Histórias redondinhas

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Entre a vasta e diversificada panóplia das heranças familiares figuram umas sete  tiras de vidro impressas de pequena dimensão, nuns modestos onze por três centímetros. Sei bem o que são porque foram um brinquedo pessoal predilecto quando pelos anos quarenta eu me divertia com as ciências domésticas, armado em empresário do espectáculo. E fazia um figurão junto da restante malta miúda, embasbacada…

Não me lembro da inerente máquina, “profissional”, de projecção e creio que nunca dispus dela. Aliás, nesses tempos em que nem sequer o revolucionário plástico tinha sido inventado ou, no mínimo, disponibilizado, éramos obrigados à improvisação. Os materiais que tínhamos à mão limitavam-se a papel, papelão e cartolina, trapos, uns restos de madeira, arame e pouco mais, para não falar nas raríssimas peças mais sofisticadas, como os velhos rolamentos mecânicos com os quais equipávamos velozes carrinhos de descer as poucas calçadas disponíveis. Mas essa penúria, que nem sequer entendíamos como tal, nunca foi obstáculo aos nossos sonhos lúdicos.

Assim, para devidamente usar as tiras de vidro impressas, fui capaz de improvisar um funcional projector. Uma velha caixa de sapatos, um canudo de cartão, uma lente e uma lâmpada eléctrica, esta usada com precaução e controlo familiar porque os choques deixavam as mãos dormentes  e eram perigosos – e eis montado o equipamento capaz de transferir para uma alva parede, no ambiente escuro das janelas cerradas, as imagens ampliadas. As imagens ou, mais concretamente, as histórias redondinhas.

Naqueles quatro círculos coloridos contêm-se uma narrativa, muito económica na sua escassa dimensão disponível porque numa tão curta sequência esvaíam-se os pormenores que a imaginação e a memória compensavam.

Naquela que me parece mais paradigmática, estavam claramente explicados todos os mistérios do nascimento. Nada mais simples, tal como nos contavam.

A cegonha, como era sabido, tinha então como principal incumbência o transporte dos bebés criados em Paris. A cada encomenda, a ave ia até à capital francesa e de lá trazia o neófito. Aquela tira de vidro mostra os momentos capitais da tarefa.

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No primeiro círculo, no seu habitat, vêem-se umas cegonhas em ameno recreio. A seguir vão em serviço até ao viveiro parisiense onde eventualmente escolhem os bebés disponíveis. Na imagem imediata, já os seleccionados tomaram o seu lugar a bordo, para a travessia. Finalmente, em puro estilo de Pai Natal clássico, cada bebé é lançado como prenda pela chaminé da família em apreço, código postal religiosamente cumprido.

Há outras tiras muito menos narrativas, como uma que gasta as quatro imagens na mera sucessão de fases banais num dia de recreio de rãs, à beira-rio, ou com um rancho de meninas em ameno passeio que termina num lanche.

A meio termo entre a monótona descrição em sequência e a ingénua narrativa, talvez situe a chegada de um velhote carregando uma sacola e assim assustando o par de filhotes que no entanto bem depressa nele vêem uma espécie de Pai Natal quando o temível saco revela brinquedos no seu interior. Ou a família de rapozecos que encarrega o raposo sénior de ir caçar um pato que, depois de devidamente depenado, vai ao forno para o petisco da noite.

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Histórias a sério, talvez duas ainda que de iterativo sentido. Dois miúdos, a caminho da escola, disputam a posse de uma pasta que se rasga e não serve a qualquer deles, projectados por terra pelo acidente. Chegando atrasados à aula logo o mestre os espera, com a palmatória atrás das costas. O didáctico final depreende-se pelo sentido…

A outra historieta repartida pelos quatro círculos coloridos é também profiláctica, ainda numa outra dimensão social. Um paciente de lenço atado aos queixos bate à porta do consultório dentário. Atendido pelo médico, dá conta dos seus padecimentos. Sem anestesia que se visse, o alicate exerce a sua acção, violenta mas salvífica, em volta do dente cariado. Por fim, o alivado sofredor dá largas à sua alegria, de chapéu levantado em hossanas e o inútil lenço por terra…

Eram assim aquelas fitas talvez com escasso enredo mas dotadas do mais absoluto encantamento. Posso garanti-lo, de memória segura.

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Não se sabe bem ao certo a origem deste tipo de projecção, cabendo ao astrónomo holandês Christian Huygens as primeiras descrições de um equipamento similar, ainda por meados do século XVII.

A chamada “lanterna mágica” tinha como objectivo projectar num alvo as imagens impressas em vidro. Para isso, utilizava-se uma vela ou um candeeiro, um espelho côncavo, um pedaço de vidro onde eram desenhadas e pintadas as imagens e uma lente, responsável pela ampliação. O espelho côncavo era utilizado para aproveitar ao máximo a luz fornecida pela vela, fazendo com que a imagem fosse bastante iluminada. A luz passava então pelo vidro, transparente, chegando à lente que tinha a função de aumentar a imagem, projectando-a sobre um plano vertical. A utilização podia ser recreativa ou pedagógica.

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Athanasius Kircher, um matemático alemão de formação jesuíta publicou, em 1646, o texto Ars Magna Lucis et Umbrae (A Grande Arte da Luz e Sombra) onde foi citada a “lanterna mágica”: uma simples caixa com uma fonte de luz interna e um espelho curvo que reflectia a luz através de lâminas de vidro pintadas.

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A história repete-se e, três séculos depois, éramos nós, os gaiatos da Rua da Mouraria que confirmávamos a regra milenar. A nossa improvisada “lanterna mágica” com uma fonte já eléctrica de luz e uma vulgar lente de aumento constituiu, recriando-o, um passo decisivo a caminho do cinema. No fundo, a base tecnológica deste era precisamente a mesma e já sabíamos como aquilo funcionava, com os acréscimos do movimento e do som.

Creio, no entanto, que em tempos do Teatro Portalegrense ou do Cine-Parque, já não se usavam as cegonhas para fornecer bebés aos interessados.

Isso, para nós, é que tinha mudado.

António Martinó Coutinho

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