mil novecentos e sessenta e um – dia 090

196131 MARÇO

Hoje é Sexta-feira Santa.

Quero esquecer a actualidade e recordar agora o que era o tempo das Trevas na minha infância aqui na cidade. A nossa mãe levava-nos, a mim e ao Zé meu irmão, à Sé, pelo serão. Tudo ali era escuridão, os altares com as imagens todas tapadas por pesados panos negros. A única iluminação era de velas e as sombras dominavam o templo.

A certa altura, ritual, saltava para o púlpito um frade, acho que era sempre o mesmo de uns anos para os outros, velho, pequeno, careca, magro, barbudo. Tinha uma voz de trovão, incrível para um corpo assim franzino, e lá do alto pregava inexoravelmente as penas do inferno. A gente não se safava daquilo a não ser que fosse um santo, coisa que não estava ao alcance de qualquer comum mortal como nós, pecadores como somos por definição bíblica. Por isso, segundo o pequeno frade magro e barbudo, o nosso inevitável destino era o fogo ateado pelos diabos nas suas infernais profundezas. Para toda a eternidade ali arderíamos sem qualquer hipótese de salvação.

Quando regressava a casa vinha sempre aterrorizado, embora procurasse disfarçar tamanha inquietação. Cada noite era um tormento, pois via nos cantos escuros do quarto diabos à minha espreita. Levava todo o tempo antes de conseguir adormecer a abrir os portais da janela para que a luz esconjurasse os temíveis fantasmas. De seguida, a minha mãe, que só dormia bem em plena escuridão, ia cerrar a janela. E levávamos longo tempo neste jogo do gato e do rato até que, vencido pelo cansaço, eu finalmente adormecia.

Passaram já quase vinte anos sobre esse repetido episódio, ritual de terror que ensombrava cada Semana Santa em cada ano da minha infância. Mas ainda não esqueci, provavelmente jamais esquecerei essas cenas que hoje me parecem bem mais próximas do bárbaro fundamentalismo que da religiosidade cristã. Mas era assim.

Agora já nem frequento a Igreja, que respeito mas não pratico. Por isso ignoro se aquilo se repete, mas acredito que não. Em nome da fé, em nome da higiene mental, em nome da verdade, se houver em tudo isto alguma verdade.

Não me apetece escrever hoje aqui seja mais o que for. Fiquei com o espírito revoltado só de recordar…

Velhos são os trapos mas os papéis não! – três

velhos são os trapos cabeçalho

Num derradeiro regresso ao Almanach Illustrado da Empreza do Jornal “O Seculo“, edição de 1899, portanto com 117 anos, recapitulemos a componente publicitária do volume.

A seguir ao Índice, portanto na parte final do almanaque, um pequeno bloco publicitário preenche oito páginas. Curiosamente, o conjunto é dedicado quase  em exclusivo a edições da própria empresa editora de O Século.

Começa pela promoção de assinaturas do jornal, que é anunciado como um diário da manhã, político, literário e noticioso, o de maior tiragem nacional. Segue-se a publicidade a um original de Mousinho d’Albuquerque, precisamente Campanha contra os Namarraes, que dispõe, como brinde, da cópia de uma aguarela de Roque Gameiro. Um suplemento ilustrado e autónomo do jornal, publicado às quinta-feiras sob a direcção artística de Jorge Colaço e literária de Acácio de Paiva, é depois publicitado. A seguir, é proposta a aquisição do volume Contos e Histórias, uma antologia com 200 páginas adornada com 98 gravuras, fora a capa a cores. O número especial de Natal de 1897, extraordinário e de grande luxo, elegante brochura de 50 e tantas páginas, dispondo na capa de uma alegoria de Veloso Salgado, mais o seu Álbum de Anúncios, é vendido por 600 réis, como se sabe de seguida. Madame Sans-Gêne, de Edmond Lepellier, é um grandioso romance militar e dramático que pode ser adquirido em 54 cadernetas, a que agora chamaríamos fascículos, e que vem reclamado a seguir. Depois, na página imediata, temos: Cerimonial Romano, Missal Romano, Ciência sem Deus e A Viagem por Terra, quatro distintas obras disponíveis na Livraria Moderna, excepto a última, mais um exclusivo de O Século. A findar, Romance duma Rapariga Pobre, sensacional trabalho dramático de Louis Boussenard, com um brinde plástico –A Leitura dos Lusíadas, de Alfredo Roque Gameiro- na compra das cadernetas da obra.

Aqui fica completa, no seu essencial mais curioso, a evocação do Almanach Illustrado da Empreza do Jornal “O Seculo“, edição de 1899, com uns frescos 117 anos.

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mil novecentos e sessenta e um – dia 089

196130 MARÇO

Volto hoje a falar do I Salão de Pintura Moderna e tenho razões para isso. O pintor Luís Dourdil, que é dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes e tem uma grande obra pública sobretudo em murais no Museu da Farmácia e no Cinema Império, em Lisboa, fez parte do júri desta exposição. Hoje voltou a Portalegre, onde também à tarde mostrou apreciar bastante as nossas especialidades gastronómicas, para orientar uma visita guiada às obras expostas.
Foi inesquecível o que ele mostrou, quadro a quadro, abrindo-nos portas à imaginação. Creio que é este o segredo da pintura moderna, o de exigir muito mais de nós do que o género clássico. Aqui está lá quase tudo, é um ponto de chegada, enquanto uma pintura moderna nos desafia a entendê-la e aceitá-la. Ou não, claro!
A exposição, o colóquio do Fernando Martinho e agora esta visita orientada pelo pintor Luís Dourdil, tudo tem marcado pontos positivos para a malta do Amicitia. Tem sido um belo estímulo para continuar.

Os grandes títulos dos jornais de hoje são ocupados pela vitória do Benfica, ontem, na Dinamarca, onde venceu o Aahrus por 4-1 e ficou apurado para as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus.
Ao que parece foi uma excelente exibição.

Quanto a Angola, que ficou para segundo plano, ficámos a saber que continuam a chegar a Lisboa, de avião, refugiados daquela província. Achei curioso porque é a primeira vez que leio a palavra refugiados. São principalmente grupos de mulheres e crianças das zonas do Norte, onde se registaram trágicos acontecimentos. Repeti as palavras exactas do Diário de Lisboa: trágicos acontecimentos.
Tantos brancos e negros mortos! – disse uma refugiada de cor, natural de Nova Lisboa, a irmã religiosa Josefa. Noutro ponto do jornal diz-se que só em Luanda há mais de 2.000 refugiados, na maioria mulheres e crianças.
Conclui o jornal que segundo as opiniões recolhidas a situação tende a normalizar-se, que os portugueses brancos e de cor querem tranquilidade e, embora nervosos, manifestam confiança nas autoridades, mas ainda temem novos ataques.
Afinal, por cá, continuamos na ignorância daquilo que aconteceu realmente. 

Um Anjo da Guarda chamado Tintin

Aqui há dias congratulei-me pelo facto de os recentes e dramáticos acontecimentos de Bruxelas terem recuperado a imagem de Tintin como símbolo da Bélgica, uma “nação” irremediavelmente dividida entre valões e flamengos.

Agora são abordadas outras referências ao herói de Hergé, provavelmente mais contraditórias. A primeira vem já de longe e surge-nos, no presente, como premonitória. Na frequente utilização da imagem de Tintin em inúmeros e até clássicos “pastiches” ou falsificações, uma vinheta/página de O Caranguejo das Pinças de Ouro foi aproveitada como improvisação da capa de um falso álbum, pretensamente intitulado Tintin a Molenbeek. Ei-la:


30 tintin a molenbeek

Recuperada agora essa já antiga criação, ei-la presentemente acompanhada de alusões diversas de que aqui se reproduz uma, significativa de uma certa interpretação da actual vivência sócio-política, tanto belga como europeia:

Dans les prochains jours, un nouvel album du plus célèbre rouquin de Belgique va sortir. Si à l’habitude, les histoires de notre héros et de Milou finissent bien, cette fois, sa destinée risque d’être un peu plus tragique.
Tintin va devoir affronter plusieurs difficultés à Molenbeek. Trouver de la nourriture normale, trouver une église mais surtout éviter certains dangers. Sa route va croiser celle de Salah Abdeslam…  Grâce à lui, Tintin apprendra comment se cacher de tout le monde pendant des mois mais notre héros risquera gros suite à un conflit avec l’homme le plus recherché de l’Europe ….
Ce nouvel album est à découvrir dans votre librairie très prochainement !

Ainda mais profunda é uma versão modernizada deste “pastiche” que aqui se igualmente reproduz:


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Simbólica e crítica, esta nova versão de Tintin a Molenbeek é bastante mais dramática, convidando a uma indesejável sequência com a anterior. Imagem-choque, remete-nos para o desencontro de civilizações, para a brutalidade tribal extrema, para a máxima selvajaria humana. Que aconteceram.

Em indesejável interpretação narrativa eis que, ligadas, poderiam ambas as capas perspectivar uma continuação da desordenada fuga do herói no “perigoso” bairro de Bruxelas, acabando, cativo do Daesh, na praia líbia das decapitações… Um final arriscado ao trágico, em vez do habitual triunfo do Bem sobre o Mal.

E a utilização de Tintin prolonga, afinal, a exploração de um mito, na manutenção do símbolo nacional belga elevado agora a uma mais alargada projecção.

Retomando a tranquilidade, troquemos a imagem desenhada pela fotografia, mantendo Tintin como denominador comum. E eis-nos perante um soldado comando belga, armado até aos dentes para nossa segurança, tendo como fundo uma representação do universo tintinesco. Onde nem sequer falta uma alusão nacional na capa de um dos poliglotas álbuns.

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Tintin, tranquilizemo-nos, vela por nós!

 António Martinó de Azevedo Coutinho