mil novecentos e sessenta e um – dia 325

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Talvez por intercessão divina da Padeira de Aljubarrota, que deve ser a padroeira honorária dos nossos exércitos para além de ser quase nossa vizinha, o dia de hoje foi muito aliviado quanto à chuva. Houve apenas um ou outro ligeiro e passageiro chuvisco pelo que as actividades bélicas das nossas manobras não foram prejudicadas. Antes assim, porque a perspectiva de ficarmos ensopados e deste modo penoso andarmos o dia inteiro não era, de todo, agradável.

Hoje, pelo final da manhã, encontrei o Caprichoso e como um cadete do pelotão dele tinha uma máquina fotográfica disponível, foi feito um retrato nosso na companhia do sargento Sousa, um dos raros tipos das arrecadações que nos trata bem e que nem sequer é barrigudo como a maioria dos seus camaradas quarteleiros. Quando tiver a fotografia, se não ficar tremida, ponho-a aqui como recordação da nossa “guerra”.

O dia foi bastante duro mas o clima ajudou a que tudo corresse bem, sobretudo o fogo real, que sempre envolve alguns riscos. Oxalá amanhã, que é o último dia dos exercícios de campo, o tempo nos ajude como hoje.

Foi tudo tão normal que até consegui obter hoje o Diário de Lisboa, tarefa ontem impossível. Foi um ordenança conhecido que mo trouxe de Mafra, quando cá chegou pelo final de tarde.

O presidente Américo Thomaz (está assim escrito) chegou hoje a Madrid para uma visita oficial a Espanha. Também por lá choveu torrencialmente, para não ser apenas por cá.

Da ONU não chegam boas notícias, bem pelo contrário. Querem nomear uma comissão especial destinada a acelerar o processo de independência dos territórios sem governo próprio, englobando aqui as nossas províncias ultramarinas. Por outro lado, o delegado da União Indiana declarou que o seu país reserva o direito de se apoderar de Goa. Isto vai ser do bom e do bonito, como se costuma dizer. Dito de outra maneira, de um lado chove e do outro faz vento…

Henrique Galvão e os companheiros partiram do Senegal para o Brasil. Que fiquem por lá e nos deixem em paz, mais aos nossos paquetes e aos nossos aviões. Já basta o que basta!

E o jornal não tem, segundo a minha leitura, mais nada de jeito que valha a pena aqui referir.

Aguardemos, pois, o dia de amanhã. Quando vim aqui para o refeitório, havia umas nuvens espalhadas pelo céu, mas não eram muito negras. Pode ser que o tempo se aguente, como hoje. Oxalá!

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