O agente 007 chegou aos quadradinhos há mais de cinquenta anos. E outras memórias anexas…

007 - 0

Um curto mas destacado texto que ípsilon, excelente suplemento cultural do Público, divulgou na sua recente edição da passada sexta-feira, 17 de Julho, dispõe de informações confusas e truncadas. Começa pelo título onde se lê: O agente 007 chega aos quadradinhos. Depois, acrescenta que James Bond, o espião mais famoso do cinema, vai chegar também aos livros em forma de banda desenhada. Mais adianta, trunca o nome do herói e chama-lhe James Brown. Enfim, basta.

007 - 1

Para já, o agente secreto 007 chegou aos quadradinhos logo a seguir a ter sido inventado na ficção romanesca, em livro e não no cinema, por Ian Fleming.

Antigo oficial dos serviços secretos britânicos, Ian Fleming criou em 1952 um novo herói ficcional, James Bond, misturando habilmente as inspirações derivadas das sua própria experiência com as de uma fértil imaginação. Quando foi publicado em 1953, o seu livro Casino Royale tornou-se logo um sucesso. Seguiram-se mais doze romances de espionagem e duas colecções de contos sobre aquela personagem, até 1966. Os dois últimos títulos seriam publicados postumamente, após a morte do autor, em 1964.

Ora aconteceu que em 1957, quando a personagem James Bond/007 já era famosa, o conhecido jornal inglês London Daily Express manifestou ao autor a intenção de publicar adaptações em banda desenhada daquelas obras. Fleming mostrou natural relutância perante o desafio porque entendeu que as histórias em quadradinhos não teriam a qualidade da sua escrita e que isso prejudicaria a série de aventuras que ainda tencionava escrever. Mas os editores do jornal insistiram tanto e com tais argumentos que Ian Fleming acabou por concordar.

Assim, em Julho de 1958, numa adaptação de Henry Gammidge, servida por magníficas ilustrações de John McLusky, Casino Royale começou a ser publicado em BD e com enorme sucesso, sem nada ter perturbado a obra literária. Bem pelo contrário. Esta série inicial englobaria, até 1963, mais uma dúzia de títulos de aventuras de James Bond.

Deve registar-se, para esclarecer devidamente o texto do ípsilon, que o cinema só iniciaria a sua saga de adaptações dos romances de Fleming em 1962, com Dr. No, com Sean Connery no papel de protagonista. Portanto, a banda desenhada “descobriu” 007 quatro anos antes de o cinema o ter feito…

A Fleming Trust, empresa inglesa encarregada da utilização comercial da obra do autor entretanto falecido, decidiu retomar a exploração das adaptações em BD, confiando essa tarefa ao argumentista norte-americano James Lawrence e ao desenhador de origem russa, naturalizado australiano, Yaroslav Horak, que retomaram a série, acrescentando-lhe novas histórias.

Em Portugal, para além de outras publicações, o vespertino A Capital publicou tiras diárias de aventuras de James Bond.

Porém, as mais interessantes edições das aventuras de James Bond entre nós são as incluídas na colecção Policial, um dos vários títulos paralelos a O Mundo de Aventuras que a dinâmica Agência Portuguesa de Revistas publicava mensalmente com êxito. Trata-se dos volumes n.º 7, Aventura em Cuba (1 de Abril de 1961) e n,º 16, Um caso de espionagem (1 de Janeiro de 1962). Acresce o interesse suplementar de estas aventuras em quadradinhos serem um exemplo clássico dos efeitos da implacável censura oficial ao tempo instituída e praticada em Portugal, pois para além de algumas nítidas intervenções no conteúdo, o próprio herói teve o seu nome “nacionalizado” passando de James Bond a Jaime Bravo.

007 - 2

007 - 3 007 - 4

O essencial da informação contida no texto de referência, a de que vão regressar em força as histórias aos quadradinhos contendo as façanhas de James Bond/007, é correcto pois a editora norte-americana Dynamite Entertainment garantiu os direitos de tal publicação. Entregou a tarefa a gente experimentada, o argumentista Warren Ellis e o desenhador Jason Masters. E assim, em Novembro próximo, será editada a primeira parte das seis que compõem esta nova série protagonizada pelo mais conhecido espião de todos os tempos, o mítico James Bond, conhecido como 007.

O editor da Dynamite, Mike Lake, comentou a este propósito: “Bond é uma dos personagens mais reconhecidas no mundo, mas sabemos muito pouco sobre os seus antecedentes e sobre as suas origens. Os vilões de Bond são algumas das figuras mais memoráveis da cultura popular. De onde vêm eles? E, em alguns casos, para onde vão?

Teremos respostas a estas questões? É o que saberemos em breve.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

2 thoughts on “O agente 007 chegou aos quadradinhos há mais de cinquenta anos. E outras memórias anexas…

  1. Excelente (e didáctico) o seu texto, amigo Martinó, sobre o espião mais famoso do mundo e arredores. Infelizmente, os cronistas actuais parecem desconhecer muitas coisas sobre a origem dos heróis da BD (e de outras áreas) e limitam tudo à sua reduzida visão temporal, que não ultrapassa, na maioria dos casos, o último decénio do século XX… onde, para eles, a história da BD realmente começou. Quanto à portuguesa, duvido que saibam sequer que já existia no tempo dos seus avós.
    Em relação às novas aventuras de 007, aguardemos com expectativa, como sugere. Desde já, o projecto, para quem aprecia a BD moderna, parece estar em boas mãos. E Bond é um herói cuja aura ainda permanece intacta… apesar de alguns “atentados” que já sofreu por culpa do cinema.
    JM

  2. Pingback: JAMES BOND – UMA LONGA CARREIRA NA BD |

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s