Mário do Rosário (1927-2016)

mário 0Foi por gentileza de um amigo comum, o grande desenhador José Garcês, que soube hoje mesmo pela manhã da recente morte de Mário do Rosário. José Garcês, profissionalmente, foi durante muitos anos colega do Mário no antigo Instituto Meteorológico Nacional.
Mário do Rosário, portalegrense de adopção, saiu cedo da cidade alentejana, tendo no entanto deixado aí vincadas as suas qualidades humanas, revelando-se um autêntico líder juvenil no seio da Mocidade Portuguesa.
Depois, sempre que ele voltava a Portalegre, por intermédio do Fernando, seu irmão, era-me concedida a oportunidade de com ele conviver, tendo já ambos como interesse comum também a banda desenhada, onde o Mário atingiria uma destacada posição
mário 1Há uns anos, abandonara o convívio com os amigos, a isso forçado pela doença.
O desaparecimento físico do Mário do Rosário deixa-nos agora entregues à memória que dele guardamos, a de um homem superior, sensível e culto, e de fino trato. Aos seus familiares próximos, esposa e filhos, aos irmãos Maria do Céu e Fernando e aos sobrinhos onde destaco João Luís Carrilho da Graça, aqui deixo expresso um abraço de amiga solidariedade. 

António Martinó de de Azevedo Coutinho

Nota – Mário do Rosário deixa um lugar aberto no mundo da Banda Desenhada nacional. Toda a comunidade dos quadradinhos está de luto pela perda de mais um dos seus. Recordo por isso o artigo Super-Mário e O Falcão, que aqui divulguei em 15 de Julho de 2014, há pouco mais de dois anos.

SUPER-MÁRIO e O FALCÃO

A data de hoje fica assinalada por corresponder, no já distante ano de 1960 (quase cinco décadas e meia!), ao relançamento de um significativo título da nossa imprensa juvenil: O Falcão. Com efeito, a sua segunda série começou a ser publicada a 15 de Julho de 1960.mário 5

O Falcão, cuja primeira série teve uma curta vida de apenas 82 números, entre 18 de Dezembro de 1958 (n.º 1) e 8 de Julho de 1960 (n.º 82), deixou no entanto uma marca de qualidade ainda hoje evocada. Há mesmo um estudioso do tema que o considera como símbolo de uma época: “Foi a última tentativa para criar uma grande revista juvenil com pluralidade de h.q. A queda de ‘O Falcão’ e a sua transformação em miniálbuns de história completa é a baliza que separa a luminosa década de 50 dos anos de trevas que se seguiram“. Subscrevo em absoluto estas palavras de António Dias de Deus, em Os Comics em Portugal – A Idade de Ouro dos Quadradinhos (1940-1960) – edição do autor.

Esta radical mudança editorial de O Falcão foi anunciada e explicada num folheto encartado na sua derradeira edição semanal.

Porém, em termos pessoais e para além do meu particular apreço pelos quadradinhos, o que de mais significativo encontro nesta transição é o facto de ela ter ficado indelevelmente ligada a um amigo, o Mário do Rosário.

Com efeito, pouco tempo depois da alteração citada, foi ele que assumiu a direcção da revista, assim a mantendo por muitos anos, até quase ao final da publicação do título.

O Mário é, tal como aconteceu com o futebolista António Bentes, um quase, quase, portalegrense. Aliás, ele sempre se sentiu como tal pois, embora nascido em Alcoutim (a 21 de Novembro de 1927) foi para a cidade de Régio com um mês apenas de idade. E só de lá saiu para ir trabalhar em Lisboa, nas meteorologias que eram ao tempo -e sobre o tempo!- o seu ramo, já com 25 anos. Em Portalegre estudou, conviveu, construiu amizades, fez-se homem e ainda lá dispõe de familiares, irmãos e sobrinhos.

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Todos os estudiosos, cronistas e historiadores da banda desenhada nacional citam Mário do Rosário como uma personalidade influente no sector, onde traduziu, adaptou, legendou e editou inúmeras páginas e revistas. Encontramo-lo, de diversas maneiras e em diferentes funções, associado ao Pim-Pam-Pum, a O Século Ilustrado, a Modas e Bordados, e até a O Século, também ao Jacto, mas sobretudo a O Falcão. Ficou aqui ligado à introdução em Portugal de um dos mais populares heróis dos anos de ouro dos quadradinhos lusitanos, o aviador inglês Batller Britton, nacionalizado como o Major Alvega, um luso-britânico nascido no Ribatejo e estudante de Coimbra. Mais do que tê-lo descoberto e “importado”, o editor teve a coragem, ou o desaforo, de o abater em combate. Um herói que morre – eis outra originalidade a que o Mário se entregou…

A verdade é que o Major Alvega atingiu entre nós uma tal projecção que, tendo a sua última aventura sido impressa em 1987, pelos finais do século inspiraria duas séries de pequenos filmes de 30 minutos, numa produção nacional cuja originalidade e técnica com cenários de animação misturada a personagens reais atingiu perfeição e agrado geral muito interessantes, ao ponto de merecer exportação.

Carlos Gonçalves, um dos maiores nomes da BD nacional, para além de uma súmula biográfica de Mário do Rosário incluída no magnífico dossier publicado em diversos números da revista História, em 1987/1988, divulgara anteriormente uma reveladora entrevista com ele, em duas edições do suplemento que dirigia com competência, o Correio da Banda Desenhada (no jornal Correio da Manhã), relativas a 21 e 28 de Fevereiro de 1985. Nesta conversa, Mário do Rosário refere alguns curiosíssimos episódios da sua vida de responsável editorial, e outros momentos da outra rica biografia pessoal, complementar, sendo particularmente significativas as relações (e ralações) travadas com os serviços da censura oficial.

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Mário Durão Ferreira do Rosário, um quase, quase, portalegrense, conviveu muito de perto com a malta sua conterrânea, nos encontros regulares que -como aqui se dá conta- têm prolongado a amizade lagóia criada e desenvolvida a partir dos bancos da escola e do liceu da cidade alentejana. Agora, com a saúde algo abalada, já não tem comparecido, desde há uma meia dúzia de anos.

Mas nenhum de nós o esquece. Lembro-me bem de que, durante anos sucessivos, pontualmente, todas as semanas o carteiro me entregava um sobrescrito com dois exemplares de O Falcão que o Mário –Super-Mário– despachava de Lisboa, dedicadamente pensando em mim. Que saudades desses tempos, os do Major Alvega, mas também de Wild Bill, Texas Kid, Arizona Jim, Lash, Caribú, Ryan, Dixie Kid, Tom Mix, Billy Kid ou Jim Canadá, de Rick Random, Mike Stone ou Jet-Ace Logan, de Black Shirt ou John Stell, de DogFight Dixon R.F.C., Zana, Jacey, Zanna, Rob Roy, Sandor, Kalar, Ogan, Oliver, Mamselle X. Dick Turpin, Claude Duval, Robin dos Bosques ou Os Três Mosqueteiros, eu sei lá!, de uma infinidade de heróis que agora recordei de passagem, quando com certa e natural emoção folheei largas centenas de revistas.

Que Dashiel Hammett me perdoe, mas este é que era o verdadeiro, o autêntico Falcão da Malta!

António Martinó de Azevedo Coutinho
in Largo dos Correios, 15 de Julho de 2014

3 thoughts on “Mário do Rosário (1927-2016)

  1. Pingback: MORREU O “PADRINHO” DO MAJOR ALVEGA

  2. Pingback: Morreu o “padrinho” do Major Alvega |

  3. Os familiares do Mário Durão Ferreira do Rosário agradecem reconhecidamente, ao amigo Prof António Martinó Azevedo Coutinho, as palavras que se dignou transmitir no seu artigo, demonstrativo da amizade que o ligava ao Mário, e que muito nos sensibilizaram.
    Bem haja

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