trumpalhadas

Têm sido dito e escrito sobre Trump aquilo que Maomé não opinou sobre o toucinho ou o álcool.

Confesso que não gostei nada, mesmo nada, de que as eleições norte-americanas tivessem um tal desfecho. Mas devo reconhecer que o povo votante teve as suas razões e, embora saiba que os norte-americanos se portam por vezes como crianças crescidas, tenho dificuldade em aceitar que esse comportamento-tipo explique tudo.

Tenho-me lembrado muito de uma clássica máxima de Churchill quando o velho guerreiro um dia disse que a Democracia era o pior dos sistemas políticos, com exclusão de todos os outros. Ora este provérbio cívico teve agora, uma vez mais, a sua confirmação. E não será esta a última…

Quero aqui confessar que a senhora Clinton também nunca me inspirou uma inteira confiança. Sempre a vi, na sua postiça conduta, como um mal menor. Um mal muito menor, mas um mal…

Outra conclusão pessoal que tirei destas eleições -e da decepção por eles provocada- é a da definitiva quebra pessoal de confiança em toda e qualquer sondagem política, por mais rigorosa que esta seja anunciada. Aqui há meses deitei-me certa noite com a Inglaterra de pedra e cal na União Europeia. Quando acordei no dia seguinte a Inglaterra estava fora… Agora, deitei-me quando Hillary era uma presidente em crescente aceitação. Na madrugada imediata, Trump tinha-a atropelado. Pura e simplesmente. Portanto, para mim, a validade do jornalismo de investigação política extinguiu-se. Ponto final, prefiro os corretores de apostas que são muito mais fiáveis.

Trump é a besta negra. Trump é o diabo em forma de gente. Trump é o promotor do apocalipse bíblico.

Não gosto de Trump. Morra o Trump, morra! Pim!

Se Almada fosse vivo teria aqui um excelente pretexto para mais um manifesto anti. Comemorando o preciso centenário do então dedicada a Júlio Dantas, eis que ele teria agora, e por extenso, um outro estratégico alvo a abater.

Enfim, uma geração que consente deixar-se governar por um Trump é uma geração que nunca o foi. Se o Trump fosse português eu queria ser espanhol. E por aí fora.

Pronto, já desabafei!

Como não sou norte-americano apenas apanharei os estilhaços. Mas isso já será suficientemente arriscado e perigoso, sabendo-se como se sabe que os norte-americanos disparam em todas as direcções, por tudo quanto é sítio neste mundo, e contra todo e qualquer alvo, mesmo que este seja uma simples miragem.

Não gostei nada das ameaças eleitorais ou (apenas!?) eleitoralistas de Trump. Mas também detestei a maior parte daquilo que tem sido dito e escrito sobre Trump. Muito boa gente, se reler ou escutar o que escreveu ou disse a tal propósito, deve ficar envergonhada. Partindo de principio de que tem vergonha, claro! Pode exprimir-se discordância e no entanto manter um mínimo de dignidade. E isto, em certos casos ou situações, não aconteceu. Muitos dos críticos de Trump esbanjaram uma boa parte das suas razões na forma despudorada que usaram nos testemunhos. O conteúdo de alguns destes foi tão repelente como o alvo escolhido. Ou talvez mais…

Li, até à náusea, muito do que foi escrito. Por isso, quero aqui e agora destacar uma das excepções à vulgaridade reinante.

Encontrei-a no jornal i, na sua edição de 10 de Novembro, que fui lendo a pretexto de uma viagem de autocarro. É o Editorial e assina-o o jornalista Vítor Rainho, director executivo do diário.

Podemos concordar ou discordar quando a esta opinião, mas pode e deve ler-se, pela decência e pelo equilíbrio que revela.

Ainda há jornalistas que conseguem manter a pedagógica serenidade de que todos precisamos, como modelo formal. O oposto não nos leva a lado algum, para além do impotente desespero.

António Martinó de Azevedo Coutinho

11-jornal-i-10-novembro-16

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