Ensaio sobre a velhice

Ensaio sobre a velhice

Acho que somos todos velhos e que somos atípicos. Ainda que reconheça umas recaídas, todos as temos, remamos contra a maré da indiferença.

Não é muito normal que uns tantos, encontrando nas vivências dos bancos do velho Liceu de Régio e de mais uns quantos mestres tal motivação, teimem em se encontrar e reencontrar. Umas boas décadas depois.

De vez em quando, uma vez por ano, ou ano sim ano não, ou por décadas, malta que esteve junta nas guerras de África ou que se formou na faculdade reúne-se e lembra a vida conjunta em passados cada vez mais distante. Isto acontece.

Mas a nossa motivação -por costume chamo-lhe assim- obriga a um diferente ritual, reduzindo prazos e convocatórias a um quase frenético ritual. Não fosse a desculpa das termas e outras medicamentações e seria 12 vezes por ano 12, ano a ano, e nem sei de que séculos isso vem. Pelo menos do XX.º, posso garanti-lo, eu que até só quase um iniciado na função.

E depois há a cúpula anual, onde se alarga o desafio e os convocados são mais, muitos mais, do que os de 1640, também em Dezembro, claro!

Este pouco convencional discurso veio-me à cabeça pela recentíssima intervenção de um velho amigo que nunca vi alinhar nestas coisas, mas que protestou porque apenas eram organizadas para os velhotes de Lisboa. Não é bem assim.

Em primeiro lugar, como os velhotes de Lisboa comprovam, e não é de agora, poucos dos tais dos bancos do Liceu de Régio por lá ficaram, em Portalegre. Até eu, que resisti até me ser possível, tive de abandonar as serranias de São Mamede. Lembro-me de que, no limite possível das aprendizagens no palácio do Corro, do meu tempo ficámos por lá, talvez presos aos (en)cantos da Moura, na Penha, ou porque bebemos água na Fonte da Boneca, ou sei lá porquê, apenas uma meia dúzia. No entanto uma geração depois, dos colegas do meu filho, a conta dos sobreviventes foi idêntica. Surpreendente… ou talvez não!

Restam lagóias em Portalegre? Se restam, por que não seguem o exemplo dos imigrados na diáspora lisboeta? Será que a amizade ou o culto da memória permanecem como um exclusivo privilégio destes, os que natural e assiduamente praticam os convívios agora em apreço?

Depois, tenho para mim uma teoria que, com pudor e timidez, já em tempos esbocei. Chama-se “efeito” Amicitia e, pelos vistos, a proclamação estatutária que com desmedido orgulho (!?) os seus membros inscreveram nos pergaminhos ganhou foros de bíblica imposição. “Um grupo sem semelhança na História“: assim reza a acta de fundação, em 5 de Janeiro de 1957, nos altos do Café Facha. Quase sessenta anos depois, o destino parece ter transformado a “arrogância” em banalidade…

A grande maioria dos que mês a mês nos juntamos -e juro que há sempre novidades para contar, diversas memórias ainda virgens para confidenciar, sonhos de futuro para partilhar-, a grande maioria é malta do Amicitia. A teoria pode portanto assumir a força de um axioma. Provavelmente, talvez mereça mesmo uma fórmula científica, daquelas onde as incógnitas abundam e o entendimento escasseia. Mas há o sentimento e não precisamos de o explicar, talvez porque temos a sabedoria dos velhos. Velhos que entendem o peso sufocante do suão que Régio cantou na Toada, que claramente percebem o significado dos traços e das cores que João Tavares botou numa tapeçaria, que se lembram dos cheiros da cortiça queimada que a fábrica da rolha espalhava sobre a cidade, que comeram as alfaces e as batatas regadas pela Lixosa, que foram ao pinoco de São Mamede quando ainda ali havia uma ermida. E que (provisoriamente) sobreviveram para contar.

E que teimam em juntar-se. E que agora preparam uma reunião ainda maior, que possa juntar os outros, os que acreditam valer a pena, ainda que de ano a ano.

Mas sou um velho atípico. De outra forma, atrever-me-ia a sugerir, como sugeri, que a ser em Lisboa como tantos pretendem, poderia e deveria até acontecer na Casa do Alentejo?

Que me desculpem, porque esqueci os degraus.

É que, como velho atípico, ainda me atrevo sem hesitar a subir a escadaria da Penha.

Ó Serra da Penha, ó monte

Ó serra da Penha, ó monte
de São Tomé todo o dia
com Portalegre de fronte
viçosa por companhia.

À companhia da Penha
de São Tomé todo o dia
ninguém vai lá que não tenha
Portalegre em vistoria.

Na vistoria do monte
de São Tomé todo o dia
serra da Penha é de fronte
e Portalegre vigia.

É viçosa a companhia
da serra da Penha ó monte
de São Tomé todo o dia
com Portalegre de fronte.

Estas simples e tão sugestivas trovas, escreveu-as o Carlos Garcia da Castro, Poeta da Cidade, em Setembro de 1982, como homenagem ao Rancho da Boavista, que dirigiu. Um velho lagóia, como nós, que há dias sem aviso nos deixou ainda por cá.

Temos por isso de aproveitar cada mês que nos sobra.

E quem queira (podendo!) que se junte. É no sítio do costume, à data e hora combinadas.

António Martinó de Azevedo Coutinho

17-almoco-4

PS – Já me ia esquecendo. O Florindo, para além de assinar as convocatórias, é o jornalista de serviço. Muitas vezes, as imagens que recolhe chegam-me a casa primeiro do que eu próprio. Desta vez, ele teve de me servir um segundo envio. É que, num furioso ataque de branda amnésia informática, “deletei” as originais.
Acontece aos velhos, mesmo nas melhores famílias…
Aqui fica pois o registo e, para que conste, foi no passado dia 10, entre os escombros do Cais do Sodré. Sim, porque esta coisa de ser em Lisboa nem sempre é um mar de rosas!

17-almoco-1 17-almoco-2 17-almoco-3

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s