mil novecentos e sessenta e um – dia 151

196131 MAIO 151

Amanhã é feriado, Dia do Corpo de Deus, mais a habitual procissão com cavalaria da Guarda Nacional Republicana pela Rua Direita abaixo. Nunca me esqueci do espectáculo, há uns anos, dos cavalos a resvalar e cair com grande aparato, porque não estão preparados para calçadas daquelas, muito inclinadas e escorregadias, sobretudo ao pé do arco da Deveza.

As notícias que hoje A Rabeca traz sobre a tal trovoada em Marvão dizem que o granizo foi do tamanho de ovos de galinha, o qual destruiu telhados, vidros, hortas e árvores de fruto, tendo mesmo ferido gado que pastava e até morto muita criação. Ninguém, nem os mais velhos, se lembra ali de uma devastação assim. O governador civil já esteve na região e prometeu levar o caso ao conhecimento superior, solicitando ajuda.

Continua a recolha de corpos e de destroços do avião venezuelano que sofreu ontem uma explosão após ter descolado do aeroporto de Lisboa. A hipótese de o moderno avião a jacto ter sido atingido por um raio por causa da trovoada na zona parece ganhar consistência, mas ainda não há qualquer certeza sobre as causas exactas da tragédia. Isso vai ser objecto de um rigoroso inquérito.

Tomou hoje posse o novo governador geral de Moçambique, almirante Sarmento Rodrigues, e foram aí anunciadas importantes alterações na administração ultramarina. Aliás, numa entrevista publicada no jornal New York Times, o presidente Salazar também anunciou reformas em Angola, logo que aí se restabeleça a ordem pública.

Lá, os bandoleiros apoderaram-se de embarcações no rio Chiloango, em Cabinda. Em Nova Caipemba foram assaltadas cinco fazendas, enquanto eram feitas rusgas na região de Noqui e continuava o desimpedimento de estradas obstruídas.

Curiosamente, numa secção de curtas notícias do Diário de Lisboa, veio uma pequena nota sobre a inauguração do Museu Municipal de Portalegre. Vou aqui colá-la.

31 museu

E fico por aqui porque agora vou ver o jogo Benfica-Barcelona, embora saiba que a 2.ª parte será apenas ouvida no relato pela rádio, por causa do que ontem aqui contei e que ainda me parece inacreditável.

A propósito, o jornal diz que uma estação brasileira desistiu de transmitir este relato pela rádio porque a organização lhe exigiu o pagamento de 21 contos, verba que os brasileiros acharam exagerada. Protestaram e recusaram. Isto da bola tornou-se um negócio.

Amanhã darei aqui conta do que vai suceder na Suíça.

DIA DE PORTALEGRE 2016 – quarta crónica

Se colocasse as coisas nos termos futebolísticos do meu tempo, chamar-lhe-ia uma linha avançada de respeito. Ou, usando uma nomenclatura mais moderna, denominá-la-ia uma notável fila pedagógica. Explico.

ptg 4 2Quando cheguei ao belo auditório municipal portalegrense comecei, logicamente, a contabilizar amigos. Sem conta. Mal apanhei uns em vias de instalação, pedi-lhes que me guardassem por favor ali um lugar à sua beira, enquanto continuava o meu percurso do afecto. Ao voltar para junto deles, fiquei muito bem instalado… e acompanhado. Os cinco magníficos (desculpem-me a arrogância na inclusão, quando apenas pretendo apanhar a boleia!) foram, da esquerda para a direita de quem olha de frente, Albano Silva, Paula Alegre, eu, Luís Cardoso e António Casanova.

Como é natural, muito fomos conversando pelo caminho, ou seja, no decorrer da cerimónia que ali nos juntou, a solidariedade para com os galardoados e o festejo conjunto de um dia de celebração.

Albano Silva e Luís Cardoso são o rosto humano de anteriores cumplicidades a diversos níveis. Sucessivos responsáveis pela Escola Superior de Educação, embora não no tempo em que ali fui professor terminando a minha carreira doente, sempre deles recebi não apenas apoio mas uma franca e entusiástica cooperação nas diversas iniciativas com eles partilhadas, nomeadamente em torno da memória de José Régio. Conjuntamente com o presidente do Instituto Politécnico, Joaquim Mourato, um amigo comum que ali acompanhávamos, pudemos concretizar em conjunto várias realizações. E isso cria as tais saudáveis cumplicidades que unem e deixam marcas.

A Paula, presença feminina no grupo, enriqueceu o grupo espontaneamente formado. Ao Albano, e sobretudo a ela, pude transmitir o recado acabadinho de receber da distante e próxima Portalegre RN,  cidade irmã do Brasil, onde estivemos e da qual a sua e nossa gentil amiguinha Rafaella esperava a retoma do contacto e do diálogo. Laços que a gente cria e tanto o tempo como a distância não apagam…

ptg 4 1

Por isso mesmo, quando o amigo Albano me dirigiu depois o recado de que gostou de me ver por lá e apreciaria que isso se repetisse e por mais tempo, apetece-me fazer minhas as suas palavras. A amizade, falo da única que a palavra define e não da gerada nas redes sociais, epidérmica e estatística, a amizade é um sentimento intensamente recíproco. Os novos amigos que criei no exílio apenas aumentam a fraterna lista que não exclui, bem pelo contrário!, antes valoriza os antigos, os de sempre.

Por isso fiquei feliz, e esperançado, pelo diálogo com Luís Cardoso, quando este me desafiou para eventuais projectos a corporizar daqui a meses, na sua (e minha) Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre, em torno de pretextos válidos a seu tempo reveláveis. Estou disponível para todas as “negociações”… E muito interessado nisso.

ptg 4 4

Com o António Casanova desenvolvi outro tipo de cumplicidades. Aluno foi ele pelos finais dos febris anos 70 na saudosa Escola Cristóvão Falcão onde eu era professor, e encontrámo-nos nas andanças da banda desenhada e do desporto.

Em Maio de 1977, o António Casanova integrou a equipa, com o meu filho Tó Zé, encarregada de acompanhar e entrevistar o prestigiado jornalista Vítor Santos, quando A Bola era efectivamente um grande jornal desportivo, a propósito da Operação Futebol, inesquecível jornada de intervenção pedagógica comunitária da nossa escola. O seu trabalho foi exemplar e os depoimentos gravados que Vítor Santos lhes concedeu constituíram, e constituem, peças fundamentais do complexo e bem sucedido processo. Agora, recordámos tal episódio assim como as próprias histórias aos quadradinhos que ambos os juvenis jornalistas criaram para um dos folhetos editados e distribuídos no decurso dessa Operação Futebol.

ptg 4 5

Também falámos dos pequenos países bálticos, que conhecemos e apreciamos, por onde António Casanova esteve recentemente na sua função de docente da Escola Superior de Enfermagem local. Discutimos ainda o prazer da corrida que agora nos une, ainda que a diversos níveis de prática, os que distinguem gerações.

Heranças de um passado comum? Quem o sabe…

Entre os homenageados nesse dia esteve um amigo comum, Joaquim Mourato, que todos admiramos e estimamos, sucessor de uma reduzida plêiade de notáveis portalegrenses a quem a comunidade muito deve: Francisco Queirós e Nuno Oliveira. Após a instalação do Instituto Politécnico, por tempos agitados em que a sua gestão inicial quase chegou a confundir-se com a de um conselho de extinção, coube a ambos a difícil e ingrata tarefa de recuperar uma entidade fundamental para o futuro de Portalegre. Francisco Queirós, com a decisiva cumplicidade de Nuno Oliveira, e depois este como seu digno continuador, reconstruíram e afirmaram a obra que hoje tem Joaquim Mourato como firme timoneiro, em tempos novamente difíceis, arrostando diversas e consideráveis tempestades.

As escolas locais e regionais do Instituto Politécnico de Portalegre constituem o mais fundamental dos raros polos onde assenta o presente e o futuro das comunidades do Norte Alentejano. Reduzida nos recursos produtivos, empobrecida nas estruturas industriais, comerciais e agrícolas com que já contou, quase isolada em comunicações, esvaziada de gente, Portalegre e a sua zona de influência devem apostar na manutenção e no desenvolvimento do que lhes resta de positivo.

ptg 4 3

Li nesta justa homenagem a Joaquim Mourato, para além do reconhecimento púbico do brilhantismo pessoal da sua actuação, o respeito e o crédito de confiança de toda uma comunidade na instituição que dirige, com Albano Silva.

Creio que aquela linha avançada, ou fileira pedagógica, onde os companheiros de armas  me colocaram sentiu isso. Em bloco, como convém nas tácticas de combate.

De um combate que urge.

Por Portalegre.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Uma charada de vez em quando…

Há largos meses que aqui não se reproduzia, sempre com admiração e o devido respeito pela autoria e publicação, uma charada dominical do Público. Os exemplos divulgados têm sido de distinta natureza, matemática, geométrica e outras, não tendo tocado a pura lógica que aqui privilegiamos.

Neste Domingo aconteceu uma excepção à regra quase habitual. Por isso, aqui partilhamos a charada publicada, com a devida vénia. De hoje a uma semana aqui estará a solução “oficial”, como de costume.

Um conselho – Desta vez nem valerá a pena utilizar papel e lápis, porque a questão é muito simples e evidente… Resolve-se de caras!

31 adivinha p 29 maio

um LOBO MAU

31 maio 79 lobo mau_0001

31 de Maio de 1979 é a data, hoje uma efeméride, em que se soltou o LOBO MAU. Jornal de banda desenhada de formato tablóide, não se distinguiu apenas pelo inédito tamanho mas também pelas pretensões inovadoras. Não se tratou, portanto, de um inocente “pardalito” como há dias aqui foi evocado. Mas a sua vida ainda se revelou mais efémera. Durou apenas 13 números, fora a edição seguinte que surgiu integrada no Boletim n.º 52 do Clube Português de Banda Desenhada. E foi pena, porque o Lobo Mau prometia histórias, algumas inéditas em Portugal, com um certo cunho adulto. Fritz, de Robert Crumb, Alack Sinner, de Carlos Sampayo e José Muñoz, Mort Cinder, de Alberto Brescia, Sargento Kirk, de Hugo Pratt, Dick Tracy, de Chester Gould, Valentina, de Guido Crepax, e outras séries e autores de primeira linha fizeram gala nas escassas páginas do jornal.

lm

Aqui se lembra mais um (infelizmente) perdido marco das histórias dos quadradinhos em Portugal…

31 maio 79 lobo mau 1

mil novecentos e sessenta e um – dia 150

196130 MAIO 150

Tenho de falar aqui na tragédia que hoje aconteceu e que é o assunto do dia, o desastre do avião venezuelano que explodiu no ar pouco depois de ter deixado o aeroporto de Lisboa, a caminho de uma escala em Santa Maria, nos Açores. A esta hora ainda não se sabe muita coisa sobre o que teria ocasionado o grave desastre, logo pela manhã, onde morreram 61 pessoas, entre tripulantes e passageiros que iam para a Venezuela. Havia uma grande trovoada nessa altura no local e já foram encontrados no mar cadáveres e destroços.

Fora isso, espero uma semana mais calma, com a continuação e conclusão dos exames aqui no Magistério, e com tempo suficiente para ler umas coisas atrasadas para o meu próprio exame, sobretudo pelas literaturas dentro, tarefa chata mas necessária e urgente.

Quanto e este diário, não sei bem se deixei algum assunto importante para trás, espero que não mas tenho dúvidas.

A Gioconda, irmã do Florindo, casou em Lisboa com o Vasco, também advogado como este, que se tem juntado à malta do Amicitia sempre que vem a Portalegre e também na capital, onde já está afinal a maioria.

A estação da CP de Elvas ganhou o prémio nacional das estações floridas, continuando a tradição da nossa zona.

As relíquias de Nun’Álvares vão em Reguengos de Monsaraz, rumo ao Sul de Portugal.

Houve há dias uma grande trovoada em Marvão, que terá arrasado os campos, árvores e culturas, com uma medonha chuvada batida a ventania. Segundo quem viu, parece ter sido uma coisa do outro mundo!

Aqui pelos nossos jornais, começam a aparecer constantes pedidos de madrinhas de guerra por parte de soldados que estão em Angola. É um triste sinal dos tempos que atravessamos.  

Acontece que hoje o Diário de Lisboa não traz praticamente uma linha sobre qualquer acontecimento bélico em Angola. Ou não houve lá nada de importante ou, por causa do espaço, capa e mais uma página ocupadas pelo desastre de avião, não cabiam outras notícias.

Outro tema importante, esse sim, é o grande jogo de futebol de amanhã. Diz o jornal que os jogadores do Barcelona assistiram ao treino do Benfica, o que parece algo esquisito…
Uma página inteira de publicidade esclarece-nos sobre o facto de ser a empresa Sacor-Cidla que patrocina a transmissão directa e integral do Benfica-Barcelona na RTP a partir das 18,40 horas de amanhã. Mas o pior é que na última página do jornal vem uma informação contraditória, a de que a 2.ª parte do jogo não poder ser transmitida em directo, porque a Radiotelevisão Francesa tem a sua rede ocupada com a transmissão de outros importantes acontecimentos da actualidade: a reunião franco-argelina de Evian e a chegada a Paris do presidente Kennedy. Por isso, tanto a Espanha como Portugal apenas poderão ver as imagens da 2.ª parte do jogo a partir das 20,30 horas.
Temos de nos contentar a ouvir pela rádio, o que não é bem a mesma coisa e isto tudo parece-me uma palhaçada…