mil novecentos e sessenta e um – dia 181

1961181 JUNHO DIA 30

A prova de História, tal como esperava, correu muito bem, talvez ainda acima da minha melhor expectativa. A única dificuldade que senti residiu na escolha das questões, uma vez que nos foi disponibilizado um leque de seis de História Geral da Civilização e outras tantas de História da Civilização Portuguesa para optarmos por quatro, e apenas quatro, de cada grupo para respondermos. Escolhi Métodos da História, Emancipação das cidades, As ciências do Renascimento e Consequências económicas e sociais do desenvolvimento industrial inglês nos finais do século XVIII, na parte de História do Mundo. Quanto à História de Portugal, as minhas preferências foram para Factores da Formação de Portugal, Arquitectura românica, Consequências da emancipação brasileira para a economia nacional e Viagens e Explorações Ultramarinas. Enfim, escrevi quase treze páginas e, se tivesse tempo para desenvolver algumas ideias sobrantes, teria chegado a quinze, dezasseis ou talvez mais.

Espero uma boa nota.

Na Rabeca de há dias foi publicado um artigo assinado por Martins Alberto sobre o Cine-Clube e a sua Função. Não me lembro de ter lido um texto mais parecido com uma redacção da 2.ª classe sobre os passarinhos na Primavera, isto é, cheio de frases ocas e de lugares comuns. Não sei qual foi a intenção…

Também foi ali publicado um outro artigo, com fotografia e tudo, sobre a Quinta da Saúde. Mas este fica para depois.

Hoje, a edição de todos os jornais da tarde é dominada pelo longo discurso do chefe do Governo, dr. Oliveira Salazar, na Assembleia Nacional. Falou sobretudo nas posições das Nações Unidas sobre o nosso Ultramar e afirmou em conclusão: Sejam quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho e os sacrifícios que se nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude que não seja a decisão de continuar.

Talvez em coincidência, partiu para o Ultramar mais um importante contingente militar.

Quanto a notícias concretas de Angola, estas não fogem ao habitual. Houve ataques terroristas em Bembe, Ucua, Macocola e Quimbele. Na região do Songo, um corpo de voluntários tem auxiliado as forças militares na protecção à colheita do café.

Grande vitória foi ontem a do Sporting na Taça Tereza Herrera, na Corunha, onde venceu o Reims por 3-2, com o avançado peruano Seminário a marcar o golo do triunfo.

ÚLTIMA HORA – Libertados os activistas angolanos

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Activistas angolanos saíram da cadeia ao som de “liberdade”

Os activistas angolanos condenados em Março por actos preparatórios para uma rebelião e associação de malfeitores começaram a deixar o Hospital-Prisão de São Paulo, em Luanda, pelas 16:50, depois da ordem de libertação emitida pelo Tribunal Supremo.

Os activistas foram recebidos no exterior com gritos de “liberdade” e prontamente abraçados, em clima de festa, por familiares e amigos que os aguardavam, conforme a Lusa presenciou no local. A saída foi acompanhada pelos três advogados de defesa, Miguel Francisco ‘Michel’, David Mendes e Luís Nascimento, autores do ‘habeas corpus’ pedindo a libertação por prisão ilegal, a que o Tribunal Supremo deu agora provimento.

O ‘rapper’ luso-angolano Luaty Beirão foi um dos que deixou a prisão esta tarde, tendo recusado prestar declarações aos jornalistas, além de admitir estar feliz, quando tinha a mulher, Mónica Almeida, à espera.

Naquele estabelecimento prisional estavam pelo menos 12 activistas, enquanto os restantes estão distribuídos pelas cadeias de Viana e de Caquila, arredores de Luanda, e que também sairão durante o dia de hoje, por decisão do Supremo.

O activista Nito Alves, um dos 17 condenados, vai permanecer na cadeia até Agosto por estar a cumprir uma outra pena, não abrangida pelo ‘habeas corpus’, por ofensas ao tribunal, durante este julgamento.

Aquando da condenação pela 14.ª Secção do Tribunal Provincial de Luanda, no Benfica, a penas de prisão entre os dois anos e três meses e os oito anos e meio, duas jovens estavam em liberdade, outros dois estavam na cadeia e os restantes em prisão domiciliária.

A 28 de Março, logo após a leitura da sentença, começaram todos a cumprir pena por decisão do tribunal, apesar dos recursos interpostos pelos advogados de defesa para o Supremo e para o Constitucional, o que logo a 01 de Abril motivou a apresentação do ‘habeas corpus’, agora decidido e comunicado à defesa dos jovens, críticos do regime liderado por José Eduardo dos Santos.

Fonte dos Serviços Penitenciários disse hoje à Lusa que as restrições dos 17 jovens serão sobre a saída do país e terão ainda obrigatoriedade de apresentações mensais ao tribunal da primeira instância, ficando em situação de liberdade provisória sob termo de identidade e residência.

A maior parte dos 17 jovens activistas foram detidos a 20 de Junho de 2015 numa operação da polícia em Luanda e acabaram condenados a penas de prisão efectiva por actos preparatórios para uma rebelião e associação de malfeitores.

Começaram de imediato a cumprir pena, apesar dos recursos interpostos no mesmo dia pela defesa.

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O ‘rapper’ luso-angolano Luaty Beirão foi condenado neste processo a uma pena total de cinco anos e meio de cadeia, enquanto o professor universitário Domingos da Cruz, autor do livro que o grupo utilizava nas suas reuniões semanais para discutir política, viu o tribunal aplicar-lhe uma condenação de oito anos e meio, por também ser o suposto líder “da associação de malfeitores”.

Em Março, na última sessão do julgamento, o Ministério Público deixou cair a acusação de actos preparatórios para um atentado ao Presidente e outros governantes, apresentando uma nova, de associação de malfeitores, sobre a qual os activistas não chegaram a apresentar defesa, um dos argumentos dos recursos.

Os activistas garantiram em tribunal que defendiam ações pacíficas e que faziam uso dos direitos constitucionais de reunião e de associação.

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A secção portuguesa da Amnistia Internacional saudou esta quarta-feira a decisão do Supremo Tribunal de Angola de libertar os 17 ativistas condenados por rebelião, mas o director executivo garantiu que a organização vai continuar a bater-se pela libertação incondicional.

O responsável da Amnistia Internacional (AI) Portugal, Pedro Neto, disse hoje à Lusa ter recebido “com muita, muita, muita alegria” a notícia da ordem de libertação dos 17 ativistas angolanos, que estavam a cumprir pena desde 28 de Março.

“Saudamos o colectivo de juízes do Supremo por esta decisão, e ao que parece, unânime”, afirmou, considerando que a decisão representa “um avanço grande no processo” e “um passo muito significativo e muito importante”.

Pedro Neto disse estar ainda a tentar perceber os contornos desta libertação, referindo que os activistas deverão ficar sujeitos a termo de identidade e residência.

“Continuamos a insistir na liberdade incondicional, porque este julgamento não fez sentido e eles não são culpados de nada e é por isso que nos bateremos.”

Para a AI Portugal, o processo “não acabou”: “continuaremos a trabalhar até que a liberdade seja incondicional e os direitos humanos e a justiça sejam de algum modo repostos”, afirmou Pedro Neto.

O director executivo da organização recordou que na semana passada, num encontro promovido em Lisboa pela organização, viu a filha de um dos activistas presos.29 tvi24

“Assim que recebi esta notícia, lembrei-me da criança e que provavelmente em breve vai poder abraçar o pai. E é por isso que nos batemos.”

TVI24

mil novecentos e sessenta e um – dia 180

1961180 JUNHO DIA 29

O ponto de Literatura foi muito puxado, na minha opinião.

Eram três as questões. A primeira tinha três fragmentos de poesias de correntes diferentes, trovadoresca, cultista e ultra-romântica. Acho que meti alguma água na resposta sobre características, embora talvez não muita, excepto na cantiga de amigo que dominava… A segunda questão era sobre várias peças teatrais, uma de Gil Vicente, outra de D. Francisco Manuel de Melo e duas de Almeida Garrett, pedindo comparações entre elas e outros dados. Não tinha lido uma dessas obras, da autoria de Almeida Garrett, e isso prejudicou bastante a minha resposta. Quanto à terceira questão, foi a que me correu melhor, pois pedia um comentário sobre um conto de Eça de Queirós que conheço bem, desde a sua fabulosa adaptação em quadradinhos, da autoria de Eduardo Teixeira Coelho no velho e saudoso Mosquito, já nos últimos tempos do jornal, tendo por isso ficado infelizmente incompleta. É o conto São Cristóvão. Enfim, num balanço realista, acho que dá para ir à oral.

Agora só falta a História, amanhã. Aqui estou à vontade, com consciência e segurança de dominar mais ou menos toda a matéria.

Soube-se agora, pelos jornais da terra, que o peditório feito pelos alunos do Liceu a favor das vítimas do terrorismo em Angola rendeu perto de sete contos.

As notícias do dia dali chegadas nada acrescentam de positivo. É confusa a situação na área de Camabatela, sem grandes pormenores, e houve diversos incidentes em Carmona, Bembe e Pango Aluquem, sítios já quase familiares, sobretudo com ataques a fazendas.

Um único foguetão americano colocou ontem em órbita terrestre três satélites, o que foi considerado uma grande proeza técnica.

Sobre a saga dos dois aviões, parece aproximar-se do fim a recolha dos destroços afundados do venezuelano e foi encontrado um gravador óptico que terá registado em filme a acidentada aterragem do francês. Poderá num caso e no outro conhecer-se um dia o que aconteceu?

Do Brasil chegou a notícia de que Amália Rodrigues cantou no restaurante O Fado, do Rio de Janeiro, numa festa ali organizada em homenagem a propósito da conquista do título de campeão europeu de futebol pelo Benfica.