RUÍNAS – Manuel Mozos

18-mozos-ruinas-image_38O jornal Público, indiscutivelmente o diário nacional mais preocupado com a cultura e a sua difusão, entre as diversas iniciativas editoriais que com regularidade coloca à disposição dos interessados, está a divulgar presentemente a série ípsilon, constituída por uma selecção de 8 documentários nacionais.

Tem o maior interesse esta oportunidade de conhecer tais obras, ainda que algumas delas já pertençam ao domínio público, por edições anteriores.

Interesso-me pelo documentário, sobretudo pelo entre nós realizado, e já possuía alguns dos trabalhos agora disponibilizados. Entre estes conta-se o que vai ser distribuído amanhã, Ruínas, de Manuel Mozos.18-mozos-publico-22-out-16-1

A lógica razão deste prévio interesse conhecem-na bem os leitores habituais do blog. Aqui, há pouco mais de um ano, a pretexto do Doc Lisboa de 2015, divulguei alguns textos acerca de A Glória de Fazer Cinema em Portugal, documentário escrito e realizado por Manuel Mozos.

O encontro pessoal que o Florindo Madeira e eu protagonizámos com o realizador deixou-nos uma magnífica impressão pessoal, depois confirmada pela excelência da sua obra, neste caso inspirada num inédito e quase desconhecido episódio regiano.

Tive depois acesso a outras obras do realizador, confirmando estas a intervenção original de um mestre de cinema que, aos meus olhos, ele é.

Ruínas confirmou a expectativa.

A sinopse que acompanha e apresenta o documentário desde logo nos esclarece ou, melhor, nos provoca:

Fragmentos de espaços e tempos, restos de épocas e locais onde apenas habitam memórias e fantasmas. Vestígios de coisas sobre as quais o tempo, os elementos, a natureza, e a própria acção humana modificaram e modificam. Com o tempo tudo deixa de ser, transformando-se eventualmente numa outra coisa.
Lugares que deixaram de fazer sentido, de serem necessários, de estar na moda. Lugares esquecidos, obsoletos, inóspitos, vazios.
Não interessa aqui explicar porque foram criados e existiram, nem as razões porque se abandonaram ou foram transformados. Apenas se promove uma ideia, talvez poética, sobre algo que foi e é parte da(s) história(s) deste País.

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A obra, já exibida em festivais da especialidade e nalguns destes premiada, dispõe de apreciações diversas, entre as quais seleccionei a do crítico Jean-Pierre Rehm, redigida a propósito do certame Viennale 2009:

O prólogo é ambíguo : o espectáculo de um bloco de prédios a ser implodido. Depois há uma multidão num cemitério, reunida à volta da campa de uma certa Henriqueta Souza, uma mulher reverenciada cuja tumultuosa biografia nos é contada e que, como vamos descobrir, guardou a cabeça do amante morto como relíquia.
O objectivo do filme é claro: Qual a relação entre lugares e memórias e entre narrativas e espaços? Outros locais e outras construções seguem, todos abandonados: um bairro silencioso, um restaurante, um cinema, um complexo balnear, uma igreja, uma casa abandonada e uma fábrica em ruínas. Os habitantes actuais são invisíveis, esses lugares estão situados num tempo suspenso pelo poder exclusivo da imobilidade. No entanto existem alguns seres vivos, os de ontem: Vozes de homens e mulheres, de um sítio ou outro, recitam. Enumeram os pratos de uma rica ementa do século XVII, perdiz e caldo; uma troca epistolar sobre o tema da divida; uma lista de receitas obsoletas e até canções de trabalhadores. Variações subtis sobre as fortes ligações entre os espaços e a escrita, que subvertem a evidência ilustrativa e montam emboscadas aos princípios vulgares.

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Concordando com o essencial desta súmula apreciativa, acrescentar-lhe-ia outras impressões, inquietantes impressões, que o visionamento da produção fílmica provoca. Que me provocou.

O crítico olvida, na sua descrição dos sítios, três outros que me parecem fundamentais: uma central eléctrica, um sanatório e uma mina. Tudo abandonado, tudo ruínas

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Um filme como este foi concebido quase como um diaporama, dado que usa muito mais a imagem parada, fixa, dolorosamente imóvel, do que o movimento 18-mozos-publico-22-out-16-2próprio do cinema. Depois, está construído sobre duas linguagens paralelas que por vezes parecem o positivo e o negativo magnético, atraindo-se ou repelindo-se ao sabor da batuta do realizador. À sucessão física das imagens impõe-se uma sucessão metafísica das palavras. Mas não há uma narrativa, antes a imposição de um brutal contraste entre a vida que a oralidade propõe e a morte sem remédio que a iconicidade revela. Um antes e um depois sem futuro à vista, ruínas afinal como destino sem retorno.

Porque conheço alguns dos sítios que são aqui e agora pretexto, em Monsanto, Barca d’Alva ou na Serra da Estrela, por exemplo, posso entender a metáfora, brutal, com que Mozos nos inquieta. E censura.

Ruínas não é a glória de fazer cinema em Portugal; é o seu oposto: o drama.

Manuel Mozos, esse, permanece igual a si próprio.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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