gráfica – vinte (final)

novela grafica cab

Novela gráfica, essa desconhecida; apetece-me parafrasear Stefan Zweig…

Na realidade, trata-se de algo que se quer distinguir, mas carecendo de lhe serem encontrados os dados essenciais próprios de uma definição, algo que se quer promover, retirando-se qualidade à massa indistinta de onde provém, algo que se quer considerar elevado a uma contraditória dignidade, em equívocas misturas “culinárias” (ou calinárias!?) de tudo e de coisa alguma… Com alguma dose de picante incluída.

Quem busca vislumbrar na pretensa novela gráfica um estádio que aproxima a banda desenhada da literatura, poderá facilmente confundir a telenovela com o cinema ou mesmo baralhar o teatro com a fotonovela… As bases não serão muito diversas; as teorias não estarão excessivamente afastadas.

Nada tenho a criticar a quem louva a dita novela gráfica, porque todas as opiniões -desde que sinceras e fundamentadas- são legítimas. Mas apetece-me perguntar se isso é feito em desfavor da banda desenhada, que o não merece. Distinguir a nobre novela gráfica da banal banda desenhada é um exagero imerecido e quase febril. O mal de Alzheimer não anda longe.Thierry-Taittinger

Creio que esta é uma fase passageira que não deixará sequelas nem exigirá vacinação. A banda desenhada readquirirá os seus direitos de cidadania e recuperará para o seu seio aquilo de que a pretendem amputar. Naturalmente.

Thierry Taittinger, director da publicação Beaux Arts Magazine, escreveu um belo editorial que abre a obra Qu’est-ce que la Bande Dessinée aujourd’hui? (Beaux Arts éditions, 2008).

Nesse editorial, intitulado Da Banda Desenhada como uma Arte (Rock), pode ler-se a seguinte passagem:

Permitam-me uma confidência: sou tanto um filho do rock como da banda desenhada. Um filho de Tintin e dos Beatles (ou de Spirou e dos Rolling Stones se preferirem). Como provavelmente alguns milhões de indivíduos. Rock e BD: duas sub-culturas, muito tempo julgadas menores, que puderam portanto divertir na segunda parte do século XX e mesmo adquirir nestes princípios do XXI se não a respeitabilidade pelo menos uma certa consideração. Estes dois modos de expressão tão parecidos nas suas contradições (pretensões mínimas mas difusão máxima) foram largamente enriquecidos ao longo de décadas com conquistas e sofisticações diversas. Quer se admita ou não, a nossa sociedade está hoje largamente impregnada por esse duplo imaginário, tanto sonoro como gráfico. Assim, sempre que se trata de responder à questão: o que é a banda desenhada hoje? estamos condenados a ser tão parciais e incompletos como se trocássemos a palavra BD por rock.

Lembro-me a este propósito, mais uma vez, do inspirado John Steinbeck quandowill 0122 previu que a banda desenhada poderia um dia ser projectada nas nuvens, depois de ter sido, em tempos distantes, esculpida na parede das cavernas. Hoje, poderá estar a meio caminho da escrita literária, com ilustrações de vanguarda. Onde está o problema? Onde reside a diferença?

Olhemos, mesmo de relance, o percurso de Rodolphe Töpffer a Moebius, de Winson Mac Cay a Hugo Pratt ou de Louis Forton a Georges Pichard e tentemos perceber, daí as aceitando, as profundas mudanças (evoluções) na arte de contar histórias aos quadradinhos.

Foi longa a presente série de crónicas, que poderia prolongar. Esta é afinal uma simples estação no meio do caminho em curso, com muito a percorrer. Mas é uma discussão interessante, apenas mais uma, nesta dinâmica forma de contar, e de estar ou de viver, que é a banda desenhada.

E neste acidentado percurso nem sequer vale a pena agora incluir, como se a História da Comunicação de facto se repetisse, algumas duras criticas e censuras que começam a desencadear-se sobre o “novo género”, como que ressuscitando o sinistro Wertham!

Vejamos. A recente colecção do Público abriu com um clássico da novela gráfica, incensada como obra-prima, como precursora do género, como uma excepcional referência. Pois Um Contrato com Deus, de Will Eisner, numa escolha e distribuição do Ministério da Educação brasileiro às escolas públicas de São Paulo, desencadeou uma apaixonada campanha acusando o livro de incluir cenas de violência, sexo explícito, adultério, estupro e pedofilia.

No entanto, o Programa Nacional Biblioteca da Escola, patrocinado pelo Ministério, enviou Um Contrato com Deus directamente para os estabelecimentos de ensino. Alguns professores e directores, horrorizados com a simples consulta ao livro segundo testemunhos publicados na imprensa diária, opuseram-se à sua utilização.

Não comento o episódio, apenas o citando como mais um elemento para a discussão.

Mais modestamente, limito-me a deixar aqui os ardentes votos pessoais de que nunca se concretize a previsão de Art Spiegelman, a de que um dia a novela gráfica virá equipada com um marcador de páginas.

A extensão não é tudo e a presunção de alta qualidade literária idem.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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