mil novecentos e sessenta e um – dia 340

1961340-quarta-dezembro-06

Não sei como começar nem por onde. Estou confuso, confuso como nunca. Afinal é verdade. Sempre fugiram presos da cadeia de Caxias, e parece que afinal foram nove e provavelmente anteontem e não ontem, como o Diário de Lisboa hoje afirma. Nem sequer é apenas numa notícia vulgar mas na própria Nota do Dia, intitulada O segredo de Polichinelo, logo na primeira página, ao lado de onde diz: Visado pela Censura. Pois esta Nota é uma tremenda crítica à censura e a todas as formas de controle à livre expressão da informação e da opinião. Afinal, as emissoras e os jornais estrangeiros informaram atempadamente ouvintes e leitores acerca do caso. E nós não tivemos esse direito. Só não peço desculpa ao nosso camarada pelo que pensei dele porque nunca lho disse antes…

Vou cortar a Nota do Dia e colá-la aqui. Tenho o maior cuidado com o caderno onde vou escrevendo este diário e fecho-o sempre a sete chaves na minha mala, porque pode alguém lê-lo por meu descuido.

340

Tudo me passa pela cabeça. Penso no meus antigos vizinhos e amigos Zé Francisco e Luís Manuel e noutros que há anos se piraram para a França a fim de não irem para a tropa. Sempre pensei neles como uns cobardes desertores, mas agora já não sei se o que fizeram foi antes um acto de rebeldia e de coragem. Não sei!

Quando me ponho a tentar ligar e entender certas coisas que recentemente aconteceram, fico muito, mesmo muito, baralhado.

Num esforço para sair disto caio noutra desgraça, a do terrível naufrágio de um barco de pesca ao Sul de Sines. O jornal fala em 4 mortos e 13 desaparecidos, mas no rádio já confirmaram que morreram todos os 17. Só houve 4 sobreviventes. Que tragédia!

No Katanga intensifica-se a guerra e já mete aviação.

Os jornais estrangeiros continuam a falar nas intenções de Nehru de atacar a Índia Portuguesa.

Lá dentro do DL vem uma coluna onde relata que ainda não foram recapturados os oito presos (agora já não são nove!?) que se evadiram do Forte de Caxias. Como não é esclarecida a identidade dos fugitivos, o número fica por esclarecer mas nem sequer é o mais importante. A tal história de terem fugido num carro de Salazar é capaz de também ser exacta porque a alusão e descrição do automóvel Crysler utilizado é invulgar. Enfim, aqui muito em segredo, só me apetece dizer que oxalá não consigam apanhá-los, porque quase merecem a minha simpatia.

Mudando para assuntos mais normais, juntei outro belo artigo de Calvet de Magalhães à minha colecção: Como fazer as crianças pintar. E continua o aplauso geral à sugestão do benefício do 13.º mês. Alinho nesse aplauso.

Chegou hoje o Distrito de Portalegre do dia 2, mas fica para amanhã.

Estou cansado e confuso, farto disto tudo.

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