um celeste diabrete

Diabrete

Que me seja desculpada esta bíblica blasfémia, mas acredito num diabrete celestial, um diabrete tentador, carregado de promessas capazes de atrair qualquer mortal para os seus domínios.

Fui seu crente durante anos, desde que ele foi lançado à Terra para nos enfeitiçar e só dele me separaram à força, em dramático episódio familiar que jamais esquecerei.

Aliás, foi sempre mais ou menos tenebroso aquele mundo onde o diabrete se movia. Tinha por lá mosquitos que provocavam terríveis maleitas com a sua picada, papagaios que enchiam o nosso mundo com ocos palreios sem fim, foguetões capazes de nos conduzir a outros mundos e lá nos deixarem, mundos de aventuras sem bússola nem sextante, falcões e condores dos mais vorazes, cavaleiros andantes com errante destino, zorros envoltos em misteriosas máscaras, loucos titãs, senhores doutores com falsos diplomas, equívocos camaradas, emproados pimpões, lobos maus, incendiárias fagulhas e faíscas, saltitantes pardais, jactos de pura jactância, flechas mortais talvez envenenadas, transviadas visões, pirilaus sem nexo e valentes sem sexo, repelentes gafanhotos ou inocentes joaninhas e formigas, explosivos pim-pam-puns!, duvidosos pisca-piscas, patrióticas lusitas, naus catrinetas sem qualquer rumo, mortíferos jacarés, refugiados (terroristas?) tintins, cutos, mickeys e spirous,  tic-tacs com desafinados ritmos, clandestinas selecções bêdê, eu sei lá!!!

Os que sobrevivemos sem estragos de maior, os que mantivemos algum juízo no seio dessa perdição, os que sobrámos daqueles furacões para disso fazer crónica, os poucos que restamos de gerações sem nome nem glória, aqui estamos a brandir ainda os velhos pendões e a evocar os dias da infâmia cultural, prontos a jurar por todos os deuses feitos quadradinhos, assinando em todas as bandas desde que desenhadas, que para todos os tempos e em todos os sítios lembramos ainda todos os dias de todas as semanas e todos as semanas de todos os meses e todos os meses de todos os anos em que impacientemente esperávamos a continuação de todas as aventuras deste mundo e dos outros. Antes da moderna era dos álbuns de luxo, no pronto-a-saber de todas as instantâneas respostas.

Militante dessa política, crente dessa religião, irmão dessa comunidade, sócio desse clube, membro dessa irmandade, eis-me confessando a minha culpa, exaltando a minha loucura, professando a minha convicção, suplicando salvíficos perdões.

Por isso e só por isso ouso, aqui e agora em tempos de olvido, lembrar o dia talvez maldito em que o diabrete foi largado à sua e nossa sorte nesta terra abençoada, talvez por isso hoje sobrevivente a esse mafarrico e às suas tropelias. E que me seja amnistiado mais este atrevimento, mas declaro para os autos que o dia quatro de Janeiro de mil novecentos e quarenta e um foi muito especial.

Cumprem-se hoje setenta e cinco anos -setenta e cinco!- sobre a data em que um certo diabrete chegou à Terra. Para ficar no coração de alguns.

Que os deuses da santa e abençoada cultura oficial, na sua infinita misericórdia, nos perdoem.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1 thought on “um celeste diabrete

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