mil novecentos e sessenta e um – dia 329

1961329-sabado-nov-25

Foi um sábado vulgar, quase interminável, apesar de hoje ter estado mais ocupado do que é costume. Tratou-se de uma pesquisa motivada pela questão que me foi colocada pela Adrilete numa das cartas que aqui me esperavam.

Enfim, não sei bem como começar. Acho, quero acreditar, que tudo se deve ao facto de o Lousal ser um sítio muito especial, como aliás já aqui procurei dar conta, porque os mineiros, centenas de mineiros ali reunidos no seu labor, são uma espécie muito especial de operários. De uma maneira geral estão politizados, diz-se que quase todos são comunistas e por aí fora. Por isso, como também já referi e eu tive ocasião de confirmar, há lá muitos polícias, guardas republicanos e sobretudo agentes da PIDE. Ora é aqui que reside o problema.

A Adrilete, pelo que ouviu e talvez tenha confirmado por uma ou outra suspeita, acha que a nossa correspondência é aberta, pelo menos as cartas que eu lhe escrevo. Não é que se note que os sobrescritos são violados mas há, segundo ela, pequenos sinais depois lá colocados, uns quase insignificantes risquinhos azuis ou vermelhos de vez em quando espalhados pelo meio das frases…

Ela pediu-me que relesse as cartas dela com muita atenção a pormenores deste tipo, porque não usa lápis de cor na escrita, tal como acontece comigo. E é verdade! Encontrei uma meia dúzia de pequeníssimas cruzinhas, parecem cruzinhas, azuis e três vermelhas em algumas das dezenas de cartas que a Adrilete já me escreveu. Não percebo o seu significado, mas estão lá.

Fiquei muito preocupado. Será que somos suspeitos para a PIDE ou será isto normal num caso assim, envolvendo uma terra muito especial? De qualquer forma, sei bem porque ainda há pouco estudei isso, a Constituição diz que os cidadãos portugueses têm o direito ao sigilo da correspondência. A PIDE, ou lá o que é, está acima da lei?

Então e se isto não tiver nada a ver com o Lousal e o caso for comigo, que nem sempre me terei portado bem na Câmara, que me afastei do Amicitia para, sem querer, não contar a terceiros (!?) o que por lá se passava, que disse cobras e lagartos do director do Magistério por causa da injusta classificação da Adrilete, e por aí fora, se for eu quem está a ser vigiado? Será isto possível?

Pensando bem, acho que não posso nem devo fazer nada. Que poderia eu fazer? Nem sequer vou contar isto seja e quem for, excepto à Adrilete, nem mesmo ao Caprichoso. Fica aqui escrito e reservado porque mais  ninguém, a não seu eu, vai ler estas linhas. Ponto final, mas tenho de ter juízo naquilo que escrevo. E naquilo que digo. Mas posso controlar o que penso!?

Tinha prometido falar hoje do Distrito de Portalegre, mas não tenho paciência, fica para amanhã. Hoje só tenho algum vagar para o Diário de Lisboa, que não tem culpa dos meus problemas.

Com as chuvas que têm caído, o Tejo subiu imenso e, como é costume, inundou uma boa parte do Ribatejo, problema já antigo que todos os anos se repete. Diz o jornal que na Somália houve 200 mortos numa inundação. Enfim, por lá ainda é pior!

Calha bem, porque no DL não há nada mais de jeito.

Hoje vou ter imensa dificuldade em dormir, porque estou muito preocupado com o caso das cartas. Para amanhã está marcado um telefonema à Adrilete e vou dar-lhe conta do que se passa. Será que também escutam os telefones tal como esgaravunham as cartas?

Sinceramente, acho que já tinha suficientes problemas…

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