Uma questão de bom senso

Última Hora, em “Económico” on line

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Presidente faz visita de quatro dias a Moçambique, país que não ratificou o acordo. E aproveita para reabrir discussão.

Marcelo quer reabrir debate sobre Acordo Ortográfico

Marcelo Rebelo de Sousa vai relançar o debate sobre o Acordo Ortográfico aproveitando a boleia da visita de quatro dias que fará na próxima semana a Moçambique, país que não ratificou o dito acordo. Segundo avança hoje o “Expresso”, o referendo é uma das possibilidades para resolver o impasse.

O consultor cultural do presidente da República, Pedro Mexia, diz ao semanário que Marcelo tem recebido mensagens de cidadãos e instituições a contestar o acordo e que, caso Moçambique e Angola não o ratifiquem “impõem-se uma reflexão sobre a matéria, que é de competência governamental, mas o presidente não deixará de sublinhar a utilidade de reflexão”.

Recorde-se que em 1991, Marcelo Rebelo de Sousa foi um dos 400 subscritores de um manifesto contra o Acordo Ortográfico, mas em 2008 manifestou-se a favor do mesmo considerando que as alterações não eram substanciais. Seis anos depois, na TVI, admitiu que, apesar de defender o Acordo Ortográfico, não o aplicava na prática.

Já este mês, num ofício a que o “Expresso” teve acesso, lê-se que “sem prejuízo de possíveis desenvolvimentos futuros, o presidente da República, como todas as instituições do Estado português, segue as regras do Acordo Ortográfico no exercício das suas funções”.

O lado perigoso de correr

Encontrei hoje mesmo este texto no SAPO. Li nele aquilo que já tenho ouvido aos amigos mais ponderados e experimentados, que aqui correm comigo, em Peniche. Mas esta repetição merece ser reflectida.
Corro por prazer, que na prática da corrida ganhei, e também por salutar convívio. Agora parei por uns dias, para recuperar do ligeiro incómodo que certo exagero recente me provocou.
Vou igualmente mudar de equipamento, pois reconheço como fundamental a sua actualização e melhoria, mais adequada à evolução que tem novas exigências.
Tenho procurado aprender as lições da prática e oiço com atenção os conselhos de quem tem experiência destas coisas e que sabe reflectir sobre isso.
Francamente, não me parece ser este um comportamento geral. O que por vezes leio -ou vejo em imagens- nas redes sociais, como desabafo, confissão, relatório e até gabarolice, aflige-me, sobretudo quando conheço e aprecio os autores. Tanto de Peniche como de Portalegre. Os comentários que esses testemunhos provocam também me parecem tão simpáticos como enganadores. A amizade não deve esquecer a prudência. O elogio fácil pode constituir um erro e a solidariedade arrisca-se a ser contraproducente.
Cada um lerá o texto que a seguir partilho como quiser e daí recolherá as conclusões que entender. Onde eu li sensatez podem outros reconhecer exagero ou mesmo disparate.
As consequências dessa interpretação pertencem, por direito próprio, a cada um.

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 O lado perigoso de correr

Não há nada que, quando praticado em excesso, não seja prejudicial ao organismo. E correr, uma actividade física altamente recomendada, não foge à regra. “A prática de desporto (que é diferente de ser atleta) é salutar desde que seja feita dentro do bom senso e de alguns limites biomecânicos do organismo. Não existe qualquer atleta de alto rendimento ou de alta competição que não crie mazelas no corpo, sejam internas ou externas. Isto porque fazer exercício físico tem consequências. E em excesso, ou intensidades elevadas, é a receita certa para estarmos a castigar o nosso corpo“, explica o runner Luís Moura, um dos membros do Correr na Cidade.

Segundo o especialista, muitos dos cidadãos que começaram a correr recentemente fazem-no “pela moda ou pressão social” e, assim, esquecem-se de “colocar em primeiro plano o que efectivamente querem“.

Vê-se muita gente a fazer Meias Maratonas em três horas ou mais – com maus vícios de treinos, muito má alimentação, sem preparação mental, sem plano de corrida – e mal acaba começam logo os elogios no Facebook: ‘És o(a) maior’, ‘és um exemplo para todos’, ‘já ganhaste a todos os que ficaram no sofá’ , ‘queria ter a tua força de vontade’, ‘máquina!!!’”, argumenta.

Segundo o responsável, para trás fica um grande sofrimento e “todo o mal que [a corrida exagerada] fez ao corpo, músculos, tendões e órgãos internos“. Por outro lado, uma grande parte destas pessoas tem excesso de peso ou “uma vida extremamente sedentária“, o que não ajuda no processo de correr de forma ponderada.

O responsável dá outro exemplo com uma das novas modas dos runners, o trail, onde o que interessa é a “superação interna“. E isso nem sempre vem com resultados positivos. “Nem que seja preciso seis horas para fazer um trail de 25 km. Que impactos aquelas seis horas vão ter no corpo?“, pergunta-se Luís Moura. “Ganha-se o quê com este tipo de provação? Conseguem correr um pouco mais rápidos do que muitos caminham para o trabalho? Sinceramente! Já pensaram no mal a curto e longo prazo que estão a fazer ao corpo ao aventurarem-se em empreitadas que são muito acima do que deveriam fazer com essa condição física?“, conclui.

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mil novecentos e sessenta e um – dia 120

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Domingo dá para tentar descansar um pouco, porque a semana foi pesada de trabalho, sobretudo por causa do intensivo tratamento dos tais inquéritos locais sobre a literatura infantil. Juntamente com alguns alunos mestres mais disponíveis e voluntariosos foi já possível alinhavar resultados interessantes. Faltam apenas as conclusões, para planear estratégias e depois marcar uma reunião com os pais, professores, encarregados de educação, livreiros, bibliotecários e outros interessados no tema, para apresentação e debate público.
Quero por isso aqui dar conta, embora muito resumida, de alguns dados obtidos num inquérito em que quase 90% dos convidados responderam.

A preferência dos leitores vai para:
– livros só de texto 17%
– livros com algumas ilustrações 34%
– livros predominantemente ilustrados 49%

Os géneros preferidos são:
– livros de literatura ou romances 0%
– livros de aventuras 20%
– livros de iniciação científica ou cultura 0%
– livros sentimentais ou “cor-de-rosa” 0%
– livros de contos tradicionais 20%
– livros ou revistas de quadradinhos 40%
– livros ou revistas de fotonovelas 20%

Gostos diferenciados em relação a meninas e meninos:
Meninas – contos e novelas – Meninos – cowboys, aventuras, policiais

Preferência por:
Livros de colecção 70% – Revistas e jornais periódicos 30%

Autoria das obras:
Autores portugueses mais citados: Salomé d’Almeida, Trindade Coelho, Alves Redol, Adolfo Simões Müller, Aquilino Ribeiro…
Autores estrangeiros mais citados: Walt Disney, Charles Perrault, Enid Blyton, René Guillot…

Editoras mais dedicadas à literatura infantil:
Verbo (70%), Bertrand, Empresa Nacional de Publicidade, Majora e Agência Portuguesa de Revistas (20%), Edições da Mocidade Portuguesa, Edições Paulistas, Edições Salesianas, Portugália, Civilização e Ed. Romano Torres (10%)

Quando os adultos costumam adquirir livros destinados a crianças, procuram respeitar os gostos destas?
Sim 70% – Nem sempre 30%

Os livreiros costumam orientar essa escolha?
Sim 70% – Não 30%

Conhecimento de existir no mercado nacional livros ou publicações estrangeiras destinadas aos leitores mais jovens? Quais?
Sim 100%: Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Tio Patinhas (ed. brasileiras)

Acha-os meritórios ou defeituosos? Em quê?
Meritórios 15% – Meritórios com reservas 15% – Defeituosos 30% – Reparos quanto à linguagem 40%

Estes são alguns dos mais significativos dados colhidos nas respostas aos inquéritos. Entre as sugestões feitas, posso destacar algumas:
Há dificuldade em obter bons originais portugueses. Há superabundância de originais estrangeiros mais baratos que os nossos. Os livros bons são apenas lidos pelos meninos privilegiados; os outros têm de se contentar com os livros de bonecos, baratos e ordinários. Devia haver uma espécie de jogos florais destinados à literatura infantil. A partir de certa idade há certa procura de livros sobre educação sexual. Discordo em relação à literatura aos quadradinhos ou outras do género que deviam ser proibidas. Estes questionários deviam ter outra finalidade para além do simples auscultar de opiniões.

Hoje, Domingo, fico por aqui com a consciência leve porque acho importante revelar estas notas, mas também pesada porque julgo que escrevi em excesso nas páginas do diário…

Cartã de Cidadã

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Confesso que não assistia a tão caricata demonstração de cretinices ditas de género desde uma ridícula pretensão de Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e Pilar del Rio. Isso foi quase há uns anos, mas não esqueceu…

Numa base fundamentalista q.b., ultrapassando todos os exageros feministas, estas três fulanas pretenderam ser nomeadas como presidentas das respectivas instituições. Uma já é ex da Argentina, outra quase no Brasil e a terceira, francamente, nem sequer conta por insignificante. Perdão!, por insignificanta.

Recentemente, num ataque súbito de género -pior do que zika!- as parlamentares damas do Bloco de Esquerda decidiram que a designação de Cartão do Cidadão era machista por excelência. Num projecto de resolução datado de 13 de Abril, o BE recomendou a alteração da designação para Cartão de Cidadania por considerar que o nome actual do documento não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa.

Sinceramente, acho caricata (usando um termo simpático) esta pretensão. Para além do absurdo desrespeito pelas regras vocabulares que consagraram os nomes comuns de dois e sobrecomuns. E até os epicenos…

Nunca me escandalizei quando, no tempo próprio, fui uma criança. Não me sinto diminuído quando sou testemunha. Já me preocupa um pouco o ser vítima, sobretudo em casos absurdos como este. Não reivindico ser crianço, testemunho ou vítimo. Seria ridículo.

Terão pensado as senhoras deputadas do BE que a feminização das nomenclaturas pode parecer, mesmo, pejorativa? Alguma delas gostaria de ser chamada chefa ou, mesmo, presidenta do seu grupo parlamentar?

Uma mulher que é chefe ou presidente apenas valoriza o seu género por ser mulher e não por usar uma forçada nomenclatura. A designação chefa ou presidenta transfere para a titular uma certa visão máscula, “durona”. Esta classificação “sexual” ou “sexista” das qualidades é perfeitamente artificial, tal como atribuir ao homem a exclusividade da força ou da inteligência, reservando para a mulher a sensibilidade, a ternura ou o sexto-sentido…

As elegantas deputadas do BE, representantas do seu povo, comportam-se no entanto como adolescentas muito pouco pacientas. Como dirigentas políticas ficaram contentas, talvez mesmo sorridentas, com a sua ardenta exigência de feminização da cartã de cidadã.

Como estudantas, poderei recomendar-lhes a leitura atenta de um boa gramática. Entretanto poderão passar os olhos pelos impertinentos artigos a seguir recenseados, com a devida vénia, entre uma infinidade disponível. São, sucessivamente, dos jornalistos Henrique Monteiro (Expresso de 16 de Abril), Nuno Pacheco (Público de 22 de Abril) e Nuno David (Público de 25 de Abril).

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Um português das Arábias

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Português de Lisboa e também um-português-das-Arábias, trota-mundos e aldrabão-de-feira, o senhor Oliveira da Figueira é uma das figuras que Hergé imortalizou na sua obra. Entre as três personagens lusitanas criadas pelo pai de 30 of 2Tintin, Oliveira da Figueira é de longe a mais consistente, surgindo em três álbuns “ao vivo” e num outro através de uma simples comunicação.

Na aventura “Les Cigares du Pharaon“, Tintin é apresentado pelo capitão de um navio ao senhor Oliveira da Figueira, de Lisboa. De imediato este, vendedor-ambulante compulsivo, começa a exercer a sua arte, impingindo a Tintin toda uma panóplia de inutilidades. Mas tarde, em pleno deserto, Tintin assiste a uma sessão de vendas do negociante frente a um conjunto de árabes que o apelidam de “O-branco-que-vende-de-tudo“.

Na história “Tintin au Pays de l’Or Noir“, Oliveira da Figueira desempenha um papel importante. Tintin encontra-o à porta do seu estabelecimento, porque então já se tinha fixado com um bazar, em Wadesdad. Vestido de árabe, Tintin não é de imediato reconhecido pelo 30 of 1amigo, que de início o trata por “jovem príncipe”. Mas, reconhecendo-o e muito feliz pelo reencontro, Oliveira da Figueira oferece-lhe um bom vinho de Portugal, do sol do seu país.

Tintin pede ao amigo que o introduza em casa do professor Smith, ao que ele acede e, já lá dentro, apresenta-o aos funcionários da casa como o seu “sobrinho Álvaro”, acabado de chegar de Portugal. Diz que ele é órfão, um pouco simplório, e ao contar a vida do “sobrinho” profere a deixa que permite a Tintin afastar-se. Enquanto o jornalista se confronta com o professor Smith, continua Oliveira da Figueira a entreter os seus ouvintes com a dramática história da vida do “sobrinho”, por este arriscando a própria segurança.

Nova intervenção, e valiosa, assume Oliveira da Figueira em “Coke en Stock” quando concede direito de “asilo político” a Tintin e Haddock, perseguidos em Wadesdad, transmitindo-lhes preciosas informações e conseguindo orientar depois a sua retirada em relativa segurança.

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Na obra “Les Bijoux de La Castafiore“, Oliveira da Figueira não está presente, mas envia a Moulinsart um telegrama, sendo mesmo um dos primeiros a felicitar o amigo capitão Haddock pelo seu “casamento” com a Diva Bianca Castafiore.

Temos portanto em Oliveira da Figueira uma certa representação simbólica do espírito aventureiro e empreendedor do português de outrora, que conquistou novos Mundos ao Mundo.

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Senti-me uma espécie de Oliveira da Figueira. Lembram-se de uma personagem do Tintin que vendia tudo nos mercados externos, tinha uma pasta e negociava uma série de produtos?“, disse o então ministro Paulo Portas durante a inauguração da Feira Internacional de Maputo (Facim), em Agosto de 2015, quando se referia, em declarações aos jornalistas, à sua assiduidade em eventos daquele género.

Mostrou, no mínimo, ser um bom conhecedor da obra de Hergé. Já não é mau de todo…

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Oliveira da Figueira é a mais recente edição na colecção oficial de figuras de Tintin.  Lembrá-lo é de certo modo homenagear o desenrascado estilo ou modo-de-vida do português emigrante, como uma força da Natureza sempre ligada ao torrão natal.

Por isso, aqui fica o registo de um facto que se saúda.

A oportuna e curiosa crónica do jornalista Victor Bandarra, num suplemento dominical do Correio da Manhã de há umas semanas, evoca algo de toda esta universalidade, e actualidade, de Oliveira da Figueira.

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