Antonino, irmão de José Régio

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Amanhã, em Lisboa, numa iniciativa do CHIADO, Clube Literário & Bar, terá lugar pelas 18h00, na Galeria Comercial Tivoli Fórum, a sessão de lançamento do livro José Régio – Correspondência com seu irmão Antonino.

Integrada na Colecção Passos Perdidos e da autoria de Filipe Delfim Santos, a obra será apresentada pelo escritor Miguel Real.

Contendo na capa uma súmula do seu conteúdo, torna-o desde logo aliciante: Uma correspondência inesperada entre José Régio e o seu irmão Antonino, na qual perpassam temas familiares, literários, políticos, existenciais e até psicanalíticos, revelando a atenção devotada pelo mais desconhecido dos cinco irmãos Reis Pereira à vida literária do seu famoso irmão.

Por um simples extracto do seu Proémio mais se agudiza a nossa curiosidade cultural:

José e Antonino nasceram no mesmo berço e receberam a mesma formação original, mas esta logo produziu resultados divergentes que se evidenciaram quando o primeiro rumou a Coimbra para seguir estudos superiores de Letras, enquanto o segundo, pouco antes de o seu irmão concluir a licenciatura, optava por uma precoce vida de trabalho, partindo com 19 anos para o Recife, no Estado do Pernambuco, Brasil. Tal como discorre Régio em carta a Flávio Gonçalves, escrita de Portalegre em 07.11.1965 (1) o Brasil era ainda para Antonino o Eldorado de sonho que o sucesso do tio-avô brasileiro lhe figurava promissor, esse José Maria Pereira que em 09.11.1844, para escapar às dificuldades de ter nascido entre 14 irmãos, tirara passaporte com 14 anos de idade para o mesmo Pernambuco, vindo mais tarde, durante a década de 70 do séc. XIX, a fixar-se na capital, o Rio de Janeiro. (2) A consciência de que a família devia o seu elevado estatuto económico e social à aventura desse tio por terras brasílicas terá atenuado a possível objecção dos pais à emigração de Antonino para o nordeste brasileiro.
Podemos dizer que Antonino tanto se deu bem no Brasil como se deu mal. Deu-se mal porque, manifestamente, não conheceu no Recife o sucesso que o seu tio-avô obtivera décadas antes e acabou confinado à mediania de uma existência de empregado de escritório, probo e bem comportado. Mas de certa forma também se deu bem, porque sem a aculturação e a integração conseguidas e com a estabilidade de uma vida socialmente acomodada, ele teria sido forçado a regressar à sua terra natal em falência económica e moral, como sucede a Manuel da Bouça, o anti-herói de Emigrantes de Ferreira de Castro. (3)

 (1) – Padre João Francisco MARQUES (1989) José Régio e Flávio Gonçalves, os caminhos de uma amizade, Póvoa de Varzim: Boletim Cultural, 268-269.
 (2) – Maria Adelina de Azevedo PILOTO (2010) O concelho de Vila do Conde e o Brasil – emigração e retorno (1865-1913), Tese de doutoramento em História, Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 167.
 (3) – Ferreira de CASTRO (1928) Emigrantes, Lisboa: Renascença

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Não é Antonino, porém, um desconhecido. Bem pelo contrário. José Régio inúmeras vezes o refere quer na sua correspondência familiar, nas páginas do seu diário ou nas suas confissões religiosas.

Nascido em 1905, poucos anos após José Maria, Antonino emigrou para o Brasil em 1924 e nunca mais se reuniria com a família, ali tendo morrido em Outubro de 1965, ainda relativamente novo.

Em 30 de Janeiro de 1957, numa carta de Portalegre para João Maria, irmão de ambos, confessava, ou desabafava, José Régio:

Creio que o mais infeliz de nós ainda será o Antonino, em quem penso mais vezes do que se julga.

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A brutal notícia da morte de Antonino provoca funda impressão em José Régio que preenche integralmente com esse doloroso tema uma sua entrada no diário, datada de Portalegre, em 7 de Outubro de 1965:

Recebo hoje, de chofre, a notícia da morte de meu irmão Antonino. Foi para o Brasil com dezassete ou dezoito anos, e nunca mais o vimos. Choca-me profundamente a ideia de que os seus restos mortais fiquem lá. Quereria poder trazê-los para o nosso jazigo de Vila do Conde.

Foi, talvez, o mais infeliz de nós todos; pelo menos um irmão à parte, com um temperamento muito particular. Uns ner­vos terríveis, que em parte nos ensombraram a infância, ao Júlio e a mim. Não quis estudar, quis ir para o Brasil, – tornara-se quase insuportável com os seus maus humores – e lá foi, lá fi­cou, nunca mais o vimos. Os nossos pais tiveram sempre esse desgosto. As partilhas por morte de nosso pai fizeram com que ultimamente eu me correspondesse muito com ele. Tudo correu bem, tudo ficou resolvido a bem, – e não houve nenhuma das dificuldades que eu chegara a recear pudesse haver com esse ir­mão à parte. Documenta essa correspondência o vivo interesse que ele tinha por que se não vendesse nenhuma das nossas casas de Vila do Conde. Ele, que resolvera nunca mais voltar a elas! Bem quereria poder trazer para cá, para perto dessas casas, para o nosso jazigo de família, os seus restos mortais. O Antonino! Já lá vai o Antonino, quatro ou cinco anos mais novo do que eu. Esforço-me por continuar a trabalhar, hoje, como se nada tivesse aconte­cido, e caio num melancólico devaneio em que se misturam, me oprimem tantas recordações não só de ele como de todos os outros que partiram… Quem chega a uma certa idade (a minha, por exemplo) não pode estar só que se não veja rodeado de mortos-vivos. Aliás, isto nos vai preparando para a nossa vez.

José Régio concretizaria mais tarde o seu desejo de trasladar os restos mortais de Antonino para o jazigo de família, no cemitério de Vila do Conde.

Vem esta obra trazer-nos ao conhecimento mais um capítulo pouco conhecido das íntimas vivências de José Régio. É por isso bem vinda.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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