Régio e o Cinema – dois (fim)

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Manuel Mozos enfrentou o desafio, que tinha contornos de mistério quase policiário. Creio que é possível discorrer literariamente sobre qualquer tema, pois a especulação tem na palavra um instrumento útil, e fácil, mas a imagem é a imagem, sobretudo a imagem em movimento, numa bem mais complexa construção de narrativas credíveis. Não sendo nem pretendendo ser um cinéfilo, muito menos um crítico da 7.ª Arte, sinto-me autorizado à presente apreciação, apenas porque conheci Régio e porque fui confrontado com esta concreta embora imprecisa situação.

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Só não respondo integralmente pelo Florindo, sujeito a esta mesma condição, porque sabe de cinema muito mais do que eu. Aliás, ele acompanhou Régio, Ernesto de Oliveira, António Teixeira e outros na autêntica aventura, pelos inícios dos anos 60 portalegrenses, que foi a criação e o funcionamento do famoso CineClube local. Mas sei com segurança que o Florindo partilha comigo o essencial da impressão pessoal colhida na exibição de A Glória de Fazer Cinema em Portugal.

Aqui, é desde logo sábia a própria escolha do título, arrancado com rara oportunidade à carta de Régio, na frase onde se contém todo um projecto, todo um programa, toda uma ambição. O realizador já confessou a intenção inicial de centrar a sua obra no documental, alargando depois o discurso num sentido mais ficcional, de acordo com o inspirado autor do argumento. Decisão sensata que originou uma “curta”, ainda que pareça bem mais “longa” dada a sua densidade. Resulta daqui uma dúvida que é, paradoxalmente, o mais interessante aspecto do filme: se é uma especulação, parece bem mais fácil aderir a esta, e com convicção, do que contestá-la. É que abundam os argumentos, tanto na exaustiva investigação como na sábia montagem, onde a eventual ficção se torna de tal modo credível que não sobra muito em alternativas possíveis.

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Manuel Mozos encantou-nos na franca simplicidade do seu trato pessoal e deslumbrou-nos na exibição da sua obra cinematográfica. A inspiração regiana parece tê-lo acompanhado mesmo quando tudo parecia esboroar-se à sua volta, desde a natural redução das capacidades intelectuais de Manoel de Oliveira à fatal perda de João Francisco Marques, um e outro lembrados e homenageados com evidente ternura na obra final.

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Por isso o realizador-investigador chegou ao interessantíssimo Albano António e às preciosidades por este acumuladas, sobretudo àqueles “obscuros” quatro minutos fixados na tão regiana Capela da Senhora da Guia. Incompletos e enigmáticos mas decisivos, incontornáveis minutos…

Depois, a associação dos desenhos de Régio, esquemas eisensteinianos de tomadas de vista e planos cinematográficos, descobertos neste pretexto em As filme09Encruzilhadas de Deus, numa quase coincidente convergência com aqueles mágicos fotogramas…

Régio, um fugidio e discreto Régio, na imprecisa figura do vulto que subitamente surge no plano captado numa fracção de segundos, naquela aparição do realizador de ontem, justificando e premiando a diligência do realizador de hoje, oitenta e cinco (!?) anos depois…

Segue-se a intervenção de Rémi Caillaud, operador de câmara caído dos céus em mais uma fascinante coincidência (!?) vilacondense que quase parece organizada de propósito para credibilizar a ficção (!?)…

Manoel de Oliveira, por fim, protagonizando porventura em lendária continuidade a tal “glória de fazer cinema em Portugal“, juntar-se-á a Régio, unindo-se ambos para sempre a partir das fluviais fainas do Douro. Acontecendo este pretexto pouco depois, resta apenas a confirmação de ser o cineasta o tal enigmático amigo de Alberto de Serpa, citado na carta.

Manuel Mozos surpreendeu-nos ainda com a delicadeza de ter colocado no genérico final da sua obra uma menção personalizada à colaboração que (não) lhe prestámos. Ficarmos associados a um filme incontornável sobre um episódio desconhecido da vida de José Régio é privilégio que tanto eu como o Florindo não merecemos nem justificámos.

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A nossa gratidão para com Manuel Mozos e a sua equipa tem pleno cabimento pelo contributo por eles prestado ao engrandecimento e à valorização de memória de José Régio, ao fazerem luz num enigmático caso desvendado (ou talvez não, e que interessa isso!?) com saber, amor e arte.

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A glória de fazer cinema em Portugal uniu Régio a Manoel de Oliveira e une-os agora a Manuel Mozos.

Para nosso deleite, para memorável lembrança dos que estimamos.

Resta-nos esperar pelo próximo mistério regiano. E, já agora, pela sua resolução…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Manhosa “coragem”

Já aqui tenho manifestado, por diversas vezes e a distintos pretextos, a minha opinião -tão falível como qualquer outra- sobre os órgãos de comunicação social de que dispomos, nomeadamente os diários impressos, pois me desabituei de ler semanários, a não ser excepcionalmente.

Portanto, quem me lê habitualmente conhece a predilecção pessoal pelo Diário de Notícias e pelo Público, e por diferentes motivos, apreciando no primeiro a sua perspectiva noticiosa e gráfica, no segundo também esta e, sobretudo, o bloco de opinião. Lamento a cedência do DN à lamentável “nova” ortografia e louvo a coragem e coerência editorial do Público ao rejeitar ostensivamente os estragos culturais produzidos pelo Acordo Ortográfico.

Detesto liminarmente o Correio da Manhã. Acho detestável a sua política de exploração do escândalo, mesmo do mais escabroso, do sangrento, do sensacionalismo a todo o custo, do extremismo quase pornográfico, do jornalismo de esgoto e de sarjeta, do bas-fond da sociedade, apenas para vender. E vende, porque o povo gosta. Tenho o direito de assim pensar, ainda que ao invés das maiorias.

Não gosto, nunca gostei, do político Sócrates. No entanto, considero nojenta a implacável perseguição que o Correio da Manhã sistematicamente lhe vinha fazendo, promovendo sucessivas condenações públicas que apenas à justiça competem. As revelações que o jornal vinha fazendo em infernal catadupa, independentemente da sua efectiva autenticidade, constituíam um caso de agressão pessoal mais do que um trabalho jornalístico. A sua interrupção representa portanto, a meu ver, um ecológico acto de higiene pública.

Correu ontem pelas redes sociais uma capa, falsa capa, ostentada pelo jornal. E aquela publicação foi logo maioritariamente comentada como uma demonstração de coragem, por lembrar os tenebrosos tempos da censura. Vejo-a, apenas, como um fenómeno de comunicação.

A sua organização é inteligente, até brilhante, e constitui um modelo. A publicidade ao próprio jornal é habilidosamente sugerida pela mensagem que sobrevive ao “lápis azul” da salazarenta censura, valorizando a frase sincopada onde é comunicado a cada fiel leitor que “continuaremos a informá-lo”.

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A falsa capa dispõe de uma data, a da quarta-feira 28, podendo vislumbrar-se algumas imagens não riscadas pelo censório e simbólico azul. O que acontece, na realidade, é a autêntica capa do Correio da Manhã daquele dia não ter ostentado as palavras aqui constantes nem as supostas frases onde aquelas se inseririam. E isto é uma burla comunicacional. O jornal ficou a milhas da criatividade que outros inventaram para seu proveito. O Correio da Manhã, afinal, não se revelou nem corajoso nem imaginativo… Apenas oportunista!

O que ele mantém, agudo, é o proverbial sentido de manipulação e exploração da opinião pública. Para quem não tenha lido ou consultado o jornal de quarta-feira, 28, será facilmente levado a acreditar que aquela fora, de facto, a capa original. E não se passou assim.

Aliás, na tradição do Correio da Manhã existe um histórico deste tipo de manipulações da opinião pública. Já aqui o denunciei, num artigo intitulado Quem tem capa nem sempre escapa…, publicado no blog no dia 4 de Abril de 2014.

Quem o quiser consultar poderá aí encontrar alguns censuráveis exemplos do faccioso comportamento de responsáveis editoriais do jornal, em 1980, 1982 e 1983. Portanto há trinta anos já assim acontecia…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Régio e o Cinema – um

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Sherlock Régio: – Elementar, meu caro Mozos!

Um tipo conhecido pede por carta a um amigo que lhe arranje maneira de dispor de uma câmara de filmar na posse de um fulano não identificado. Isto aconteceu há mais de 75 anos e todos os participantes já morreram, nada tendo deixado escrito ou contado sobre o episódio. Que teria acontecido a seguir?

Para mim e para o Florindo Madeira tudo começou quando em 21 de Abril deste ano recebemos uma mensagem via e-mail, em que éramos desafiados a fornecer ao emissor qualquer eventual informação de que dispuséssemos sobre um Grupo ULTRA, onde figurava o nosso conhecido José Régio. Uma carta deste para Alberto de Serpa acompanhava o texto, subscrito por Dânia Lucas, assistente do realizador de cinema Manuel Mozos.

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A sugestão para este contacto partira do Centro de Estudos Regianos, de Vila do Conde, onde tanto eu como o Florindo dispomos de amigos que terão exagerado os nosso méritos…

Confesso ter sido apanhado de surpresa, tanto que nem sequer reconheci a mensagem, na bela e “ilustrada” caligrafia de José Régio, que afinal não era inédita, pois aquela sua carta de Vila do Conde, enviada para o Porto a Alberto de Serpa, em 18 de Setembro de 1929, já fora publicada em Correspondência, Círculo de Leitores, 1995, com introdução, recolha e notas de António Ventura, outro bom amigo.

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O Florindo estava então de partida para uma viagem pelo estrangeiro, mas isso não nos impediu de por diversas vezes termos conversado sobre o assunto, discutido várias hipóteses e seguido algumas inconsequentes pistas, sem nada de concreto ou de útil termos avançado. No entanto, cheguei a transmitir a Dânia Lucas a frustrada “conclusão” das nossas empenhadas divagações, assim como lhe fiz chegar a cópia de alguns textos que o Florindo recenseara a este propósito. Concretamente, tratava-se de uma carta de Régio para Carlos Queiroz e de um estudo de Alfredo Margarido onde se falava do Grupo ULTRA. Porém, nada disto adiantava muito sobre a questão.

A verdade é que nada conseguimos provar, por exemplo, sobre a hipótese de ser Manoel de Oliveira o portuense proprietário da desejada câmara de filmar. Por outro lado, é certo ter ido José Régio, um mês apenas após a escrita da carta a Alberto de Serpa, para Portalegre, em cujo Liceu seria professor por mais de 30 anos. E também é seguro que só a partir de 1931, desde a positiva crítica pública de Régio à obra Douro Faina Fluvial, se estabeleceram relações pessoais deste, depois tornadas consistente amizade, com o realizador Manoel de Oliveira.

O episódio seguinte, nesta moderna gesta regiana, aconteceu nos princípios de Julho, quando tanto eu como o Florindo recebemos um simpático convite pessoal para a estreia do filme de Manuel Mozos intitulado A Glória de Fazer Cinema em Portugal, produzido pela organização Curtas de Vila do Conde, em cujo festival anual iria ser projectado no dia 6, pelas 22h30.

Ficava assim provado que a intenção antes declarada tinha sido concretizada naquele trabalho. Porém a nossa presença, ainda que por diferentes motivos, não se pode efectivar, na razão inversa do interesse despertado. Interesse e curiosidade, acrescente-se. Um ou outro texto crítico publicamente divulgado a propósito aumentou a nossa expectativa. É o caso de Com a verdade me enganas (J.M. ípsilon, Público, 31 de Julho), já aqui reproduzido.

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Finalmente, numa simpática e oportuna insistência da equipa de Manuel Mozos, que felizmente pode encontrar disponibilidade conjunto de ambos, tanto eu como o Florindo pudemos assistir à projecção do filme, inserida na 13.ª edição do DocLisboa, no passado dia 27, na sala 1 do Cinema City-Campo Pequeno, em Lisboa.

É da impressão pessoal colhida que aqui darei conta amanhã.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

cultura da tanga

seis cêntimos

CARTA ABERTA A UM SENHOR DIRECTOR DE MUSEU

 Senhor Director

É Vossa Excelência tão persuasivo  e veemente na pedinchice de uns míseros tostões que eu -cidadão pagador de impostos já espoliado de centenas e centenas de euros sem ninguém me pedir nada- que eu de boa vontade lhe cedo seis cêntimos para a compra desse quadro que faz tanta falta na colecção do seu museu.

Além disso, como se consta que as moedas que Vossa Excelência requer às nossas bolsas depressa vão desaparecer da circulação, ofereço todas as que tenho no mealheiro pois sempre podem servir para comprar mais obras-primas, alguns Picassos e até uns Mirós como aqueles que deram bronca há uns tempos e por aí fora.

Por outro lado, estou tão contente por finalmente o Senhor Presidente do Conselho de Ministros que Deus tem sempre ter descoberto que afinal é preciso um ministério da Cultura, estou tão contente com isso apesar de a nova ministra nem sequer aquecer o lugar que dou de boa vontade para este peditório.

Tenho é um bocado de medo de que a coisa pegue e a seguir nos peçam cinco cêntimos para comprar um porta-aviões para patrulhar o Alqueva, vinte e dois cêntimos para adquirir um lugar cativo na próxima expedição a Marte ou um cêntimo e meio para contratar um concerto da Madona no Coliseu dos Recreios em favor das vítimas da vespa asiática.

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Pelo sim pelo não, aqui fica à sua disposição a minha reserva de cêntimos. É que, como amanhã ou depois deixam de valer um chavo sequer, sempre faço figura de mecenas. Mas quero é uma factura da sorte com número de contribuinte e tudo porque assim sempre posso ganhar um carrão de luxo no sorteio das eurocontribuições…

 Zé Moedas