mil novecentos e sessenta e um – dia 352

1961352-segunda-18

Quase nos pareceu mentira, inacreditável mas real. Felizmente. Chegou finalmente a ordem tão esperada, a autorização para uma dispensa pelo Natal e Ano Novo. O contrário seria absurdo, mas a gente habitua-se a tudo. Quase tudo.

Fomos dispensados a partir de amanhã e até ao dia 3 de Janeiro de 1962, uma quarta-feira. Provavelmente, é esta a nossa convicção, começará então a preparação de uma nova fornada de cadetes. Podemos ir buscar os nossos passaportes à Secretaria da Companhia, fazer a mala e tratar da viagem. Vou daqui na camioneta da carreira logo cedo para Lisboa e depois tenho comboio ao fim da manhã, para chegar a Portalegre à hora de jantar, depois de espera e transbordo no Entroncamento. Já telefonei à minha mãe e à Adrilete. E ainda me parece mentira, que não é real, de tanto esperar e desesperar.

O Caprichoso fica em Lisboa mas tenciona ir passar o Natal a Águeda, com a família, voltando a Lisboa para a passagem do ano com a Clara.

Chegaram a Voz e o Distrito, mas guardo-os para amanhã ler na viagem. Hoje tenho o Diário de Lisboa e o caso da Índia, que é prioritário.

Já ninguém tem ilusões. Os dois enormes títulos do jornal dizem: As forças militares portuguesas defendem-se bravamente em Goa e criam dificuldades à progressão do invasor e Desembarque ao Sul de Goa. As tropas indianas encontram obstáculos e forte resistência no seu avanço para o interior. Ora nós estamos na tropa e sabemos um pouco da situação, pelo menos em teoria, pelo que não acreditamos que isto seja possível, dada a brutal desproporção dos exércitos em oposição. Há dias lembrava a formiga e o elefante e a realidade não deve andar longe disso…

No interior do jornal diz-se que o aviso Afonso de Albuquerque deixou de responder às chamadas pela rádio de Lisboa e também que aviões indianos bombardearam e metralharam o aeroporto de Goa e destruíram a estação emissora.

Portugal pediu a convocação urgente do Conselho de Segurança da ONU e eu acho que não vamos ali encontrar ali qualquer apoio, dada a recente experiência anterior. Infelizmente, estamos isolados. Temos razão mas isso não nos valerá de nada.

A imprensa internacional, segundo o DL, tem condenado a iniciativa militar de Nehru. De que nos vale isso? É tudo um faz de conta…

Fico por aqui porque tenho muito para fazer.

Amanhã, se tiver paciência para isso, já escreverei a página do diário em Portalegre. Talvez comece na viagem, que é chata e comprida. Depende da disposição.

De qualquer forma, hoje a vida parece mais desanuviada.

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