mil novecentos e sessenta e um – dia 212

1961212 SEGUNDA 31

A situação é simples e começo a percebê-la. Isto aqui em Mafra é uma unidade de elite. Costuma ter gente de qualidade para formar os cadetes, todos com preparação universitária, tornando-os aspirantes milicianos. Tanto os comandantes de pelotão, tenentes vindos da Escola do Exército, como o pessoal subalterno que colabora na instrução, os sargentos, são escolhidos para essa tarefa. Mas a guerra em África baralhou as coisas, sobretudo no que respeita aos sargentos, que vão para lá aos magotes. Bem o sei pelas tais notícias dos navios carregados de contingentes militares para o Ultramar…

Então, para os substituir, convocaram malta na disponibilidade, como eu, o Caprichoso e muitos outros que já por aqui encontrei dos tempos de Tavira. Eu fui destacado para um pelotão da 2.ª Companhia, enquanto o Caprichoso está na 1.ª. Somos os colaboradores próximos dos comandantes desses pelotões, tenentes do quadro. O do meu sei chamar-se António Afonso Vigário, é de Aveiro, e o do meu amigo chama-se António Ramalho Eanes e é de Alcains. As nossas principais funções são assessorar o oficial, assegurar a boa ordem do pelotão e providenciar atempadamente a disponibilidade de espaços, acessórios e equipamentos indispensáveis à instrução programada.

O período da formação vai começar na quarta-feira e termina com o Juramento de Bandeira que será em Novembro. Daqui sairá então uma fornada de oficiais milicianos para Angola, se ainda lá houver guerra por essa altura.

Sinto-me ridículo na farda e nos amarelos das divisas. Esta não é, de todo, a minha vocação. Sou anti-militarista por natureza, mas vou procurar portar-me o melhor possível.

Falei pelo telefone com a Adrilete e já lhe dei o meu endereço postal, para que ela trate dos jornais. Ainda não comprei o Diário de Lisboa, mas já sei que se vende num pequeno quiosque do outro lado da praça fronteira ao Palácio e que chega aqui bastante mais cedo do que sucede em Portalegre.

Sobre o Caprichoso, mudou radicalmente a vida dele. Era funcionário dum Tribunal em Lisboa, na Boa Hora, mas saiu para gerir a Pensão Ibérica, na Praça da Figueira, que é dos pais da namorada, a Clara. Tem tido muito sucesso, gosta do que faz e planeia ir mais longe na hotelaria, depois de casar. Tem sido um companheirão, uma espécie de anjo da guarda que aqui encontrei.

Amanhã vamos ter reuniões de trabalho com todo o pessoal de cada Companhia, que vou conhecer.

Não me queixo do alojamento nem da comida. As experiências que vivi logo aos 16 anos na pensão em Évora, quando fui para o Magistério, e depois na tropa, em Tavira, serviram-me de lição para sempre.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s