PRÉ-APOCALÍPTICO…

22-pos-verdades

Aqui há dias, o mundo culto ficou a saber que o comité organizador do conceituado Dicionário Oxford elegeu o termo pós-verdade como a Palavra do Ano. Não vale tanto como o Óscar ou o Nobel mas ainda assim tem o seu peso.

O termo pós-verdade, com o sentido que vulgarmente lhe passou a ser atribuído no universo da comunicação, assemelha-se perigosamente à inverdade da Novilíngua, que George Orwell celebrizou na sua distopia 1984.

A Novilíngua talvez tivesse sido, mas já não é, uma ficção. É agora um denso tratado de Linguística, autêntico e em pleno funcionamento.

Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, existe mesmo e a sua função continua a ser a de criar e divulgar inverdades. Winston Smith é hoje cidadão de mundo todo, está por toda a parte. Quase todos vamos sendo Winston Smith’s.

O termo inverdade foi outrora uma inovação linguística, agora já introduzida no nosso vocabulário, com impressionante (!?) naturalidade.

Num determinado momento, com Orwell, surgira esse novo significante (inverdade) para um conceito já de há muito existente (mentira).

Negar a existência de uma verdade era dizer uma mentira; no entanto, o termo inverdade como sinónimo de mentira passou a ser geralmente utilizado quando se pretendia suavizar ou mesmo iludir a utilização do termo mentira.

Agora, portanto, a única novidade é a de juntar ao polémico ramalhete um sinónimo de inverdade, precisamente pós-verdade.

22-pos-verdade-dv-dn-19-nov-16O poder da comunicação assenta sobretudo na palavra. Para controlar tal poder, os políticos utilizam hoje instrumentos e processos simples e eficazes ao seu perfeito alcance:

– a vigilância permanente sobre os cidadãos, de que me permito apenas lembrar o GPS, o telemóvel, o radar ou as câmaras digitais, por onde se recolhe ou transmite informação;

– o controlo do passado, pela alteração, omissão ou acréscimo de registos documentais, por onde são fixadas as memórias mais “convenientes”;

– a criação de um novo vocabulário, reduzindo e comandando a bel prazer os significados pelo domínio dos sinais significantes, transformando palavras ou criando adequados neologismos, reduzindo o discurso a meros slogans ou estribilhos.

Retorno a 1984, onde guerra era paz, liberdade era escravidão, ignorância era força. E por aí fora…

Mentira, hoje, é pós-verdade. Oficial, garantido por Oxford.

Ninguém parece preocupar-se a sério com o fenómeno, com excepção dos autores das pequenas notas de imprensa que junto.

E a ironia é a de nem sequer precisarmos de um Estado totalitário para impor esta nova ditadura, bastando-nos para tal um ou outro grupo de pressão: uma qualquer universidade, um partido político, o mundo editorial, a imprensa…

Isto parece-me imbom. Temo, um dia destes, acordar impessoa.

António Martinó de Azevedo Coutinho

22-pos-verdade

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s