mil novecentos e sessenta e um – dia 314

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Pronto. Correu tudo pelo melhor. Mal acabou a instrução, eu e o Caprichoso fomos na camioneta da Mafrense para Lisboa. A Clara estava à nossa espera com o carro dela, um Austin preto muito jeitoso, e seguimos para a Estação de Sul e Sueste, onde a Adrilete chegou pouco depois, após uma viagem normalíssima desde o Lousal.

A seguir fomos os quatro jantar numa cervejaria perto do Coliseu, não me lembro do nome mas era muito boa. Finalmente, de acordo com o que tínhamos planeado, fomos assistir a uma peça no Teatro Variedades, de que a Clara tinha já marcado os bilhetes, o que foi oportuno porque a sala estava mesmo à cunha. Era uma comédia à portuguesa muito engraçada chamada Três em Lua de Mel. Foi gargalhada à brava, por culpa dos excelentes actores em palco como Eunice Muñoz, António Silva, Costinha, Aida Baptista, Luísa Durão, Ribeirinho, Henrique Santana e outros que não fixei.

Depois, a Adrilete foi com a Clara para casa desta, e eu para a Pensão Ibérica, na Praça da Figueira. Amanhã cedo vamos tomar juntos o pequeno almoço e cumprir o plano que traçámos, até porque o tempo, felizmente, está a ajudar-nos.

Isto foi de longe o mais importante para mim, mas não foi o assunto do dia para o país. Lisboa estava em polvorosa e não se falava de outra coisa. Um avião da TAP que vinha de Marrocos foi assaltado a bordo por passageiros armados e foram lançados sobre Lisboa e outros pontos do país manifestos assinados por Henrique Galvão, que foi o que assaltou o paquete Santa Maria. Nós vimos os panfletos lançados porque havia muita gente que os apanhou. Eram pequenos, com o título da Frente Antitotalitária dos Portugueses Livres no Estrangeiro, e o seu conteúdo era dedicado a denunciar a “burla” das eleições e a incitar à luta contra estas. Por outras palavras, a Oposição desistiu mas tem poderosos aliados que atrapalham a normalidade desejada. Esta operação, pelo que pudemos assistir, causou grande impacto.

Um senhor que tinha dois exemplares do panfleto foi muito simpático e, vendo o meu interesse, deu-me um. Falta-lhe um pequeno pedaço em cima porque, disse-me ele, estava entalado num pneu e rasgou-se quando o puxou. O papel, de facto, é muito fino. Mas colo-o aqui porque é verdadeiramente histórico, apesar de uns erros de linguagem…

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O Diário de Lisboa, que comprei à tarde, já explicava que o avião da TAP voltou para Marrocos, onde ficaram os assaltantes que pediram direito de asilo, tendo o avião regressado já a Lisboa, onde chegou ao meio da tarde, sem mais azares…

Salazar falou pela rádio ao país, como é costume por estas alturas de eleições, mas não o ouvi. Segundo o jornal, deu conta da importância do acto eleitoral e aproveitou a ocasião para responder às críticas feitas pelos oposicionistas durante a campanha.

Chegou ao Tejo o paquete Angola que trouxe o corpo de um tenente-coronel que lá morreu num desastre. Partiu para o Ultramar o paquete Alfredo da Silva mas não há qualquer informação sobre se levou militares.

A Indonésia não pretende o Timor português – reafirmou na ONU o ministro dos Negócios Estrangeiros daquele país. Pelo menos parece ser esta uma preocupação a menos para nós.

Afinal, escrevi aqui mais, muito mais, do que esperava. Isto do avião sequestrado foi uma surpresa que baralhou as minhas intenções prévias.

Amanhã deve ser um dia bem ocupado, assim o espero.

Hoje nem me lembrei de Portalegre, sobretudo graças a uma portalegrense…

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