mil novecentos e sessenta e um – dia 000

1961

mil novecentos e sessenta e um – assim mesmo, escrito por extenso, como no mil novecentos e oitenta e quatro de George Orwell, obra que me impressionou desde que na juventude a li, pela primeira vez. E continuo a reler.

1961 é uma simples data de calendário, mil novecentos e sessenta e um é uma distopia, um tempo no qual a liberdade de pensamento era entre nós um pecado quase mortal. Hoje isso é uma abstracção com algum sentido, um sentido para mim impossível de plenamente entender quando o vivi.

Distinta da utopia, a distopia é caracterizada pelo autoritarismo, pelo controlo quase opressivo da sociedade. A esta luz, 1961 parece-me ainda uma fábula.

 

Durante o ano de 2014 alimentei aqui no blog uma secção a que chamei Agenda do Dia (Neste dia, um facto, uma imagem), onde escolhi e tratei sucessivas efemérides. No derradeiro dia 365, dei conta do gozo inerente mas escondi o cansaço que aquela “obrigação” me criara, ainda que auto-infligida. No entanto afirmei que, em termos de futuro, aprendera que nunca se deve dizer nunca

Em 2016 que amanhã começa comemoram-se 55 anos de 1961. A mais de meio século de distância, decidi retomar o desafio das efemérides, ainda que com distinto modelo. Pretendo agora resolvê-lo sob a forma de um diário pessoal.

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Comecei o ano de 1961 cumprindo 26 anos de vida. Desde os finais de 1959, desempenhava as funções de vereador na Câmara Municipal da minha terra, Portalegre, e profissionalmente era professor de Desenho na Escola do Magistério Primário local. Ainda que me tivesse recentemente desligado do Amicitia, um grupo cultural da cidade, continuava a participar nas suas actividades. Namorava a linda rapariga com quem viria a casar e os dias decorriam dentro da normal pacatez duma pequena comunidade no interior mais interiorizado dum país de brandos costumes e serenas gentes à beira-mar plantado…

 

Tenho alguma consciência das dificuldades inerentes a esta nova Agenda. Nestas últimas semanas, desde que a ideia me assaltou, tenho varrido de ponta a ponta os meus recursos bibliográficos e os arquivos pessoais acumulados, em escritos e recortes. Consegui precioso aliado num amigo de sempre, o João Paulo Alves, que da sua magnífica mas distante Biblioteca Municipal de Portalegre assumiu o compromisso de me ir fornecendo com regularidade a reprodução digitalizada dos jornais citadinos da época. Tenho já umas dezenas de páginas densamente preenchidas com uma cronologia quase prodigiosa que me ensinou sobre aquele distante ano sobretudo o que dele nunca até hoje conhecera. E disponho da minha memória, que ainda sinto funcionar razoavelmente. Há episódios que nunca são daí varridos…

 

mil novecentos e sessenta e um, o “ano horrível de Salazar”, como com justeza lhe chamou um autor, cronista da época. Tempos nos quais a aparente paz em que vivíamos sofreu terríveis convulsões, e Portugal quase foi virado, por diversas vezes, da pernas para o ar… Um ano para esquecer? Não, um ano para lembrar!

Entre a utopia e a distopia, entre a realidade e a ficção, entre o dizível e o auto-censurável, procurarei contar as impressões vividas ao tempo embora sujeitas à contaminação que mais de meio século depois lhes sobrepôs. Não procuro ser historiador, mas apenas testemunha de uma época que muitos dos que me lerão não viveram ou que alguns talvez tenham já esquecido.

 

Politicamente era então semi-analfabeto e talvez por isso terei decepcionado aqueles que me sonharam como delfim local de um regime que eu temia muito mais do que aceitava. Rebelde por natureza, reagi de insólita maneira a maliciosas sugestões que me levaram ao deliberado mas prudente distanciamento dos meus amigos do Amicitia, numa atitude que os surpreendeu e que só muito mais tarde lhes pude explicar. O que aqui não farei, mesmo num diário íntimo, porque há questões que o respeito para com a memória de certos mortos impõe. 

Mas foi a rádio oficial, com a sua insistência no refrão A Verdade é só Uma; Rádio Moscovo não diz a Verdade, que me levou a essa clandestinidade da pesquisa das origens. Não por militância, nem lá perto!, antes por curiosidade. E era assim que, por alguns serões desses tempos, solitário ia pela Estrada da Serra acima até ao Miradouro onde o moderno e potente rádio Philips a pilhas (enormes!) que comprara no senhor Cardoso conseguia captar em onda curta, creio que na banda dos 31 metros, uma voz com sotaque que dizia coisas, algumas incríveis, que os jornais  nunca nos contavam…

 

A 55 -cinquenta e cinco- anos de distância temporal decidi mergulhar na experiência fascinante de reviver (ou recriar!) o meu mil novecentos e sessenta e um. Se este foi, seguramente, o ano horrível de Salazar, constituiu para mim um tempo inesquecível, uma experiência de vida que agora procurarei recuperar, contando-a à minha maneira, num diário íntimo onde rejeito o “meu” Régio como modelo. É que quero, por ponto de honra, cumprir-lhe todos e cada um dos dias.

Um por um, do primeiro ao último.

A começar amanhã, como há cinquenta e cinco anos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um olhar para o futuro

Na excelente e bem concebida edição especial com que o Diário de Notícias comemorou os seus 151 ano da vida (parabéns!) uma infografia de página inteira, da autoria de Marina Marques, perspectiva os principais acontecimentos do ano que vai começar amanhã.  

Com a devida vénia, aqui se partilha esse trabalho com os leitores, augurando para o Diário de Notícias um ano pleno de êxitos, que bem merece.

31 2016 DN 29 Dez 15

Crónica de um fim anunciado

Apetecia-me escrever em título: Afinal alguns jornais são mesmo chouriços. Mas seria certamente injusto para com o Público e quase provocatório para com o João Adelino Faria, um amigo.

Resta-me lamentar a confirmação do fim anunciado do suplemento/revista dominical 2, do Público. Receio que se lhe sigam o ípsilon, o Fugas, enfim, todos os atributos que fazem daquele jornal o grande jornal que é, que teima continuar a ser, independente sem recorrer ao escandaloso, crítico sem ceder aos poderes.

Compreendo as razões mas tenho dificuldade em perceber que seja este sacrifício o remédio para os males que afligem o diário.

A crónica de Alexandra Lucas Coelho é um exemplo de qualidade a diversos níveis, onde a capacidade e a coragem não são os menores atributos. Por isso, e apesar da sua extensão, atrevo-me não apenas a partilhar essas duas páginas antológicas como a convidar os leitores do blog, empenhadamente, as lerem-nas na íntegra.

Vale bem a pena.

Com a devida vénia e uma especial e solidária saudação à autora, aqui fica o notável texto PARA NÃO ACABAR DE VEZ COM OS JORNAIS (E A DEMOCRACIA).

31 fim 1 Público 26 Dez 31 fim 2 Público 26 Dez

Exposição de Carrilho da Graça – Convite

Carrilho da Graça garagem sul ccb

Amigos Portalegrenses e Antigos Alunos do Liceu de Portalegre:

O nosso Conterrâneo ARQUITECTO CARRILHO DA GRAÇA tem aberto ao Público uma notável Exposição, sobre a sua importante obra em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (Garagem Sul).carrilho da graça retrato

Por sugestão do Prof. António Martinó, o Arquitecto Carrilho da Graça, muito simpaticamente, anuiu a efectuar uma Visita Guiada para todos nós, seguida de um Colóquio, onde lhe pudéssemos colocar questões e que aproveitaria para esclarecer pormenores e aspectos da Exposição!

Assim, foi marcada para o dia 19 de Janeiro próximo a Visita Guiada, pelas 17h00, e o Colóquio, pelas 18h00.

Trata-se de uma ocasião única que, pela sua importância, não podemos deixar de aproveitar, não só pelo alto nível cultural da Exposição, como pela personalidade do Arquitecto Carrilho da Graça, neste momento um dos mais laureados Arquitectos Portugueses e prestigiado portalegrense, na sua Juventude também aluno do nosso Liceu.

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Os interessados deverão comparecer na data e hora supra indicadas no Centro Cultural de Belém, junto à Garagem SUL – local da exposição- em Lisboa.

Saudações Lagóias Fraternas