mil novecentos e sessenta e um – dia 324

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A marcha até ao nosso destino foi muito penosa, sempre debaixo de chuva por vezes intensa. Chegámos todos ensopados e isto fez-me lembrar alguns saudosos acampamentos da Mocidade Portuguesa nos tempos de gaiato. Mas então era por gosto e a malta desenrascava-se sempre. Por exemplo, numa ida a Guimarães, onde fomos de camioneta, apanhámos chuva e por isso acabámos por dormir dentro das torres do castelo, onde morou o D. Afonso Henriques, em vez de armarmos o acampamento previsto, ao ar livre. Mas agora não houve castelo que nos safasse. Tivemos de armar as nossas tendas à chuva sobre o chão todo encharcado. Pusemos caruma dos pinheiros por baixo e o oleado, forte, por cima. Por acaso a nossa tenda até é grande e espaçosa, daquelas cónicas, e somos só dois furriéis e um sargento a ocupá-la. Mas foi preciso cavarmos um círculo no chão em volta da tenda para a água escoar. Enfim, isto dificilmente poderia ter sido pior!

Para as refeições temos as instalações de uma antiga estalagem desactivada, onde também está montado o quartel-general das operações. A enfermaria ficou numa casa ao lado, também livre.

Durante o dia, houve umas simulações de fogo, mas fomos dispensados de instalar as previstas linhas defensivas em função do péssimo estado do terreno. Adaptou-se a “guerra” às condições meteorológicas. Portanto, desta vez, o faz-de-conta foi ainda mais a fingir…

Não consegui arranjar maneira de obter o Diário de Lisboa nem qualquer outro jornal. Ainda bem que trouxe a Rabeca.

Depois de jantar, enquanto ainda estamos por aqui na cantina improvisada, vou aproveitar para escrever estas notas, hoje ainda mais breves.

O balanço geral que posso fazer desta Rabeca, para além da sua primeira página que já comentei, é que nada diz sobre as eleições, o que me parece bastante significativo. Em contrapartida, tem diversas alusões ao Ultramar, a saber: um artigo sobre o oposicionista general Norton de Matos, reproduzido do Primeiro de Janeiro, a propósito da inauguração de uma sua estátua em Angola; outro aludindo a um Relatório sobre a brilhante governação da Guiné realizada pelo portalegrense coronel Jorge Velez Caroço, outra figura importante da Oposição; a notícia (Horas de Luto) do recente e grave desastre de aviação no Sul de Angola, onde morreram dezoito pessoas, entre as quais alguns oficiais portugueses de alta patente; por fim uma pequena nota acerca da missa de sufrágio na Sé Catedral, por iniciativa do Movimento Nacional Feminino, por alma dos militares mortos em África ao serviço da Pátria.

Para além disto, a Rabeca dá conta de estar em construção em Castelo de Vide um novo Hotel das Águas. E nós em Portalegre, quanto a hotéis, nada! Na última página, vem um artigo sobre a Cantina Escolar anexa à Escola do Parque Miguel Bombarda, a Corredoura.

Este Parque é motivo para um texto onde se louva a obra ali recentemente realizada pela Câmara Municipal, sobretudo o alargamento e alcatroamento das avenidas que o circundam, assim como os passeios de acesso.

Assim termina o comentário ao jornal que mais fundas e sentidas me traz as lembranças da Portalegre distante. Neste dia triste e chuvoso, tudo me parece ainda mais sombrio.

Vou até à tenda, para descansar e se possível dormir, na esperança de um dia melhor amanhã.

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