VERGÍLIO FERREIRA – Cem Anos (quatro-fim)

VERGÍLIO cabeçalho

Foi longa e profunda a ligação de amizade e de recíproca admiração entre Vergílio Ferreira e José Régio. Aquele chegou a visitar o poeta da Toada em Portalegre.

Ainda que Régio não tenha anotado no seu Diário e nem sequer constem da sua vasta correspondência quaisquer referências significativas ao autor de Aparição, nem por isso se deve desprezar a relação mantida entre ambos.

Os seus encontros ficaram aliás registados em diversas fotografias.vergilio regio e julio em portalegre 1954

Por isso, Vergílio Ferreira teve coerência e assumiu a coragem de afirmar publicamente em 1965, e com toda a razão, num tempo em que se olvidava ou mesmo denegria a obra literária de Régio, aquando dos 40 anos de Poemas de Deus e do Diabo, que “Régio é hoje o maior de todos nós“.

E, mais tarde, na altura da morte deste, acontecia em Dezembro de 1969, em que ficou sepultado na Vila do Conde sempre lembrada (Vila do Conde espraiada, / Entre pinhais, rio e mar! / – Lembra-me Vila do Conde / Mais não posso lembrar), Vergílio Ferreira pôde uma vez mais declarar que “todo o projecto de uma vida não curta como a de Régio foi assim a definição de um antagonismo entre a realidade e o que ela encobre, sendo profundamente o que ela encobre a vocação ao Absoluto“.

vergilio regioO Boletim n.º 8-9 do Centro de Estudos Regianos, relativo a Junho a Dezembro de 2001 e especialmente dedicado ao Centenário do Nascimento de José Régio, integra um notável ensaio de Ana Isabel Turíbio intitulado Na morte de Régio de Vergílio Ferreira – estudo genético.

Constante do espólio literário de Vergílio Ferreira, pertença da Biblioteca Nacional, esse material não tinha, ao tempo, sido publicado, com excepção do artigo Na morte de Régio, no livro de ensaios Espaço do Invisível II (Bertrand Editora, 1991). Trata-se de um interessante e revelador conjunto de testemunhos que confirmam em absoluto a amizade e recíproca admiração sempre travada entre ambos os escritores.vergilio grupoliterario janeiro 1963 spa

Quanto a Lauro António, dotado da escolaridade cultural portalegrense de um íntimo convívio pessoal com José Régio, já a relação daquele com Vergílio Ferreira nasce da sua veia cinematográfica.

Lauro António, na vida de realizador de cinema que o caracterizou, distinguiu-se pelo interesse manifestado pelas relações da 7.ª Arte com a Literatura.

Manteve contactos pessoais próximos com Vergílio Ferreira. Realizou um curto documentário sobre a sua obra, em 1975, intitulado Prefácio a Vergílio Ferreira.

vergilio e lauro seminário fundão 1978Mas foi na longa metragem Manhã Submersa (1980), baseado na obra homónima do escritor, que as ligações recíprocas mais se estreitaram.

De lembrar, ainda, para a série Histórias de Mulheres que realizou para a RTP em 1983, a adaptação do conto Mãe Genoveva, do mesmo autor.

Registe-se, pelo seu profundo significado, que Vergílio Ferreira interpretou no filme Manhã Submersa um dos principais papéis, o de Reitor do Seminário, contracenando assim com outros grandes vultos da cena portuguesa, tais como Eunice Muñoz, Canto e Castro, Jacinto Ramos e Carlos Wallenstein. Essa interpretação, protagonizada por alguém que não era actor profissional, reveste-se de inegável mérito.

Aqui ficam alguns registos sobre o filme e o documentário referidos.



Arte digital em Peniche

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Arte Digital na Fortaleza de Peniche

No próximo dia 30 de Janeiro, amanhã, pelas 15h00, é inaugurada no Salão Nobre da Fortaleza de Peniche a Exposição “Arte Digital” – JAM.

JAM, acrónimo de João Martins, é um artista natural de Peniche, nascido em 1984. Autodidacta, iniciou-se enquanto jovem no desenho artístico, seguindo o estilo japonês “Manga”, celebrizado pelo artista gráfico Akira Toriyama, criador das séries e bandas desenhadas Dragon Ball, Dr. Slump, Kajika, entre outras. Em 2008 decidiu enveredar pela ilustração digital, iniciando-se na criação de caricaturas e ilustrações mais complexas e diversas. Nesta área conseguiu expandir o seu portefólio, tendo já criado várias ilustrações para bandas como Metallica, logotipos para diversas empresas, capas de livros e também caricaturas personalizadas.

Nesta exposição, JAM apresenta ao público uma súmula da sua já extensa produção artística, que pode ser visitada online em: http://www.behance.net/theJAM

Esta mostra, de entrada livre, estará patente ao público até dia 21 de Fevereiro.

mil novecentos e sessenta e um – dia 028

196128 JANEIRO

Chegou o sábado, sem o caso do paquete Santa Maria estar resolvido. Agora parece ter havido nova mudança de rota e já não vai para Angola, mas sim no sentido oposto, para o Brasil. Será mesmo? Algumas notícias até dizem que está perto de Recife. Os jornais afirmam que há negociações para o desembarque dos passageiros. Coitados, devem estar fartos de tudo aquilo.

O jornal Washington Post diz que as vidas dos passageiros americanos a bordo são a principal preocupação da política dos Estados Unidos quanto ao navio. Ora bolas! Então eles valem mais do que os portugueses? Eu julgo que os passageiros são todos iguais e merecem os mesmos cuidados.

Acho graça aos comentários que afirmam não ser possível ao Santa Maria enganar os navios e sobretudo os aviões que o vigiam noite e dia. Pudera, o contrário é que seria uma proeza, por exemplo tornando-se invisível…

O frio começa a ceder e hoje estiveram 9 graus, mais do dobro do que já fez há dias. Entretanto, os jornais de Portalegre falam do caso Santa Maria. O mais sério de todos os títulos das primeiras páginas parece-me ser o do Distrito. Diz: Hedionda e cobarde proeza! Chama-lhe pirataria e critica duramente Henrique Galvão e Humberto Delgado. Deve reflectir a opinião dos bispos. Recortei a notícia e agora colo-a aqui.

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Estiveram cá em Portalegre as autoridades espanholas de Badajoz. Convidaram-me para um lanche mas dei uma desculpa qualquer e não fui. Acho que os espanhóis falam todos muito alto e percebo mal o que dizem.

VERGÍLIO FERREIRA – Cem Anos (três)

VERGÍLIO FERREIRA – VIDA E OBRA

No dia 28 de Janeiro de 1916, sexta-feira, em Melo, concelho de Gouveia, nasce Vergílio António Ferreira, filho de António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira.

vergilioferreiraEm 1920, os pais de Vergílio Ferreira emigram para os Estados Unidos, deixando-o, com os irmãos, ao cuidado de suas tias maternas. Esta dolorosa separação é descrita em Nitido Nulo. A neve – que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela.

Aos 10 anos, após uma peregrinação a Lourdes, entra no seminário do Fundão, que frequentará durante seis anos. Esta vivência será o tema central de Manhã Submersa.

Em 1932, deixa o seminário e acaba o Curso Liceal no Liceu da Guarda. Começa a dedicar-se à poesia. Entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, continuando a dedicar-se à poesia, nunca publicada, salvo alguns versos lembrados em Conta-Corrente e, em 1939, escreve o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe. Licenciou-se em Filologia Clássica em 1940. Conclui o Estágio no Liceu D.João III (1942), em Coimbra.

Começa a leccionar em Faro. Publica o ensaio Teria Camões lido Platão? e, durante as férias, em Melo, escreve Onde Tudo Foi Morrendo. Em 1944, passa a leccionar no Liceu de Bragança, publica Onde Tudo Foi Morrendo e escreve Vagão J. Na sua vida de professor liceal, há dois momentos fundamentais: a sua estada em Évora (1945-1958) – que entrará para o nosso imaginário através de Aparição – e a sua vinda para Lisboa (1959), onde ensinou no Liceu Camões até à reforma.

A primeira fase do seu percurso romanesco, agora retirada da edição da Obra Completa enquadra-se no neo-realismo então vigente. Ainda assim, Vagão J (1946) opera já uma pequena revolução sem consequências: o movimento neo-realista passou-lhe ao lado, e o autor, perante a incompreensão da crítica, recuou e só viria a reincidir muito mais tarde.

Com Mudança (1949) começa Vergílio Ferreira a conquistar a sua voz própria. Aliás, em maior rigor, dever-se-ia dizer que é a voz própria que começa a conquistar o seu autor. De facto, Mudança estava arquitectado para ser um romance neo-realista exemplar – e em muitos aspectos é-o; mas é também outra coisa, que posteriormente se veio a interpretar como sendo a deslocação do neo-realismo para o existencialismo. Tal deslocação ter-se-lhe-á imposto inconscientemente no processo de escrita, sobretudo no tratamento do tempo e da figura da infância. Na velocidade do tempo que estrutura o romance – e que decorre do modo de representação neo-realista: materialismo histórico e materialismo dialéctico, a figura da infância enquanto queda para o passado e queda tanto mais desamparada quanto esse passado não é apenas uma memória mas sobretudo o sem fundo que fecha e vela o próprio sentido do nosso trânsito pelo tempo, a figura da infância introduz a desaceleração que toda a hipótese de um sentido arqueológico introduz. Não significa isso que essa atenção ao mais original solucione os problemas de sentido – ela desloca apenas as coordenadas da procura. Mas com esse movimento transforma-se também o modo de representação. vergilio_ferreira_gf_1

É já de uma forma deliberada que Vergílio Ferreira se distancia do neo-realismo nos romances escritos antes de Aparição (1959) mas só publicados depois deste. Em Apelo da Noite (1963) reivindica-se face ao homem de acção, o “crime de pensar “; em Cântico Final (1960) é a arte, como encontro de um “mundo original”, de um sagrado ou absoluto agnóstico, que se furta a qualquer compromisso ideológico. Mas é Aparição – que juntamente com A Sibila (1953) de Augustina Bessa-Luís o romance português contemporâneo – que imporá o seu universo romanesco, seja naquilo a que se chamou, não sem verdade, mas com alguma pressa reducionista, o eu existencialismo, seja no seu estilo ensaístico ou filosofante. Tentando descrever a experiência, no limite inenarrável, do aparecimento do eu a si próprio, e circunscrevendo-a dentro de uma problemática decididamente metafísica e existencial, Aparição é o limiar de uma agónica mas sempre deslumbrada interrogação sobre a condição humana.

 Estrela Polar (1962) e sobretudo Alegria Breve (1965), onde o pathos da sua escrita atinge o ponto de máxima exacerbação mas também de máxima perfeição, além de aprofundarem e completarem a temática de Aparição, introduzem um experimentalismo que terá larga descendência na nossa ficção. A partir de Nítido Nulo (1972) o tom da sua obra começa a ser matizado pela ironia. É uma ironia que vem daquilo que o desgaste ensina. E o que ele ensina é que toda a verdade se esvazia, toda a evidência se torna opaca, todas as ideias pesam para o lado da morte. O pathos até aí predominante era o era o tom de quem falava do interior de uma evidência estética, de uma Stimmung umbilical. Nunca em Vergílio Ferreira uma árvore provoca náusea ou uma praia com sol induz um crime absurdo. Se há náusea (mas praticamente não a há) ou absurdo (este sim, mais visível), eles não começam logo na facticidade do mundo mas somente na condição humana em si mesma. O mundo apenas é. Experienciá-lo esteticamente é já um limiar de sentido. Daí que os narradores vergilianos se sintam tentados a configurá-lo como uma verdade, existencial e não sistemática, é certo, mas suficientemente segura para se afirmar contra todas as ideologias. Ora o que acontece no “niilismo activo ” de Nítido Nulo, no seu “morrer tudo”, é tudo envolve também esta hipótese de verdade que os narradores anteriores utilizavam como escudo no combate cultural. O deslizar insensível da aisthesis para o logos é agora difícil, e sê-lo-á cada vez mais. Por isso os romances se começam a distribuir por dois espaços – tempo: um passado onde decorre o diferendo ideológico – cultural, diferendo não só incomensurável como, em última instância (revelada por aquilo que o desgaste ensina), inútil; e um presente de pura afirmação de ser.

vergilio-ferreiraO primeiro pólo perderá progressivamente a sua capacidade de engendramento narrativo, o combate que nele se desenrolará é apenas o ruído do mundo, não uma alínea de qualquer história teleologicamente configurada – daí a paralisia da história em Signo Sinal (1979). O segundo pólo, impossibilitado agora de funcionar como ” fundamento mítico ” de uma macronarrativa, apresenta-se como uma espécie de justaposição de hauikus, de nós de revelação que não constroem o “sentido de um final ” mas uma litania de apaziguamento, uma pietas para com aquilo que mais primordialmente somos – um sujeito – casa atravessado por tudo o que vem de todos os pontos cardeais, e todavia lateral a essas múltiplas orientações, sempre não sabendo, como em Para Sempre (1983) ou nas séries de Conta-Corrente (1890 a 1992).

É este não – saber que obriga Vergílio Ferreira ao continuar da escrita e faz que os narradores vergilianos envelheçam como o seu autor. Envelhecer, por exemplo, é passar de filho a pai. De Até ao fim (1987) a Cartas a Sandra (1996), o narrador, entre outras coisas, é um pai a quem o filho morre. O que morre na morte do filho é aquela força que não suporta a suspensão da história e se autodestrói na procura da resposta que não há. Poder-se-ia mesmo dizer que a morte do filho é a prova por absurdo de que a lateralidade axiológica em que se coloca o pai não é simplesmente a desistência do cansaço mas a sabedoria da suplementaridade, seja a do puro possível da verdade branca do mar que move Até ao Fim, seja a da ironia dos contrafactuais ontológicos que se experimenta em Na Tua Face (1993).

Envelhecer é também passar da despesa do tempo à sua reinvenção no absoluto da memória. Mas esta lição (ou condição) proustiana tem em Vergílio Ferreira as condicionantes contemporâneas de uma sociedade tardo-capitalista, aquela em que a redescrição metafórica do que foi não pode já competir com os meios tecnológicos de representação (cinema, TV, vídeo, etc.) e por isso constrói a afectividade do acontecimento puro: ” Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça ” (Em Nome da Terra , 1990).

Claro que há ainda romance, e até na sua dimensão mais consensual e acidentalmente romanesca, que é a da história de amor. Mas se, na sequência da tradição, também aqui o amor é aquilo que só se sabe depois, diferentemente dela, este depois não é a origem reencontrada mas um frágil presente que se sustenta apenas da escrita do nome amado, como em Cartas a Sandra, romance que deixa incompleto e que foi publicado no ano da sua morte.

Vergílio Ferreira morre em Lisboa, a 1 de Março de 1996 e é sepultado em Melo.

Neste presente, que é a perda serena de todas as estórias, desenha-se com nitidez a dificuldade contemporânea do fazer sentido. É dessa crise (de cultura e de civilização), das suas várias alíneas polemizantes (marxismo, estruturalismo, filosofia da linguagem), mas também daquilo que cria a esperança de um depois dela (a arte, os autores que se amam, a insistência do pensamento), que falam os es_monserrateinúmeros ensaios que Vergílio Ferreira também escreveu, com muito particular acerto Carta ao Futuro (1958), Inovação do meu Corpo (1969) e Pensar (1992).

 ESCOLA SECUNDÁRIA DE MONSERRATE (2002)