mil novecentos e sessenta e um – dia 343

1961343-sabado-dezembro-09

Um sábado passado em Mafra, mais um. E este ainda mais vazio de gente, porque os cadetes, aqueles que por aqui costumavam ficar, também partiram para sempre. O vácuo…

Continuo confuso e tento organizar as ideias. Os sinais de controle dos rabiscos da PIDE nas cartas privadas, a confusão gerada por esta rocambolesca história da evasão de Caxias e a certeza de que só sabemos aquilo que quem governa quer que se saiba, tudo me parece irreal. Mas é verdade, uma verdade que baralha e faz perder confiança precisamente em quem manda. Nunca fui político, quero continuar assim, mas há situações em que a gente quase percebe a indignação e mesmo a revolta de alguns. Sinto que as minhas convicções estão abaladas. E nem sei como tudo isto vai acabar.

Por outro lado, a guerra. Já não nos bastava Angola, de vez em quando uns sinais ameaçadores na Guiné e agora, depois de anos e anos de morna expectativa, esta grave situação vivida na Índia. Tão longe!

O resto do Mundo também está inquieto, sobretudo em África. Basta ver o que acontece no Congo, com o caso do Katanga, ou na Argélia, com a França… Não esquecendo Berlim, cá na Europa.

E a minha geração foi apanhada entre estes fogos todos.

Bem, deixemos isto tudo. Hoje não tenho nenhum jornal de Portalegre para ler. Por isso passo ao Diário de Lisboa.

A situação na Índia tem prioridade, mas as notícias são contraditórias, não se percebendo com clareza o que acontece. A rádio e a televisão também não ajudam, porque as fontes informativas devem ser as mesmas e a censura idem. Sabotagens, tiros e granadas, comunicados e notas oficiosas. O que estará a acontecer, de facto?

Mais um paquete partiu para Angola e Moçambique, desta vez o Infante D. Henrique, com funcionários e colonos. Não tem havido notícia de transporte de tropas.

No Katanga começou a evacuação dos belgas residentes, sinal claro do agravamento da situação no terreno.

O 13.º mês continua a despertar esperanças, acho que enganadoras. Infelizmente.

O mar continua a devolver corpos de pescadores. Este naufrágio de Sines foi uma grande tragédia…   

Os jornais, assim como as rádios e a televisão, nunca mais falaram nos evadidos de Caxias, o que até se compreende, porque a única notícia digna de registo seria a da sua captura. E esta, pelos vistos, torna-se cada vez mais uma miragem, à medida que os dias vão passando…

Também a liberdade é para mim uma miragem. Infelizmente. Diz-se pelos corredores que nos vão deixar ir a casa pelo Natal, numas curtas férias. Por outro lado, ainda nada se sabe sobre a data da incorporação dos cadetes para o próximo curso a decorrer aqui no casarão.

Amanhã é Domingo. Acho que há uma canção com este título, talvez um fado.

Amanhã é Domingo e isso significa, para todos os efeitos, o meu triste fado…

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