BLACK MIRROR

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ESPELHO MEU, ESPELHO MEU, HÁ NO MUNDO
ALGUÉM MAIS ASSUSTADO DO QUE EU?

Alice descobre um espelho mágico. Ao aproximar-se, percebe que consegue atravessá-lo e vê-se de novo no País das Maravilhas. Lá chegada, verifica que, infelizmente, muita coisa mudou enquanto esteve ausente. O seu grande amigo Chapeleiro Louco corre perigo de vida. Para o salvar, Alice deve conversar com o Tempo, personagem implacável e vingativa, de modo a poder voltar ao passado e alterar as circunstâncias presentes.

Alice do Outro Lado do Espelho, obra publicada em 1871, constituiu uma sequela do primeiro grande êxito de Lewis Carrol, pseudónimo do tranquilo cidadão britânico, professor de Matemática, que teve como nome de baptismo Charles Lutwidge Dodgson. As Aventuras de Alice no País das Maravilhas – assim se chamou a original obra infantil do autor que fora publicada em 1865. 

Crónica do absurdo tornado lógico, integrando o adulto e o infantil numa fantasia por vezes delirante protagonizada por criaturas muito peculiares, relato onírico e satírico, saturado de paródias, parábolas e referências culturais, mesmo científicas, a obra carrega, ainda hoje, o ónus de uma pesada e difícil interpretação.

Creio que este encantamento, que é simultaneamente um desafio, chegou aos nossos dias. Uma excelente e recente obra traduzida em banda desenhada de qualidade, por coincidência agora em publicação entre nós, assentará no espelho mágico de Alice. Sandman, do genial Neil Gaiman, terá quanto a mim recebido nítidas influências de Lewis Carrol, ainda que tal evidência não tenha (por enquanto) sido salientado nos interessantes textos anexos aos diversos volumes.

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Porém, é sobretudo de outros espelhos que quero falar.

Um espelho, qualquer que seja, é desde logo associado a preferências femininas. Aqui não há grandes pretensões na igualdade de género.

Mas o espelho, reflexo da realidade, pode ser objecto universalmente apto à segurança. Note-se o papel e o valor, quase contraditórios, do retrovisor.

Depois há o misticismo e lá voltamos a Alice: o enigma no interior do espelho, o desconhecido para além do espelho, o espelho como portal de acesso a outros mundos.

Olhar um espelho no seio da noite e na solidão é sinónimo de mistério, talvez mesmo de temor… Se o próprio espelho comungar dessa cor envolvente, então é incontornável instrumento de magia. O espelho negro assegurará contacto e comunicação com os espíritos e as consciências de outros reinos, o dos mortos, o dos infernos.

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Chegámos ao espelho negro. Black Mirror. Esta a designação de uma conhecida e popular série antológica da televisão britânica, criada por Charlie Brooker. O Charles/Charlie parece pois referência de marca, através dos séculos, neste “negócio” de espelhos britânicos…

03-black-mirror-dv-dn-29-outubro-16Antes de tudo o mais, podemos ouvi-lo, numa entrevista ao The Guardian, em 1 de Dezembro de 2011: Se a tecnologia é como uma droga –e ela parece mesmo uma droga– quais são precisamente os seus efeitos colaterais? Essa área entre o prazer e o desconforto é onde Black Mirror, a minha nova série dramática, está situada. O ‘espelho negro’ do título é aquele que iremos encontrar em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão, na fria e brilhante tela de uma TV, num monitor, num smartphone.”

Black Mirror é uma aclamada série da televisão britânica, que apresenta ficção especulativa sob temas sombrios e às vezes satíricos que examinam a sociedade moderna, especialmente no que diz respeito às consequências imprevistas das novas tecnologias.

Em relação ao conteúdo e à estrutura da série, uma espécie de antologia, cada episódio dispõe um elenco diferente, um ambiente diferente e até uma realidade diferente, mas todos eles procuram retratar a forma como vivemos aqui e agora – e sobretudo os imprevistos a que tal norma nos pode conduzir.

Black Mirror incomoda e perturba porque mostra mundos, cenários e comportamentos claustrofóbicos, opressivos e preocupantes, que cabem no universo ficcional, sendo, ao mesmo tempo, muito próximos da realidade quotidiana em que vivemos. São consequências possíveis, e a curto prazo, dos comportamentos sociais que adquirimos em função dos avanços tecnológicos.

Criada em 2011, a série destaca-se pela sua irreverente ousadia. Cada episódio conta uma história independente da outra, onde nada se repete. Cenários, elencos, realizadores e personagens são diferentes, mas todos os fascinantes e inquietantes episódios possuem um elo em comum: a polémica em torno dos avanços tecnológicos e da forma como são utilizados, naquilo em que podem ter impacto na nossa existência quotidiana.

Black Mirror é o espelho negro que convive connosco, no monitor do telemóvel, no ecrã do computador ou na tela do televisor, uma fria superfície aparentemente desprovida de capacidade de intervenção própria, e que no entanto nos assusta, nos agride, nos causa inquietações rondando a loucura e mesmo a morte.

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Do claro espelho de Charles Dodgson ao espelho negro de Charlie Brooker não irá uma grande distância. Mais do que a cor, nós, os seus utilizadores, é que mudámos.

Alice já não mora aqui…

António Martinó de Azevedo Coutinho


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