Chachada em África

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O autor sul-africano de banda desenhada Anton Kannemeyer esteve este ano no festival de Banda Desenhada AmadoraBD, que teve patente uma exposição retrospectiva do seu álbum de banda desenhada Papá em África, premiado em 2015.

Papá em África é uma obra satírica que aborda questões sobre colonialismo, identidade e racismo, parodiando o estilo de Hergé, criador de Tintin, e fora eleita no passado ano pelo Festival como o melhor álbum estrangeiro de BD, tendo sido publicado em Portugal pela MMMNNNRRRG em 2014 e encontrando-se esgotado.

Anton Kanneneyer, que no ano passado esteve em Portugal a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, a propósito do mesmo livro, regressou a propósito da exposição que revela o seu processo criativo e, sobretudo, contextualiza aquela obra de banda desenhada.

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A propósito da vinda de Kannemeyer, a MMMNNNRRRG apresentou, do mesmo autor, a obra O meu Nelson Mandela e outros contos, uma compilação de histórias desenhadas, “desta vez mais autobiográficas e ensaísticas, afastadas do imaginário do não menos polémico Tintin no Congo“, como se lê na nota de imprensa da editora.

Nascido na Cidade do Cabo, em 1967, Anton Kannemeyer fundou, nos anos 1990, a revista Bittercomix, juntamente com Conrad Botes, na qual foi publicando vários trabalhos com o pseudónimo Joe Dog.

Descrita como uma publicação subversiva, controversa e corrosiva, a Bittercomix serviu de veículo para uma reflexão sobre segregação, poder, ódio e colonialismo, com Kannemeyer muitas vezes a satirizar as histórias e o estilo do autor belga Hergé. 

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Como artista plástico, Kannemaeyer tem realizado exposições em importantes instituições como o MOMA (Nova Iorque), o Museu de Arte Contemporânea da Austrália, MU (Eindhoven), Museu de Arte de Seul, MHKA (Antuérpia), Tennis Palace (Helsínquia), Yerba Buena (São Francisco), Studio Museum (Harlem) e o Museu de BD e Cartoon (Nova Iorque).

A obra de Kannemeyer distingue-se sobretudo no que remete a Hergé e à sua “linha clara”. O livro em causa não contém apenas banda desenhada, já que lhe agrega ainda imagens solitárias, ilustrações, fragmentos de outras obras e mesmo pinturas.

Mostrando episódios aparentemente autobiográficos, como o confronto pessoal com a leitura racista da obra de Hergé, Kannemeyer junta-lhe histórias que traduzem situações clássicas patentes nos meios de comunicação, traduções de “pesadelos” dos brancos antes e após o “apartheid”, e desvios de episódios ficcionais sobretudo inspirados em Tintin no Congo.

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Esta banda desenhada suscita a discussão sobre os traumas e a má-consciência do pós-colonialismo, pretendendo ressuscitar todas as polémicas, já gastas, em torno da obra de Hergé.

Nisto não dispõe de qualquer originalidade, bem pelo contrário.

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Compreendo mas não aceito como válidos, em consciência, os argumentos de Kannemeyer, sobretudo quando parodia as debilidades, já repetidamente assumidas e explicadas, da juvenil criação de Hergé. Trata-se de uma falsa questão, já esvaziada de sentido. Mas o escândalo, ainda que bafiento e malcheiroso, vende.

Enfim, chover no molhado…

António Martinó de Azevedo Coutinho

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