Longe do litoral, vale a serra…

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LONGE DO LITORAL, VALE A SERRA…

Lá como aqui, no Brasil como em Portugal. Em Portalegre e em Portalegre…

A Portalegre brasileira deve o seu nome à Portalegre portuguesa. Não vale a pena recapitular a história, com mais de duzentos e cinquenta anos, já aqui contada. Quem a quiser recordar, basta lê-la em Meu avô “brasileiro” que está em arquivo no blog, desde há quase três anos, em Novembro de 2012.

As duas Portalegre’s têm diferenças e semelhanças. Destas, talvez a mais significativa seja a implantação, serrana. Ainda que estas serras, separadas uns milhares de quilómetros com um oceano de permeio, sejam naturalmente diferentes a sua maior diferença consiste na forma como são encaradas: no Rio Grande do Norte, com sagacidade e empenho; no Norte Alentejano, com distracção e desprezo.

Também este específico tema nem sequer é aqui novidade. Já o abordei, nomeadamente em Portalegre. A Estrada da Serra e a Quinta da Saúde, uma série publicada entre Março e Abril de 2013.

Integrei um elenco autárquico que nos anos sessenta do passado século concebeu um projecto de desenvolvimento turístico da Serra de Portalegre, a partir da carismática Quinta da Saúde, então alugada com vista à sua posterior aquisição. Hoje esta é uma ruína, lamentável ruína, com excepção da desenquadrada piscina. Como a Quinta, toda a serra está abandonada, como acontece desde o miradouro até à ermida de São Mamede. Citei apenas meros exemplos…

A serra poderia ser o mar do Norte Alentejano, banhando simbolicamente o tradicional “Triângulo Turístico” com Portalegre-Castelo de Vide-Marvão, mas hoje desarticulado. Está seco, pela falta de capacidade/vontade dos (ir)responsáveis locais.

Se agora evoco um penoso tema é porque as notícias que me chegam do Rio Grande do Norte são estimulantes. Para os portalegrenses brasileiros, apenas.

Conheço razoavelmente bem a serra de Portalegre RN. Numa das minhas estadias ali, tracei um plano de visita aos seus lugares mais carismáticos e muitos são, e de diversa natureza. A eficácia da Aucely, então secretária do Turismo da Prefeitura, mais a cooperação dos professores e colegas Alci e Afrânio, cumpriu o meu desejo pessoal com plena eficácia. Também conheço uma boa parte da serra, vizinha, de Martins. O conjunto é invulgar em interesse histórico, cultural, recreativo, paisagístico, gastronómico, etnográfico, desportivo, arqueológico, humano, afectivo…

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Acontece que a chamada sociedade civil da região serrana do Rio Grande do Norte decidiu empreender um projecto assente nessa riqueza turística, praticamente virgem, a que deu o nome de Circuito das Serras Potiguares. São jornalistas, colunistas, blogueiros, empresários, prefeitos e secretários a título individual, e profissionais liberais que assumiram, bem a sério, a tarefa de divulgar esse potencial.

Uma das suas primeiras concretizações será a edição de um livro, de início digital e depois impresso, denominado Circuito das Serras Potiguares. Dele constarão os caminhos e rotas do Circuito, as suas belezas naturais, dados históricos e culturais, fichas técnicas, fotografias profissionais das principais serras, mapas com roteiros turísticos sugeridos e outras informações complementares. O principal ênfase vai recair, com naturalidade, nos municípios de Portalegre, Martins e Pau dos Ferros, no Alto-Oeste Potiguar.

Os seus autores são Gilton Sampaio de Souza (texto) e Franskin Leite (fotos).

Os poderes públicos poderão ser consultados e, se manifestarem interesse, farão propostas e sugestões aos autores.

O maior interesse desta iniciativa, infelizmente quase impensável entre nós, é o facto de ela ter arrancado à margem da estrutura oficial, o que não significa, nem lá perto, contra esta. Isso fica amplamente provado pela frequente presença, como convidadas, de autoridades estaduais ligadas ao turismo. Mas foi da sociedade civil que partiu este grito de apelo à consciencialização dos cidadãos em geral e dos responsáveis oficiais, não se limitando a esperar pelas decisões centrais acerca do interior, quase sempre desprezado…

A economia regional será potenciada, surgirão postos de trabalho directos e indirectos e toda a região, pelo conhecimento público e pelas visitas que sobre ela advirão, poderá ser beneficiada ao nível de certas estruturas de que actualmente carece, como boas vias de comunicação.

Portalegre RN já foi cenário, ao que julgo desde Abril passado, de três reuniões do grupo que assumiu esta iniciativa. Apreciei nelas a presença de amigos e conhecidos com que conto naquela cidade, da qual também sou filho honorário.

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Aquilo que para a zona da bela cidade serrana poderá representar a concretização do projecto Circuito das Serras Potiguares é inestimável, constituindo mais um suplementar e poderoso motor de desenvolvimento.

Lamento, lamento profundamente, que na minha terra de cá, na Portalegre do Norte Alentejano, a sua bela serra não encontre vontades assim determinadas. Para além disso, a estrutura central do turismo alentejano é liderada por um portalegrense que já amplamente provou competência e mostrou amor à terra natal. Quando a sua directa influência se limitava ao Norte Alentejano era diferente, para bem melhor, a gestão turística desta zona.  Mas o Grande Alentejo (mais o Ribatejo) é uma ficção, dominada pelo Alqueva, pela Costa Vicentina e pouco mais…

Enquanto os portalegrenses de cá não despertarem para a realidade e não assumirem uma iniciativa similar à dos nossos irmãos de além-Atlântico a sua bela serra prosseguirá o inexorável processo de degradação em marcha.

Até quando?

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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