Assembleia Geral do CPBD

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clube

Quando anteontem um consócio do CPBD declarou alto e bom som que esta oportunidade de mudança e da perspectiva de uma nova vida poderia ser aproveitada para alterar o nome da associação, passando a chamar-se Clube Português de Histórias aos Quadradinhos, eu não poderia estar mais de acordo nem mais em desacordo. Quero dizer, compreendo perfeitamente que se denomine como foi escolhido quase há quarenta anos; agradar-me-ia, sentimentalmente, que a sua designação adoptasse uma denominação retintamente nacional. Isto é, foi pena que em 1976 os fundadores tivessem sido influenciados pela novidade de uma nomenclatura francófona em voga; seria contraproducente desperdiçar agora um considerável prestígio ganho sob esta designação, durante quatro longas e duras décadas.
Perceberam as minhas perplexidades? Eu também não.

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Fui propositadamente a Lisboa, para participar activamente na Assembleia Geral do CPBD. Revi amigos, conheci outros (a confirmar), convivi, entrei pela primeira e derradeira vez na mítica sede do Clube, ouvi opiniões e opinei, participei em discussões, e cumpri o direito e o dever de votar em decisão importante para o futuro. Calma, nada de confusões, sei que as Legislativas são apenas no próximo Domingo!

Também ampliei e valorizei o património bibliográfico pessoal, nos domínios da BD. Enfim, foi um dia globalmente positivo.

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Aquela questão da nomenclatura tem a importância que tem e só essa. Aliás, se pensarmos em termos filológicos, sabemos de há muito que nenhum dos termos pelos quais a banda desenhada é conhecida satisfaz em absoluto como definição. Nos mil e um escritos que já produzi sobre BD, refiro-a quase indiscriminadamente por qualquer dos seus diversos nomes e apelidos. E continuarei a fazê-lo. Mas Histórias aos Quadradinhos ficou-me dos tempos heroicos da infância quando O Papagaio, o Diabrete, O Mosquito e quejandos me marcaram para a vida… E para sempre.

Foi animada a discussão, civilizada sempre, reflectindo a paixão, saudável paixão, que nos une muito mais do que nos separa. Todos temos consciência da inevitabilidade e dos riscos da radical alteração que o Clube vai sofrer. E agitou-se, de forma consciente, a questão de conhecer com rigor a actual posição oficial da instituição, na sua relação com as diversas entidades administrativas. Vai ser esta uma tarefa prioritária. Outra, de natureza bem prática, respeita à transferência do património do Clube, já embalado e pronto para a mudança. A este propósito, sobretudo devido ao desaparecimento de alguns membros fundadores do Clube, inevitavelmente já acontecido, surgiram algumas interrogações sobre o eventual paradeiro de outros arquivos…

Quarenta anos são tempo considerável para a vida humana, metade de uma existência normal, enquanto a vida das colectividades pode e deve atingir séculos.

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O CPBD está numa charneira decisiva, na rara oportunidade agora concedida pela autarquia da Amadora, fruto de certa intermediação de um homem notável, quase lenda viva da banda desenhada lusitana. Porém, a colectividade vai ter de assumir uma diferente postura, tal como foi amplamente referido na Assembleia, deixando de viver apenas da “carolice” de uns quantos, quase sempre os mesmos, capazes de editar -e este é um bom exemplo- um boletim regular (vai no n.º 140!) com invejável qualidade, capazes de manter acesa uma chama de presença q.b. que congrega ainda muitos em torno de um projecto comum, capazes de garantir a organização de mostras de qualidade -como nos bons velhos tempos- à altura do prestígio granjeado desde os saudosos anos 80.

Perguntou alguém, com naturalidade institucional provinda de similares experiências estatutárias, que vantagens advêm da filiação no Clube, isto é, que regalias pode este atribuir aos seus associados. Provavelmente, a única resposta lógica, quase natural, ficou atrás expressa e deriva, aliás, da simples leitura do seu próprio regimento. Em boa verdade, a quase exclusiva regalia que o CPBD confere aos seus associados é a do serviço destes para com a causa, serviço voluntário, desinteressado, motivado pelo apreço, gosto, amor, paixão pelos quadradinhos [riscar o que não convier].

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Impõe-se agora a renovação que garanta a continuidade, precisamente para que o Clube ultrapasse a fragilidade humana dos seus membros, com maioria -ainda- dos “resistentes” da sua época heroica, ornada de inegável glória pública.

Por isso se elegeu uma nova Direcção. E fica aqui o meu reparo, a este propósito, agora reiterando por escrito o que ali declarei de viva voz.

Convidada foi por militantes do Clube -para a presidência desta novel Direcção- uma personalidade disso considerada merecedora, pelas provas dadas nos domínios da BD, logo se manifestando o indigitado pela flagrante ausência no próprio acto criador do seu mandato. A ninguém pode ser recusado o direito, por justificada, imperiosa, urgente ou imprevista razão, de faltar a uma cerimónia pública ou privada previamente acertada e marcada. Porém, selar tal ausência com o mais absoluto silêncio já não se afigura -salvo melhor opinião- tão normal ou adequado. E isso aconteceu. A minha legítima curiosidade -e não era isolada- de conhecer pessoalmente e de ouvir a pessoa em que o Clube vai depositar uma parte significativa do seu futuro ficou totalmente frustrada.

Gostaria de tomar conhecimento do seu programa, de entender quais são as suas intenções e os seus concretos projectos, e nada, absolutamente nada, fiquei sabendo.

Provavelmente porque sou um alentejano que ainda não se adaptou aos estilos civilizados da capital é que manifesto estas estranhezas. Provavelmente…

Mas se concedi o meu voto, que nem sequer é secreto porque assinado, foi pelo facto de integrarem essa Direcção velhos amigos do Clube, seus fundadores e animadores desde sempre, garantias bastantes da coerente continuidade de um espírito construído durante quarenta anos. De outra forma, ter-me-ia abstido.

Espero e desejo que este episódio possa ser corrigido na futura actuação do CPBD e que a mágoa pessoal aqui expressa seja esquecida em função do comportamento colectivo da instituição, sob uma gestão motivada por renascido entusiasmo e bom senso. São estes os meus votos, no prolongamento do expresso na Assembleia, aqui e agora repetido.

Foi bom rever amigos, foi útil com eles discutir temas apaixonantes, foi oportuno participar convictamente na construção de uma obra colectiva.

A banda desenhada, perdão, as histórias aos quadradinhos merecem-no!

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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