mil novecentos e sessenta e um – dia 333

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Divido-me entre as prioridades de hoje, mas acabo por escolher a mais agradável, precisamente o belo passeio aéreo da tarde.

O tempo brindou-nos com nuvens altas, sem qualquer ameaça de chuva e vento fraco. Portanto, tudo correu pelo melhor. Lá fomos os três até Sintra e depois viajei no Tiger Moth com o tenente Vigário. Senti-me um veterano dos ares.

Estou apaixonado pelos panoramas vistos das alturas. A visibilidade, embora sem as sombras provocadas pela luz do Sol, um pouco oculto, era magnífica. O verde dos prados parecia aveludado e o brilho do mar era prateado, menos azul e verde que da outra vez, mas igualmente transparente e profundo. Pelos lados da Ericeira, pairámos sobre traineiras na faina da pesca e o espectáculo foi admirável pela nitidez da cena. Mais para o interior, ainda deu para vermos as águas do Tejo bastante espraiadas pelos campos, com o curso bem mais acima e muito mais largo do que habitualmente. Castelos, palácios e monumentos que abundam nas regiões saloia e oeste pareciam miniaturas perfeitíssimas, com formas surpreendentes e por vezes quase inesperadas. O nosso Portugal, visto dos ares, é ainda mais maravilhoso!

As estradas e o seu movimento automóvel são outra fonte de interesse e curiosidade, bem como pátios de escolas ou parques interiores de fábricas. Enfim, é praticamente impossível relatar todo o fascínio que é sobrevoar lá de cima a vida cá em baixo.

Só é pena quando isso acaba. Por mim, confesso que ficava a pairar sobre o mundo, até me cansar…

Quase me apetece dizer que só por estas oportunidades já vale a pena estar na tropa em Mafra. Mas é um engano, uma ilusão, não posso trocar a vida a sério por este desvio, agradável, mas falso e passageiro.

Regressei, pois, à terra e o regresso não teve piada. Comprei o Diário de Lisboa ainda na base, em Sintra. Regressou com ele o pesadelo.

Logo na primeira página, no título maior, lá estava escrito: O recrudescimento da actividade terrorista no Norte de Angola dá-se em vésperas do debate na Assembleia Geral da ONU. Deu vontade de dizer aos meus companheiros de jornada: – Vamos outra vez lá para cima, fugir disto!

Não ficamos nada admirados quando a notícia sobre a Lei de Meios para 1962 afirma que será acentuada a prioridade dos encargos com a defesa nacional. Quer isto dizer que a guerra vai custar-nos sangue, suor, lágrimas e todo o capital disponível…

Em Sevilha ficaram destruídas mais de um milhar de casas e oito mil pessoas estão sem lar… O Tejo ainda sobe em Santarém, mas desce no resto do seu curso. Por aqui não chove.

Foi por isto que preferi começar estas linhas pela vida lá em cima, porque cá em baixo é dura, quase brutal. Nem quero lembrar as cartas!

À chegada a Mafra, após uma viagem normal, agradeci aos tenentes e amigos António Vigário e Vaz Serra mais esta magnífica oportunidade de camaradagem, esperando a próxima. O tenente Vigário deu-me um postal ilustrado com um avião igual ao utilizado, que trouxe da Base. Vou aqui colá-lo para lembrar os belos momentos vividos.

Tinha uma carta da Adrilete e o Distrito de Portalegre, do dia 25, à minha espera.

Amanhã recomeça a rotina e não haverá avião que me salve disso.

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