mil novecentos e sessenta e um – dia 273

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Dormi que nem uma pedra. Estava cansado porque aqueles dias no campo foram duros. Agora tenho o fim de semana para descansar. No correio chegou a Rabeca do dia 27. Tem alguns motivos de interesse e não vou esgotar tudo já hoje.

Um assunto bastante oportuno, logo na primeira página, é tratado através de um comunicado dos Serviços de Informação Pública das Forças Armadas, onde se avisa a população sobre falsas cartas de Angola para famílias de militares comunicando a sua morte. Ora isto é mesmo um crime porque espalha a desconfiança e a dor. Por outro lado, é imperioso que todas as informações oficiais sejam autênticas e atempadas, o que nem sempre aconteceu no passado, como se viu no caso da morte do soldado Ricardo de Alegrete, em Portalegre.

Outro artigo interessante da Rabeca é o que relata uma homenagem prestada por um jornal da Guiné ao coronel portalegrense Jorge Velez Caroço que ali foi governador e que agora fez 91 anos. É ainda hoje uma figura imponente, muito respeitado, sempre com um cachimbo enorme pendurado da boca, deslocando-se devagar entre a sua casa, na Rua dos Besteiros, perto da Fonte da Boneca, e um café na Rua Direita.

A última página da Rabeca é dedicada a uma crónica sobre a recente Feira das Cebolas, assinada por C. M., que deve ser Casimiro Mourato. Mas isso fica para amanhã, porque devo dedicar agora alguma atenção ao Diário de Lisboa.

Não cheguei a perceber inteiramente o que aconteceu no Médio Oriente por me ter faltado um jornal. Mas julgo que acabou uma aliança ou federação de países que era a República Árabe Unida, separando-se a Síria e o Egipto, pelo menos. Acho que está por lá tudo mais calmo.

Onde as coisas se complicaram e muito foi em Angola. Nas estradas em torno de Carmona continuaram os ataques a viaturas, mesmo protegidas pela tropa ou por voluntários. Tal como eu receara, a chegada das chuvas veio complicar a situação. Veio mais uma relação de militares mortos em combate.

Por cá também chove e bem…

Três ou quatro pequenas notas para terminar esta espécie de revista de imprensa. Na secção Em 3 linhas vinha o notícia de estar a ser organizado o Grupo Amigos de Marvão, destinado a proteger os habitantes, dar-lhes o maior apoio e intensificar por lá o turismo. Aposto que está ali metido o senhor Jeremias, que não falha uma em benefício da sua terra.

O treinador brasileiro Otto Glória deixou o Sporting. Quase de certeza devem ser ainda estilhaços do recente e inesperado empate, em casa, com o Lusitano de Évora.

Logo à noite, de madrugada, muda a hora. Como os relógios atrasam, dá para dormir mais um pouco.

Finalmente, parece que é de propósito, hoje veio no DL mais um novo exemplar para a minha colecção de ilustrações de Fernando Bento sobre teatro. As páginas deste meu diário vão parecendo mesmo uma caderneta de cromos!

Aqui fica o de hoje. Virá outro amanhã?

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O melhor? Sim, e também o único!

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SE REALPOLITIK É ISTO, ENTÃO É TRAMPA!

Mantenho a recensão dos artigos que, com a devida vénia aos jornais Diário de Notícias e Público, tinha previsto para hoje. O artigo e já agora o próprio título podem parecer hoje ultrapassados por recentes acontecimentos.

Antecedi um e outro pelo Editorial do Público de ontem. Aconteça o que acontecer, António Guterres é o melhor e o único dos candidatos ao mais alto cargo da ONU. Não é, não pode ser, uma miserável golpada que altera os factos.

Alimento ainda alguma esperança na coerência e na dignidade, ainda que estes sentimentos pessoais possam parecer ingénua presunção.

Uma Bulgária meio terceiro-mundista e dividida entre “dois amores” contraditórios que Merkel aproveita como testa-de-ferro pode encontrar aliados, desde que estes estejam dispostos a vender-se por um prato de lentilhas. É provável que isto aconteça. Mas o tiro de Merkel pode ser de pólvora seca, bastando para tanto que os olímpicos donos de todos os vetos encontrem nisso algum interesse. Na realpolitk vale tudo, incluindo tirar olhos…

A Kristalina é uma mulher, subscrevendo o figurino modelo do sublime Ban Ki-moon. Mas fugiu a todas as regras e o faz-de-conta que agora pretenda compensá-las soará a falso. Isto não é nada cristalino, antes sendo bastante opaco.

A ONU, tal e qual a Comunidade Europeia, é apenas uma aparência de qualquer coisa melhor. Bem melhor.

Platão e a caverna assumem, uma vez mais, a sua plena actualidade.

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Da classe média

helder_pachecoA minha amiga D. Etelvina (nascida e criada na Ribeira) disse-me uma vez a, porventura, mais bela definição do papel da imprensa: quem escreve nos jornais deveria ser a voz de quem não a tem».

Concordo. Embora, já mordido pelo relativismo actual, me ocorra a dúvida sobre se a voz da gente comum, enfim, do povo, interessa para vender jornais. Ou seja, se o público gosta mais de ler a opinião fabricada segundo as encomendas, ou confrontar a realidade quotidiana. Não sei.

Mas, como a realidade nos cai logo em cima, vou expô-la à luz das palavras cruas e sem atavios. A propósito da minha crónica sobre o IMI, escreveu-me um leitor com meio século de JN, dizendo que, relativamente a Abril, «o mês de pagar o dito», as contas dele eram assim: pensão mensal 488,43€; renda de uma casa da esposa 200,00€. Receita: 688,43. Despesa obrigatória: IMI da habitação própria 226,58; IMI da casa da esposa 131,75; luz 73,98; água 16,90; farmácia 102,35. Total 551,56. Sobram para o resto (ou seja, viver) 136,87 Euros. Acresce um filho licenciado e desempregado.

Indígena da Vitória, pouco dado a subtilezas metafísicas, gostaria de, sobre o assunto, colocar três questões: 1.º Se acham justo que um cidadão (pelo que sei) íntegro, depois de 60 e muitos anos de canseira, aos 80 e tais, tenha de passar por situações destas; 2.º Se acham bem que certa classe média suporte tão duramente a carga de sacrifícios imposta por anos de desvarios, corrupção e incompetência de quem transformou a democracia num negócio de compra e venda; 3.º Se não é altura de dizer basta, já chega! Como defendeu Vitorino Magalhães Godinho: «Portugal não podia continuar a viver nos moldes antigos. Era preciso energia, uma política firme, lúcida, perseverante, coerente, que não cedesse perante o tumulto e a desordem».

HÉLDER PACHECO