mil novecentos e sessenta e um – dia 330

1961330-domingo-nov-26

Decidimos, eu a Adrilete, fazer de conta que não aconteceu nada, apenas tomando o maior cuidado naquilo que escrevemos. Nunca se sabe… Esta é daquelas coisas que a gente só acredita quando nos acontece, porque se a ouvirmos contar aos outros, franzimos o nariz, desconfiados. A política, coisa onde acho que conscientemente nunca me meti, é algo de estranho. E até perigoso… Mas não podemos ser ingénuos. Bem, vou tentar pôr uma pedra em cima do assunto e procurar esquecer.

Devia passar ao Distrito de Portalegre, para desanuviar, mas acho que infelizmente o Diário de Lisboa se impõe.

Nem sequer ligo aos outros títulos da primeira página, como o Chefe de Estado ter regressado de Espanha, Tschombé ter exortado os katangueses à guerra, o rio Guadalquivir ter inundado Sevilha ou ter começado a Taça de Portugal em futebol. O que se impõe, desgraçadamente, é o facto de que Grande parte da população de uma zanzala do Norte de Angola foi morta por assaltantes. Isto fez-me lembrar os massacres quando subitamente se iniciou a guerra, há uns meses. Esta tragédia de agora foi ontem de madrugada e veio confirmar que eram muito benevolentes e optimistas as afirmações sobre a pacificação definitiva do Norte de Angola. Segundo o jornal, houve outros ataques a duas roças e recontros das nossas tropas com os terroristas. Em suma, voltou a guerra!

O resto do jornal não tem qualquer interesse, mas esta notícia basta para provocar o regresso de todas as inquietações.

Pego a seguir no Distrito, já que devo cumprir o prometido. Não toca no assunto eleições, mas a linha editorial mantém-se, pois a primeira página está preenchida por um artigo Acelera-se a derrocada, sobre o desmoronamento dos sistemas comunistas, uma estatística sobre o número de seminaristas na Diocese, mais um texto sobre o Concílio Ecuménico, um outro artigo intitulado Colaboração da Escola com a Família e uma nota sobre a preocupação do Presidente Américo Tomás com a sorte dos pobres…

O interior do jornal é preenchido por uma espécie de caderno especial sobre as vocações religiosas.

Na última página é que vem algo diferente, sob a forma de uma carta escrita da Guiné por um antigo aluno do Asilo-Escola de Santo António chamado António Maria Norberto, que assina como 1.º cabo escriturário. O assunto é o da recente morte do seu colega e amigo Paulo Mota, combatendo em Angola. O escrito, naturalmente, é dominado pela dor e pela saudade, em tons de apelo ao patriotismo.

Este fim de semana, de facto, não correu muito bem. Ainda por cima voltou a chuva, com intensidade.

Espero melhores dias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s