Mário Moniz Pereira (1921-2016)

Acaba de ser conhecida a notícia da morte do Prof. Mário Alberto Freire Moniz Pereira. Trata-se de uma perda enorme para o Sporting Clube de Portugal, assim como para o Desporto e a Cultura nacionais. Para já e independentemente de outros ecos posteriores no blog, reproduzo o texto da autoria do Prof. Manuel Sérgio que aqui coloquei no dia 12 de Abril de 2016.

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 Mário Moniz Pereira – o poeta do desporto!

Mário Moniz Pereira, para além de um desportista sem mácula, foi, sem sombra de dúvida, o maior treinador de atletismo de todos os tempos e em todos os países.

O dr. David Monge da Silva, professor de educação física na Escola Secundária “Camões”, visitou os principais centros desportivos (refiro-me à alta competição) da antiga União Soviética. E prestes reparou que o nome de Moniz Pereira despertava uma extasiada atenção da parte dos seus cicerones, figuras cimeiras do desporto soviético. “Conhece o Moniz Pereira?”. E Monge da Silva a estuar de gratidão: “Foi meu professor, no Instituto Nacional de Educação Física e é um nome que todo o Portugal repete e não me refiro só aos desportistas portugueses, porque é respeitado no país inteiro”. E eles, adiantando uma convicção: “Para nós, é o primeiro dos treinadores de atletismo, em todo o mundo”. E explicavam a causa da sua afirmação: “Normalmente, no atletismo, um treinador de nomeada faz um atleta excepcional. Ora, quantos não fez ele?”. E acentuavam, martelando as palavras: “Para nós, o Mário Moniz Pereira é uma das figuras marcantes da História do Atletismo”. Eu próprio, que acompanho com atenção o desporto nacional, já fiz a mim mesmo esta pergunta: por que será que o Mário Moniz Pereira, ao contrário doutros treinadores, fez campeões da esmagadora maioria dos atletas que orientou e foram muitos, de há sessenta e setenta anos a esta parte?

Porque tem e estuda mais compêndios de atletismo do que os seus pares? Alguns treinadores que pensam saber muito e nunca fizeram nada de relevante, perfilam-se no vazio, mas asseveram: “Não, ele não sabe mais do que os outros!”. Então, por que será que esses críticos vêem tudo escuro à sua volta, sem uma luz, ténue que seja, do desempenho espectacular de um dos seus atletas? É tarefa árdua e sempre aberta a ulteriores correcções a interpretação que faço da carreira extraordinária, no desporto de alta competição, designadamente no atletismo, no voleibol e até no futebol, do Prof. Mário Moniz Pereira. No entanto, eu avanço: ele foi um treinador de méritos invulgares, sob muitos aspectos incomparável, porque era também um poeta, um compositor ou, se se quiser, numa palavra só, um artista! No desporto, como afinal na própria ciência, o sábio criador é também poeta e artista. E assim eu levanto uma questão que julgo ser original: Moniz Pereira foi de facto um grande treinador, ou um grande poeta e compositor (repito-me: um artista) transviado? A sua obra, como treinador, é efectivamente original e até inigualável.

Não se trata de simples logorreia, denunciada por si própria, pela sua ineficácia. 01 prof-manuel-sergio1Mas o que a distingue das demais é que o seu autor não é um racionalista, ou um positivista, que anacronicamente pensa que o desporto, cientificamente falando, se resume a números e a experiências laboratoriais. As nossas Faculdades do Desporto (embora o papel primacial que vêm desempenhando, na renovação que o nosso desporto atravessa) regurgitam de cientistas que não sabem treinar quem quer que seja. Porquê? Porque lhes falta imaginação, sensibilidade, poesia, arte. O treinador, verdadeiramente criativo, é um poeta, é um artista, mesmo que pareça, aqui e além, barroco, dionisíaco, excessivo, como um doutor em Desporto, que todos conhecemos, chamado José Mourinho. Há anos falava eu com o ex-treinador do F. C. Porto, no (já extinto) Hotel Tivoli da mesma cidade, e questionava-o: por que é você um treinador diferente? E ele encarando-me com o afecto que dedica a um seu velho professor: “Porque sou um homem diferente!” A veemência do ideal e do entusiasmo, que ressaltava do Mário Moniz Pereira, foi o chão onde cresceram e frutificaram as suas vitórias desportivas, foi a motivação suprema dos seus atletas. O que acima de tudo ele prezava não era o frio esplendor da ciência, mas o culto do dever, o escrúpulo da honra profissional, o sentimento vivo de comunhão com a própria vida dos seus atletas. O estudo é necessário, indispensável; vivemos em plena Sociedade do Conhecimento, donde deverão ressaltar a eficiência, a inovação e a informação – mas é o ímpeto da vontade e a criação artística e a honestidade num trabalho constante, que transformam em prática inovadora o que é simples teoria, mesmo que, por alguns, muito declamada, muito retórica e, demasiadas vezes, pouco vivida. Quem mantinha um diálogo com Mário Moniz Pereira e tocava em determinados temas, como a sua vida familiar, ou desportiva, o seu clube de sempre (o Sporting Clube de Portugal), a sua poesia, a sua música, os seus fados encontrava uma alma enamorada de tudo o que era belo e bom e poético; contemplava um homem que não continha as lágrimas, sempre que uma conversa ou uma melodia o arrebatavam; percebia por que é preciso ser, como dizia o José Mourinho, um homem diferente, para ser um treinador diferente. No caso de Mário Moniz Pereira, ele ensinava também que não se pode entender o desporto sem o amar e que o amor é a armadura psicológica e moral de todas as vitórias. Digamos mesmo, sem medo de errar: o amor é o coração da própria vida! No livro Valeu a Pena, do jornalista e escritor (e, deixem-me acrescentar: excepcional “homem da rádio”) Fernando Correia, pode encontrar-se uma síntese de rigoroso conteúdo documental da vida do Doutor Mário Moniz Pereira. Da leitura deste livro se conclui que o conhecido professor e treinador e poeta e compositor nunca se deixou prender no consabido “in medio stat virtus” do velho Aristóteles, ou na tranquila mediocridade de Horácio. Ele viveu para transcender e transcender-se; só quando superava e se superava, ele se sentia vivo e fiel aos princípios em que acreditava. Não cabe num simples artigo de jornal o “curriculum vitae” de Mário Moniz Pereira e as vitórias e os galardões que o encimam. Digamos a terminar que ele será, ao longo dos anos, um exemplo.

O passado é passado, bem o sabemos, mas vive em nós todos como herança. E a herança de Mário Moniz Pereira não honra só a ele, mas a todos os que a lembrarem, com curiosidade e respeito e veneração. Trabalhei no INEF, no ISEF, na FMH, no Fundo de Fomento do Desporto, na Direcção-Geral dos Desportos, no Centro de Medicina Desportiva, no C. F. “Os Belenenses” e um ano, um ano só, no S. L. Benfica; conheci verdadeiros desportistas, com relâmpagos de talento, como “agentes do desporto”. Poderia invocar os nomes de Moniz Pereira, Salazar Carreira, Armando Rocha, Aníbal Costa, Acácio Rosa, Teotónio Lima, Eduardo Monteiro, Alberto Freitas, Pinto de Magalhães. Para mim, Moniz Pereira, pela idade, retirado hoje das pistas e dos estádios, não deixa ainda de ser ofuscante no seu crepúsculo.

 Manuel Sérgio
Professor da Faculdade de Motricidade Humana
e Provedor para a Ética no Desporto
in BOLA on line 08/04/2016

ÚLTIMA HORA – O Oeste volta a tremer neste Domingo

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Terra treme no Oeste
O tremor-de-terra atingiu a região de Cadaval, Óbidos e Peniche.

Um sismo de magnitude 3.5 na escala de Richter foi sentido este Domingo na região de Cadaval, Óbidos e Peniche, informou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Em comunicado, o organismo indicou que o sismo foi registado pelas 16h05 nas estações da Rede Sísmica do Continente, precisando que o epicentro localizou-se a cerca de seis quilómetros a norte-nordeste de Cadaval.

Este sismo, de acordo com a informação disponível até ao momento, não causou danos pessoais ou materiais e foi sentido com intensidade máxima III/IV (escala de Mercalli modificada) na região de Cadaval, Óbidos e Peniche“, referiu a mesma nota informativa.

O IPMA esclareceu ainda que se a situação o justificar serão emitidos novos comunicados.

Renascença –  31 de Julho de 2016 – 17h10

mil novecentos e sessenta e um – dia 212

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A situação é simples e começo a percebê-la. Isto aqui em Mafra é uma unidade de elite. Costuma ter gente de qualidade para formar os cadetes, todos com preparação universitária, tornando-os aspirantes milicianos. Tanto os comandantes de pelotão, tenentes vindos da Escola do Exército, como o pessoal subalterno que colabora na instrução, os sargentos, são escolhidos para essa tarefa. Mas a guerra em África baralhou as coisas, sobretudo no que respeita aos sargentos, que vão para lá aos magotes. Bem o sei pelas tais notícias dos navios carregados de contingentes militares para o Ultramar…

Então, para os substituir, convocaram malta na disponibilidade, como eu, o Caprichoso e muitos outros que já por aqui encontrei dos tempos de Tavira. Eu fui destacado para um pelotão da 2.ª Companhia, enquanto o Caprichoso está na 1.ª. Somos os colaboradores próximos dos comandantes desses pelotões, tenentes do quadro. O do meu sei chamar-se António Afonso Vigário, é de Aveiro, e o do meu amigo chama-se António Ramalho Eanes e é de Alcains. As nossas principais funções são assessorar o oficial, assegurar a boa ordem do pelotão e providenciar atempadamente a disponibilidade de espaços, acessórios e equipamentos indispensáveis à instrução programada.

O período da formação vai começar na quarta-feira e termina com o Juramento de Bandeira que será em Novembro. Daqui sairá então uma fornada de oficiais milicianos para Angola, se ainda lá houver guerra por essa altura.

Sinto-me ridículo na farda e nos amarelos das divisas. Esta não é, de todo, a minha vocação. Sou anti-militarista por natureza, mas vou procurar portar-me o melhor possível.

Falei pelo telefone com a Adrilete e já lhe dei o meu endereço postal, para que ela trate dos jornais. Ainda não comprei o Diário de Lisboa, mas já sei que se vende num pequeno quiosque do outro lado da praça fronteira ao Palácio e que chega aqui bastante mais cedo do que sucede em Portalegre.

Sobre o Caprichoso, mudou radicalmente a vida dele. Era funcionário dum Tribunal em Lisboa, na Boa Hora, mas saiu para gerir a Pensão Ibérica, na Praça da Figueira, que é dos pais da namorada, a Clara. Tem tido muito sucesso, gosta do que faz e planeia ir mais longe na hotelaria, depois de casar. Tem sido um companheirão, uma espécie de anjo da guarda que aqui encontrei.

Amanhã vamos ter reuniões de trabalho com todo o pessoal de cada Companhia, que vou conhecer.

Não me queixo do alojamento nem da comida. As experiências que vivi logo aos 16 anos na pensão em Évora, quando fui para o Magistério, e depois na tropa, em Tavira, serviram-me de lição para sempre.

Cagada na Praia dos Cães

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A autarquia de Peniche acabou de aprovar a instalação daquela que, segundo parece, será a primeira praia oficial para cães em Portugal. Pioneira nesta canina concessão, será cortada pela edilidade a respectiva fita de festiva inauguração no dia em que se comemora mais uma efeméride do lançamento da bomba atómica em Hiroxima. Creio que se trata de uma mera coincidência, porque o presente evento não terá tamanhas consequências para a Humanidade. Assim o creio.

Nada tenho a opor a esta singular iniciativa. Nem sequer me atrevo a propor que já agora poderia a autarquia penichense organizar um jardim de Inverno para os gatos locais ou um pavilhão coberto para recreio dos pintassilgos, papagaios e canários domésticos. Nada disso.

balada cachorro cagandoO que me preocupa e isso tem tudo a ver com as responsabilidades da edilidade (ou com o descuido destas!) é a nojenta manutenção quotidiana de tudo quanto é excrementos caninos por tudo quanto é sítio na cidade, ruas e passeios do centro e das periferias. Isso sim, já me diz respeito, como a todos os cidadãos de Peniche. E até já por mais de uma vez aqui me manifestei no blog, enojado e com revolta pelo constante atentado aos meus direitos cívicos.

Tenho agora a esperança de que os donos dos cães que excrementam fora do sítio próprio passem a levá-los até à praia que lhes está destinada. Aí poderão permitir aos seus caninos companheiros a possibilidade legal de fazerem as necessidades no sítio certo.

Só por isso já terá valido a pena o investimento.balada-da-praia-dos-ces-jose-cardoso-pires-14474-MLB198725592_4931-O

Já agora, quero aqui deixar expresso o testemunho de que não pretendi ofender a memória de José Cardoso Pires ao utilizar metaforicamente uma paródia ao título de uma sua notável obra literária, que o cinema depois adaptaria. Na sua Balada, não é verdade terem sido cães que deram com um morto sepultado nas areias de uma praia? Quem pode garantir que isso não se repetirá agora, no Porto da Areia Norte de Peniche? Não é por todo aquele local que se encontram sepultadas muitas das vítimas do histórico naufrágio da nau espanhola São Pedro de Alcântara?

A canina ficção pode portanto repetir-se.

António Martinó de Azevedo Coutinho

IGUAIS & DIFERENTES

Circula pelas redes sociais uma excelente representação gráfica para se entender o princípio de equidade: tratar com igualdade de condições aqueles que têm condições iguais, mas praticar discriminação positiva quando a igualdade de tratamento amplifica desigualdades sociais.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos, na sua obra Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo multicultural (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2003) lembra-nos:

Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.”

Em bonecos, para a gente entender melhor, é assim:

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