SER OU NÃO SER CHARLIE – quatro (fim)

CHARLIE CAB 1

Não aprecio particularmente o estilo de humor do Charlie Hebdo.

Mas compreendo e aceito o direito que assiste aos seus redactores de comentarem e criticarem à sua maneira os factos e fastos da sociedade.  Os fundamentalismos, também aqui, devem ser claramente rejeitados.

No caso da imagem de Aylan, parece óbvio, e lógico, que o Charlie Hebdo não iria abdicar do seu uso. A forma como o fez foi no entanto alvo de um manifesto desvio, parcial, descontextualizado, tendencioso e manipulador, como julgo ter mostrado.

ch 4eParece-me curioso o facto de algumas outras referências ao dramático episódio patentes naquela mesma edição, e até na seguinte, terem sido ignoradas pela campanha desencadeada contra o semanário humorístico. E, no entanto, algumas destas até me parecem, objectivamente, mais polémicas. Escolhi uns exemplos.

Na página 3 foi publicada uma tira vertical com três cartoons, um deles de Riss e outro de Coco. No superior, Jean-Marie le Pen, cada vez mais racista (conforme a legenda) lança o seu partido, Azul-Branco-Vermelho, parodiando as cores patentes em Aylan. De notar o significativo uso do preto e branco…

A seguir, um fotógrafo compulsivo pede ao obeso e burguês casal que se desvie, não ocultando o motivo a fixar…

Por fim, pela pena de Riss e usando o contraste da cor, uma ficcional figura da BD deseja alegremente a Aylan as boas-vindas à ilha das crianças

Algum mau gosto,  pisando com leviana gratuitidade o dramático episódio, seria dispensável – é o que penso.

No canto inferior direito da página 7, um cartoon de Babouse revela que a França mudou. Quando o marido nota que o aquário foi limpo, responde-lhe a esposa que se preparam para aí acolher o pequeno Aylan. Perfeitamente dispensável esta manifestaçãoch 4m de humor negro…

O mesmo se passa, a meu ver, com o habitual “bilhete postal” de Mathieu Madenian, na página 11, onde a certa altura se troça com a morte de Aylan, dizendo que este obedeceu às leis da física porque, desprovido de brânquias, não estava fisiologicamente adaptado ao meio aquático. Portanto a água penetrou nas suas vias respiratórias provocando um síndroma de asfixia donde resultou a morte. Enfim, uma científica ironia algo excessiva…

ch 4f

ch 4dMais polémicas me parecem ainda algumas reminiscências sobrantes na edição seguinte do Charlie Hebdo (n.º 1208, de 16 de Setembro), às quais ninguém terá prestado pública atenção. Eis uns exemplos.

O incontornável Riss revela mais um cartoon na página 4, onde evoca um drama com mais de trinta e cinco anos, acontecido pela madrugada de 30 de Outubro de 1979, quando o então ministro do Trabalho, Robert Boulin, foi encontrado morto numa lagoa do bosque Rambouillet, afogado em pouca água… A verdade sobre este facto, assassinato ou suicídio, permanece como uma incógnita. Mas a associação agora procurada justifica todas as perplexidades.

ch 4b

Ao cartoonista Coco deve-se uma espécie de jogo proposto na página 7 desta edição, onde consta a tira seguinte, que se reproduz sem qualquer comentário, por redundante.

ch 4a

Finalmente, e fiquemos por aqui, eis um cartoon de Luz disponível na página 9. Quero terminar com este sinal, possível embora contraditório, de esperança.

Michel Sardou é um veterano actor, compositor e intérprete francês, com mais de 40 anos de carreira. Tem-se revelado tão popular quanto controverso, sobretudo porque costuma abordar temas polémicos, como o colonialismo, os direitos das mulheres nos países muçulmanos e outros. Tem chegado mesmo a ser considerado como um fascista.

ch 4c

O desenhador Luz representa-o com um pé sobre o cadáver de Aylan, entoando uma das suas mais carismáticas canções, Ne m’appelez plus jamais France, vinda dos anos 70.

Evocando duas simples quadras dessa canção, encontramos uma pista para esta relação possível:

Não me chame nunca mais a França.
A França deixou-me.
Não me chame nunca mais a França.
Esta é a minha última vontade.

 Eu era um barco gigantesco.
Carregava milhares de amantes.
Eu estava na França. E o que resta agora?
Um corpo morto para os corvos-marinhos.

Sardou está contra os emigrantes, como proclama a legenda? Não tenho essa certeza, pois leio ali mais uma crítica à hipocrisia francesa do que qualquer intenção discriminatória do cantor… Mas a interpretação, como sempre, fica ao cuidado de cada leitor.

Repito, não aprecio particularmente o estilo de humor do Charlie Hebdo.

Mas não alinho, por isto e só por isto, na campanha Je ne suis pas Charlie.

Basta de fundamentalismos; habituemo-nos a pensar pela própria cabeça, evitando aceitar indiscriminadamente toda e qualquer manipulação.

Este conselho também serve, obviamente, para a politica.

Aqui e agora, nesta campanha indígena de todas as convenientes amnésias, de todas as vergonhosas batotas, de todas as enganadoras meias verdades, de todas as nojentas hipocrisias, de todo o despudorado cinismo…

Estou muito mais ofendido com os políticos que nos têm desgovernado do que com os redactores do Charlie Hebdo, porque é infinitamente mais obsceno e danoso o comportamento daqueles.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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