mil novecentos e sessenta e um – dia 348

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As notícias que chegam de Goa, embora quase de certeza muito atrasadas, são cada vez mais preocupantes. Os jornais, as rádios e a televisão dão conta de constantes violações de nosso território por parte de comandos indianos isolados e de voos de jactos não identificados sobre Goa, enquanto cada vez mais tropas se acumulam junto da fronteira.

O Diário de Lisboa fornece informações soltas, como a de que o embaixador do Brasil terá entregue em Nova Delhi uma nossa nota extremamente confidencial, a de que o paquete Índia deve chegar ao Tejo no final do mês, trazendo 400 mulheres e crianças evacuadas de Goa e a de que milhares de fiéis goeses foram em romagem de fé ao túmulo de S. Francisco Xavier.

Por outro lado, continuam interrompidas as comunicações telefónicas entre nós e a Índia Portuguesa. Até quando?

Terão falhado os bons ofícios da Inglaterra a favor do cessar fogo no Katanga. A guerra por lá só pára quando tudo estiver destruído e todas as pessoas mortas. A guerra, qualquer guerra, é um pavor!

A paz é um ideal de vida. Leio isso no novo artigo do prof. Calvet que hoje se intitula A acção didáctica da Educação pela Arte. Isto é uma autêntica pausa na guerra…

Prometi abrir hoje o Distrito, a medo, e tenho uma sensação parecida. Portalegre é quase uma pausa no conteúdo geral do jornal, a paz no meio da guerra. É difícil de explicar mas sinto-o.

Na primeira página, a cidade é apenas O Asilo Feminino de Portalegre, perante O Dia da Imaculada, O Concílio Ecuménico, Ídolos de ferro com pés de barro ou A inauguração da Casa Diocesana de Santa Maria em Abrantes

No interior há um poema com o título A Angola, Vida Religiosa, Que serás tu mais tarde?…, Quem diz que a juventude está perdida?, Postal dum vicentino, Focando o Mundo, Natal do Soldado, De aquém e de além Tejo e mais uns artiguelhos soltos e alheios.

Onde está Portalegre num jornal de Portalegre? Numa pequena coluna sobre O Farrapeiro dos alunos do Liceu, nas Comemorações do 1.º de Dezembro, na intenção de uma Caixa de Previdência que pretenderá construir 20 a 40 casas na nossa cidade, na já conhecida vitória do Desportivo sobre o Elvas…

Será o meu estado de espírito que está perturbado? Estarei a ver as coisas com exagero ou de modo pouco isento?

A informação e a sua falta confundem-me, baralham-me os sentimentos.

É difícil, talvez impossível, discutir isto com alguém. Se contasse ao Caprichoso ele ria-se de mim e à Adrilete nem pensar.

Valerá a pena continuar a rabiscar este diário pessoal? Vendo bem as coisas, acho que sim, porque sempre vou podendo desabafar.

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