ENTALADOS

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Às recentes presidenciais faltou tudo menos imbecilidade. Despojado da dimensão hierática de outros tempos, o campo político abriga a decadência da boçalidade que conquista quase todo o espaço do visível e atinge áreas contíguas às dos meios intelectuais e dos centros de irradiação do saber, como as universidades. O fetichismo da linguagem política despolitizou-a e reduziu-a às cinzas do slogan e de meia dúzia de chavões sobre a austeridade, a pobreza, a justiça, a crença em tempos novos, o cumprimento de obrigações de ordem financeira e o respeitinho pelos mercados (quem não se lembra da expressão “o sentimento da bolsa” surgida em meados dos idos 90 no léxico português?). Na prática, os dez matraquilhos que se apresentaram como candidatos ao mais elevado cargo de soberania libertaram, a partir de agora, os actos eleitorais da sua densidade semântica e restringiram-nos ao exercício mecânico de fórmulas, melhor ou pior manipuladas pela destreza e eloquência de cada candidato. É por isso que se diz que todos ficaram no mesmo saco.

Ao destituírem a linguagem da dimensão do sagrado e dos seus rituais do bom sacrifício a que ela se presta, quando ainda prevalece a substância, os dez candidatos aceitaram ser tratados do mesmo modo, e não houve como fazer crer que cinco deles eram, no mínimo, escusados. Tudo tem um preço. Edgar ou Tino, Sequeira ou Belém, vistas bem as coisas, estão bem uns para os outros.

Para lá do facto de a Constituição permitir que qualquer cidadão nacional, reunidas certas condições formais, seja um putativo candidato à Presidência da República sem que isso seja um escândalo que fere a própria constituição, custa ainda aceitar que sejamos envolvidos na lamentável comédia pornográfica eleitoral. Porque, por mais que tentemos, fazemos parte do atoleiro – é com esta gente que lidamos. E ainda que deles faça parte alguém com um mínimo de decência, o drama actual incita os guerreiros a baixar a fasquia e a entreter o País, como se nos estivessem a fazer um grande favor (só Marisa, em boa verdade, pareceu levar alguma coisa a sério). O combate final travar-se-á entre a manutenção do espectáculo para os próximos tempos e a nossa vontade de permanecer asseados. O pior é que, como diz a personagem do The Catcher in The Rye, “quando estou com alguém que é foleiro, acabo por fazer também coisas foleiras”.

Creio que estivemos com gente foleira, nestes últimos tempos. Se não fizermos qualquer coisa, elevando de novo a nossa experiência democrática e cívica, algo que também é possível tentar nas escolas, acabamos mesmo entalados.

 António Jacinto Pascoal
Professor
Público 29/01/2016

31 entalados publico 29 janeiro 16 

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