Manhosa “coragem”

Já aqui tenho manifestado, por diversas vezes e a distintos pretextos, a minha opinião -tão falível como qualquer outra- sobre os órgãos de comunicação social de que dispomos, nomeadamente os diários impressos, pois me desabituei de ler semanários, a não ser excepcionalmente.

Portanto, quem me lê habitualmente conhece a predilecção pessoal pelo Diário de Notícias e pelo Público, e por diferentes motivos, apreciando no primeiro a sua perspectiva noticiosa e gráfica, no segundo também esta e, sobretudo, o bloco de opinião. Lamento a cedência do DN à lamentável “nova” ortografia e louvo a coragem e coerência editorial do Público ao rejeitar ostensivamente os estragos culturais produzidos pelo Acordo Ortográfico.

Detesto liminarmente o Correio da Manhã. Acho detestável a sua política de exploração do escândalo, mesmo do mais escabroso, do sangrento, do sensacionalismo a todo o custo, do extremismo quase pornográfico, do jornalismo de esgoto e de sarjeta, do bas-fond da sociedade, apenas para vender. E vende, porque o povo gosta. Tenho o direito de assim pensar, ainda que ao invés das maiorias.

Não gosto, nunca gostei, do político Sócrates. No entanto, considero nojenta a implacável perseguição que o Correio da Manhã sistematicamente lhe vinha fazendo, promovendo sucessivas condenações públicas que apenas à justiça competem. As revelações que o jornal vinha fazendo em infernal catadupa, independentemente da sua efectiva autenticidade, constituíam um caso de agressão pessoal mais do que um trabalho jornalístico. A sua interrupção representa portanto, a meu ver, um ecológico acto de higiene pública.

Correu ontem pelas redes sociais uma capa, falsa capa, ostentada pelo jornal. E aquela publicação foi logo maioritariamente comentada como uma demonstração de coragem, por lembrar os tenebrosos tempos da censura. Vejo-a, apenas, como um fenómeno de comunicação.

A sua organização é inteligente, até brilhante, e constitui um modelo. A publicidade ao próprio jornal é habilidosamente sugerida pela mensagem que sobrevive ao “lápis azul” da salazarenta censura, valorizando a frase sincopada onde é comunicado a cada fiel leitor que “continuaremos a informá-lo”.

CORREIO DA MANHA

A falsa capa dispõe de uma data, a da quarta-feira 28, podendo vislumbrar-se algumas imagens não riscadas pelo censório e simbólico azul. O que acontece, na realidade, é a autêntica capa do Correio da Manhã daquele dia não ter ostentado as palavras aqui constantes nem as supostas frases onde aquelas se inseririam. E isto é uma burla comunicacional. O jornal ficou a milhas da criatividade que outros inventaram para seu proveito. O Correio da Manhã, afinal, não se revelou nem corajoso nem imaginativo… Apenas oportunista!

O que ele mantém, agudo, é o proverbial sentido de manipulação e exploração da opinião pública. Para quem não tenha lido ou consultado o jornal de quarta-feira, 28, será facilmente levado a acreditar que aquela fora, de facto, a capa original. E não se passou assim.

Aliás, na tradição do Correio da Manhã existe um histórico deste tipo de manipulações da opinião pública. Já aqui o denunciei, num artigo intitulado Quem tem capa nem sempre escapa…, publicado no blog no dia 4 de Abril de 2014.

Quem o quiser consultar poderá aí encontrar alguns censuráveis exemplos do faccioso comportamento de responsáveis editoriais do jornal, em 1980, 1982 e 1983. Portanto há trinta anos já assim acontecia…

António Martinó de Azevedo Coutinho

1 thought on “Manhosa “coragem”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s