Raízes e Utopias – A qualidade de vida no Norte Alentejano

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Muito recentemente as redes sociais, sobretudo de origem alentejana e afins, com base num ranking concelhio da empresa Marktest difundido pela Renascença, fizeram-se eco das fabulosas classificações nacionais de alguns concelhos do distrito de Portalegre. Segundo o aludido estudo, Castelo de Vide lidera a lista da melhor qualidade de vida, logo seguido de Sousel, Fronteira, Alter do Chão e Marvão.

Sem divulgação de pormenores alusivos mais consistentes ou plenamente justificados, o ranking terá obedecido a diversos parâmetros de avaliação, numa escala de 1 a 20 (à antiga portuguesa!), entre os quais a amplitude térmica, as taxas de mortalidade infantil e de criminalidade, os equipamentos de saúde e de cultura.

Dei conta, aqui no blog, desta notícia. Mas, com a devida reserva, manifestei dúvidas pessoais quanto à sua credibilidade. Com efeito, se deixarmos de parte algum romântico regionalismo, teremos de nos interrogar sobre como, precisamente numa das zonas mais abandonadas e deprimidas do país -o seu interior mais “interiorizado”- aí se situariam os concelhos com melhor qualidade de vida a nível nacional. O deliberado e irónico título que escolhi significou a minha perplexidade.

É que estas coisas apenas costumam figurar nas histórias acontecidas no tempo em que os animais falavam. Os inocentes entusiasmos desencadeados e expressos com inusitado fulgor mostram como é bom sonhar…

Tenho o maior apreço pela clássica qualidade de vida que se pode gozar no Norte Alentejano, com água ainda (relativamente) potável, ar fresco, puro ou pouco poluído, passarinhos e grilos a cantar, campos perfumados de flores, poentes de magnífico colorido, belas panorâmicas, monumentais vestígios do passado, estradas desertas, gastronomia gostosa, gente simples e hospitaleira. Pois, mas isto é um bonito bilhete postal ilustrado e pouco mais.

É que a qualidade de vida implica hoje outros parâmetros, que passam também -e sobretudo- pelo acesso à cultura e às práticas do lazer, incluindo o espectáculo, pela disponibilidade de uma rede funcional de transportes públicos e de comunicações, pela garantia de eficazes serviços e cuidados de salubridade, educação, saúde, justiça e segurança, pela habitação adequada e digna, pela plena estabilidade num disponível e amplo mercado de trabalho e por aí fora. E isto existe no Norte Alentejano?

Como alentejano do Norte, título de honra de que me orgulho, nada mais apreciaria do que assumir a consciência, autêntica, de que a minha região se destaca pela positiva -e muito!-  no confronto com o restante País e de que, por exemplo, ninguém nos ultrapassa em verdadeira qualidade de vida.

Mas isto não é real.

O ranking da Marktest é certamente honesto e bem intencionado, mas os seus resultados parecem-me parciais, benevolentes e escassamente justificados, não me merecendo, por isso, uma absoluta aceitação.

Procurei alternativas e nem sequer as quero considerar infalíveis, aceitando-as apenas como resultantes de uma diferente leitura da situação, da análise de uma outra recolha de mais profundos dados. Aliás, nem foi difícil obtê-la. Já aqui, neste blog, referi e comentei apreciações similares.

Pela terceira vez, a Bloom Consulting -consultora especializada na análise e desenvolvimento de estratégias de “Country”, “Region” e “Citybranding– apresenta o Portugal City Brand Ranking, acerca da performance de marca dos 308 municípios portugueses, no qual classifica a atractividade destes perante diferentes públicos-alvo (Turismo, Negócios e Talento) neste ano de 2016.

Aliás, todos os anos a empresa publica o Bloom Consulting Country Brand Ranking, edição Negócios e Turismo, onde é analisada a performance de marca de 225 países e territórios a nível mundial. 

Limito-me a recolher e aqui reproduzir, com a devida vénia, os dados relativos ao Alentejo, sob três áreas de avaliação: Negócios, Visitar e Viver. Aos interessados aconselha-se a consulta à página on line da empresa, onde podem ser colhidas pormenorizadas informações sobre os complexos parâmetros incluídos e apreciados.

De qualquer forma, os quadros seguintes revelam a actual posição relativa de cada concelho alentejano num universo territorial que abrange também uma boa parte do Ribatejo, como agora se usa. Para além disso apresenta-se a sua posição nacional, absoluta, no conjunto dos 308 concelhos do país.

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Não adianto mais confrontos, apenas destacando o lugar aqui atribuído quanto ao anterior “pódio” norte-alentejano: Castelo de Vide, Sousel, Fronteira, Alter do Chão e Marvão.

Para a Bloom Consulting, Castelo de Vide ocupa o lugar 170; Sousel o 283; Fronteira o 247; Alter do Chão o 259; Marvão o 166. Por outras palavras, os concelhos norte-alentejanos incluídos no top pela Marktest são remetidos pela Bloom para a segunda metade ou mesmo para o fundo do ranking

A incompatibilidade é rigorosa e absoluta. Com toda a sinceridade, sou forçado a aceitar como bastante mais próxima da realidade, aqui e  agora vivida, esta outra classificação.

De qualquer forma, a minha principal intenção é a de fornecer outros dados para que os interessados possam neles colher informações aptas e úteis a uma comparação mais esclarecedora. Não quero despejar um balde de água gelada sobre pueris entusiasmos nem armar em advogado do diabo, ou ser diferente. Nada disso. Sou velho mas não do restelo. Apenas procuro reflectir um pouco, talvez remando contra a dura maré em vez de confortavelmente vogar ao sabor de fáceis cantos de sereia… Partilho inquietações, bem o sei, pois a consciência pessoal a tanto me obriga. É uma simples questão de coerência.

A qualidade de vida no Norte Alentejano é a qualidade devida à indiferença do poder central aliada às impotências do poder local, com passiva cumplicidade de todos nós. 

Um retrato à la minuta é sempre mais fiel do que as intervenções de photoshop. Os sonhos cor-de-rosa são simpáticos e agradáveis mas podem tornar-se pesadelos se tomados muito a sério.

E quanto a varinhas de condão estamos conversados. Não pertencem à panóplia dos comuns mortais e apenas as fadas ou as bruxas lhes tinham acesso, no tempo em que os animais falavam…

António Martinó de Azevedo Coutinho

2 thoughts on “Raízes e Utopias – A qualidade de vida no Norte Alentejano

  1. Caríssimo,

    Respeito a análise, mas tenho algo para dizer:

    – Não necessitamos de morar em Lisboa ou no Porto para ter acesso à melhor cultura.
    – Não necessitamos de morar em Lisboa ou no Porto para ter acesso aos melhores médicos/hospitais
    – Não necessitamos de morar em Lisboa ou no Porto para ter acesso à nouvelle cuisine
    – Não necessitamos de morar em Lisboa ou no Porto para ter acesso…

    Obg,

    João

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