mil novecentos e sessenta e um – dia 345

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Hoje não houve nada, absolutamente nada, para fazer. Mesmo que tivesse havido, a minha maior preocupação seria Goa. Tanto as rádios como a televisão dão a entender que houve mesmo combates por lá e que já se contam mortos e feridos.

O próprio Diário de Lisboa, um jornal da tarde, menos actualizado que os outros meios de comunicação que vi e ouvi, já fala em oito soldados portugueses mortos ao Sul de Goa, embora ainda sem confirmação oficial. Nehru terá afirmado no Parlamento que não pode pôr de parte o recurso à força. Que poderemos fazer, meia dúzia de soldados nossos, contra o poderoso exército indiano?

No Katanga, também a guerra continua a intensificar-se.

Hoje não foi publicada qualquer notícia sobre Angola. Oxalá seja bom sinal.

Em Jerusalém recomeçou o julgamento do criminoso de guerra alemão Adolf Heichmann. Por outras palavras, a violência e a morte estão por toda a parte… E também os seus ecos distantes.

A questão do 13.º mês tornou-se permanente, pois um artigo de hoje diz que essa medida moralizaria situações de injusta desigualdade uma vez que em determinadas repartições do Estado já há gratificações para alguns funcionários… Vão sendo revelados certos segredos!

Chegou hoje no correio a Rabeca do dia 6. Pela primeira página decepcionou-me um pouco, uma vez que Portalegre não dispõe aí do lugar habitual. Os títulos são: Da capital – O problema da habitação; Apontamento (sobre o Inverno); Arquivo – A mulher e a maternidade; Retalhos – Longevidade e trabalho; Soneto de Ouro – Mãe. Enfim, a única nota portalegrense diz respeito a Propaganda da Cidade, uma alusão ao novo folheto turístico da cidade. Enfim, esta Rabeca parece o Distrito ou a Voz que tanto tenho criticado…

Lá dentro, Os supliciados da Inquisição, O futebol e as suas leis, o poema Menina Ana, Natal do Soldado (já conhecido), Chança – uma terra sem dono, Um desacato à liberdade de crenças, Um conto verídico e mais umas pequenas notas avulsas.

E onde está Portalegre? Na realidade, apenas em dois artigos, um sobre a Banda Euterpe, numa alusão à obra dos seus notáveis 101 anos de vida, e outro, intitulado Em prol da grei, que trata das mais importantes obras citadinas recentes, como o Mercado Municipal, o Palácio da Justiça e a Escola Técnica, perante a carência de um edifício para os CTT e de outro para o Hospital. Faltou falar no Hotel, por exemplo…

Enfim, seis páginas com muito pouco conteúdo local. Talvez eu esteja algo azedo por causa de tudo o que me preocupa, talvez, mas acho pouco, muito pouco para um jornal portalegrense. Até a Rabeca me decepcionou… Espero, sinceramente, que melhore.

Espero que tudo melhore, lá pela nossa Índia, por Angola, pelo Katanga, enfim por todos os lados onde a guerra se espalha.

Que tudo melhore também aqui em Mafra e que nos mandem para casa em paz, porque já cumprimos as nossas obrigações para com a Pátria.

Ou não?

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