Poemas de Anthero Monteiro – sete

POESIA AM

poema com camarinhas (corema album)

as mãos vazias sim e o relógio no pulso
a dar conta das horas perdidas
dos anos em cinza das pegadas alisadas
por dunas viajantes

cavalgo então no dorso de uma ali
por miramar senhor da pedra à vista e encontro
aquelas translúcidas camândulas
com que encho os bolsos e mato
a sede à saudade

voo então no bico das gaivinas
até mais além pertinho da infância
e pouso numa palmeira do adro da igreja à sombra
da qual aos domingos mulheres de negro vendiam
doces de gema níveos de açúcar e as mesmas bagas
minúsculas que trazíamos para casa
num cone de jornal

agora as mãos vazias  e tanto bolso roto incapaz
de suster a memória dos dias afogueados a lata dos doces
comida da ferrugem e das formigas e a boca sedenta
de frutos sumarentos exilados do mercado
e dos dias do senhor

de repente topo de novo
estas pequenas drupas rosadas
e que bem me sabem uhmm camarinhas
num poema de rosa alice

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010

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