mil novecentos e sessenta e um – dia 031

196131 JANEIRO

Chegámos ao final de Janeiro com a questão do Santa Maria talvez ainda longe da sua satisfatória conclusão. Ao que se julga, pelas notícias dos jornais da tarde e dos rádios, já houve reunião a bordo entre o comandante americano e Henrique Galvão. Não se sabe ao certo o que ficou decidido.
Entretanto, segundo os relatos dos jornais, há uma série impressionante de navios de guerra, contratorpedeiros e destroyers americanos e canhoneiras e corvetas brasileiras, junto ao paquete. Parece que voltámos à guerra mundial, salvo seja!
Agora foi A Rabeca a trazer o caso na capa e diz que foi uma demência política que ameaça a unidade nacional. E fala dos passageiros, vítimas inocentes.
Ao mesmo tempo, em Brasília, tomou finalmente posse o novo presidente Jânio Quadros, que é um enigma. Ajudará ou desajudará e resolver o caso?

Lembrei-me hoje de uma coisa a propósito disto. Bem me parecia que era assim e pude confirmar. Procurei nas mil recordações que o meu avô trazia dos muitos passeios que deu pelo país quando se reformou e encontrei a sua colecção de postais, para além dos que mandou da guerra, na França. E lá estava um que agora vou colar aqui na folha.
Nas costas do postal está escrito: A Litografia Nacional, do Porto, oferece este postal a V. Ex.ª na 1.ª Exposição Colonial Portuguesa. Ora fui ver no livro de História de Portugal e esta Exposição aconteceu em 1934, ainda eu não tinha nascido. O diretor foi precisamente Henrique Galvão, o tipo do Santa Maria. Que grande reviravolta que ele deu! Tão amigo de Salazar nessa altura e agora fez o que fez!

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Quanto a Portalegre não há nada de novo que valha a pena aqui deixar anotado. Há uma pequena chatice por causa do peixe que se vende no mercado. As pessoas queixam-se de que não é suficientemente fresco, por causa do transporte até cá e porque depois não há processo de o conservar em condições. A verdade é que no Mercado Municipal foi construída uma câmara frigorífica que esteve tanto tempo sem ser utilizada que se avariou…

Já há uns dias que ando para falar aqui de um assunto que considero importante e calha hoje mesmo. É a Fundação Gulbenkian e a sua obra que acho notável. No relatório do passado semestre diz-se que concedeu 25 mil contos, uma fortuna, só em subsídios e dotações um pouco por todo o país. Em arte, ciência, educação e cultura e também em beneficência, a Fundação tem espalhado inúmeras e preciosas ajudas. Só um pequeno exemplo para se poder avaliar a atenção dos responsáveis: instituíram uma bolsa de estudo perpétua aqui no nosso Colégio Diocesano de Santo António, a favor de um aluno necessitado, no valor de 300.000$00.

Só a obra das bibliotecas itinerantes, como aqui também temos uma, é de louvar pelo excelente serviço que presta em todos os recantos da região onde não costumava chegar um único livro.

PORTALEGRE no seu melhor, em LISBOA (complemento)

No passado dia 25 do mês que agora finda dei aqui sumária conta de um evento portalegrense acontecido na capital. Tratou-se referência ao encontro realizado no Centro Cultural de Belém, em 19 de Janeiro, quando o arquitecto Carrilho da Graça ciceronou a sua magnífica exposição ali patente, na Garagem Sul, para uma assembleia de conterrâneos.

Assumida de forma imediata e natural, essa generosidade connosco partilhada significou um autêntico encontro de confraternização e amizade, confirmado até pela participação de familiares muito próximos que de Portalegre ali se deslocaram. Encontro de portalegrenses em Lisboa.

O Florindo, amigo comum e dos mais certos, registou tal como eu imagens e sons dessa tarde gratamente vivida no CCB. Não repito agora, visto por outro ângulo e em distintos planos, o que aqui deixei. Mas há um relato inédito, precisamente o que no final protagonizei em nome do grupo. Tal como em seu nome fora o mensageiro do convite que deu origem ao encontro, senti-me igualmente autorizado a ser o explícito portador da mensagem, colectiva e singela, do devido agradecimento.

Deixo hoje, aqui, esse curto videograma da autoria do Florindo Madeira, a quem, com um abraço, agradeço a partilha.

Este é o complemento da evocação de mais um encontro de amigos lagóias. Ao mais alto nível.

António Martinó de Azevedo Coutinho

ENTALADOS

pascoal1Entalados 

Às recentes presidenciais faltou tudo menos imbecilidade. Despojado da dimensão hierática de outros tempos, o campo político abriga a decadência da boçalidade que conquista quase todo o espaço do visível e atinge áreas contíguas às dos meios intelectuais e dos centros de irradiação do saber, como as universidades. O fetichismo da linguagem política despolitizou-a e reduziu-a às cinzas do slogan e de meia dúzia de chavões sobre a austeridade, a pobreza, a justiça, a crença em tempos novos, o cumprimento de obrigações de ordem financeira e o respeitinho pelos mercados (quem não se lembra da expressão “o sentimento da bolsa” surgida em meados dos idos 90 no léxico português?). Na prática, os dez matraquilhos que se apresentaram como candidatos ao mais elevado cargo de soberania libertaram, a partir de agora, os actos eleitorais da sua densidade semântica e restringiram-nos ao exercício mecânico de fórmulas, melhor ou pior manipuladas pela destreza e eloquência de cada candidato. É por isso que se diz que todos ficaram no mesmo saco.

Ao destituírem a linguagem da dimensão do sagrado e dos seus rituais do bom sacrifício a que ela se presta, quando ainda prevalece a substância, os dez candidatos aceitaram ser tratados do mesmo modo, e não houve como fazer crer que cinco deles eram, no mínimo, escusados. Tudo tem um preço. Edgar ou Tino, Sequeira ou Belém, vistas bem as coisas, estão bem uns para os outros.

Para lá do facto de a Constituição permitir que qualquer cidadão nacional, reunidas certas condições formais, seja um putativo candidato à Presidência da República sem que isso seja um escândalo que fere a própria constituição, custa ainda aceitar que sejamos envolvidos na lamentável comédia pornográfica eleitoral. Porque, por mais que tentemos, fazemos parte do atoleiro – é com esta gente que lidamos. E ainda que deles faça parte alguém com um mínimo de decência, o drama actual incita os guerreiros a baixar a fasquia e a entreter o País, como se nos estivessem a fazer um grande favor (só Marisa, em boa verdade, pareceu levar alguma coisa a sério). O combate final travar-se-á entre a manutenção do espectáculo para os próximos tempos e a nossa vontade de permanecer asseados. O pior é que, como diz a personagem do The Catcher in The Rye, “quando estou com alguém que é foleiro, acabo por fazer também coisas foleiras”.

Creio que estivemos com gente foleira, nestes últimos tempos. Se não fizermos qualquer coisa, elevando de novo a nossa experiência democrática e cívica, algo que também é possível tentar nas escolas, acabamos mesmo entalados.

 António Jacinto Pascoal
Professor
Público 29/01/2016

31 entalados publico 29 janeiro 16 

mil novecentos e sessenta e um – dia 030

196130 JANEIRO

Já dura há muito tempo esta tragédia do Santa Maria e ainda não se sabe como nem quando acaba. O paquete estará parado, ou anda às voltas, ao largo de Recife, no Brasil, e o comandante americano vai encontrar-se com Henrique Galvão para resolverem o problema dos passageiros.
O Diário de Lisboa garante que os comandos navais americano e brasileiro estão de acordo quanto ao desembarque dos passageiros. Mas há aqui outra confusão, porque parece que o quase presidente Jânio Quadros, o tal que por aqui andou meio fugido, terá dito que é um velho amigo de Henrique Galvão e lhe dará refúgio. Provavelmente, se for verdade, isto ainda vai baralhar mais as coisas…
Uns jornais espanhóis, entretanto, criticam o diálogo dos americanos com Henrique Galvão porque estarão a misturar política com pirataria. Por este andar, estou a ver que ainda virão a propor os tais enforcamentos no mastro mais alto do navio.

Um assunto que não tem nada a ver com isto, mas que me interessa, é o de um filme que está há 13 semanas em exibição no Monumental, em Lisboa. Trata-se do Ben-Hur, que tem sido considerado o maior êxito cinematográfico de todos os tempos. Em Portugal nunca se viu um caso assim, o de um filme que esgota a lotação de uma grande sala três meses seguidos. Vamos a ver quando chegará Ben-Hur a Portalegre. Infelizmente, temos uma bela sala de espectáculos, o Crisfal, já não falando do Cine-Parque no Verão, mas a programação é quase sempre do tempo da maria-cachucha. As fitas recentes demoram uma eternidade a chegar cá.

Uma novidade, e esta é pessoal e profissional. Chegou hoje à escola do Magistério um ofício da Direcção Geral do Ensino Primário, a convocar os professores das Expressões, Desenho, Música e Ginástica, para cursos de aperfeiçoamento, em Lisboa, nas férias do Carnaval. Portanto, eu, o professor Raimundo e a D. Natércia vamos passar as férias a trabalhar. Lixaram-me a vida, porque tinha outros projectos para esses dias, de 13 a 18 de Fevereiro.
Por acaso até nem gosto, nunca gostei, do Carnaval, mas férias são férias…

mil novecentos e sessenta e um – dia 029

196129 JANEIRO

Enfim, um Domingo sem grandes novidades no que diz respeito ao paquete Santa Maria. Dizem as últimas notícias que as negociações decorrem no maior segredo, e confesso que não percebo se isso é bom ou mau. O governo brasileiro já afirmou que confiscará o navio e o devolverá aos seus proprietários. Valha-nos isso.
A Voz Portalegrense escreve na primeira página que Salazar alcançou no caso do Santa Maria uma clara vitória diplomática. Li e confesso que não percebi muito bem onde está a vitória. Sinceramente, nem sequer me parece um empate…
Entretanto, já chegaram a Portugal os tripulantes soltos, muito abatidos e desmoralizados. Isto tudo é uma tristeza.

As relíquias de Nun’Álvares, segundo dizem os jornais, começaram hoje a percorrer todas as províncias de Portugal. Deve ser para levantar a moral do povo que está em baixo.

Cá pela terra, os jornais falam no progresso da cidade, de novas casas de habitação, do fim do “Piolho”, uns velhos casebres ali para os lados do Calvário e do Mercado Municipal, de ruas calcetadas, dos autocarros e, agora, da Tapada de D. Fernando que vai ser urbanizada. Também, ao que parece, talvez o Batalhão de Caçadores 1 se mantenha por cá… Oxalá! O Centro de Assistência Social, ali na rua de Santo André, vai reabrir porque esteve fechado por dificuldades financeiras, pelos vistos já resolvidas. Ainda bem.
No Largo dos Correios foi estreada a nova iluminação pública, com luzes fluorescentes. Ficou muito bonito o efeito. À noite, é claro.

Hoje foi a anual Feira dos Porcos, com sua “lecença”, como se diz por cá. É uma tradição muito antiga, com todo o folclore do costume, onde se vende de tudo e mais alguma coisa, para além do gado suíno que lhe deu o nome. Dá movimento à cidade e vem muita gente das freguesias.

Só mais um assunto que julgo interessante aqui falar. Trata-se dos números do Instituto Nacional de Estatística relativos a 1959. Quantos somos? Nesse ano, houve 213.062 nascimentos, 97.754 óbitos e 75.868 casamentos. Há números e mais números mas em nenhum lado explica quantos somos ao todo. Apenas diz numa frase que os serviços calculam que a população do Continente e Ilhas Adjacentes deveria computar-se em 9.413.219 habitantes ao findar o ano de 1939. Ora bolas, isto foi há mais de vinte anos! Então nunca mais fizeram um recenseamento ou lá como é que isso se chama?
Ainda não somos dez milhões? Gostava mesmo de saber.