O Português em Cabo Verde – Hora di bai – I

O Português em Cabo Verde – Hora di bai, ja’n q’ré pa el ca manchê!
(Hora de ir, já quero que não amanheça!)

Na Morna da Despedida, o poeta cabo-verdiano da Ilha Brava Eugénio de Paula Tavares (1867-1930) antecipou o destino, o incontornável destino da língua portuguesa, na sua terra.

Conheço e estimo Cabo Verde. É, talvez, a única antiga colónia portuguesa onde não restam vestígios nítidos de um passado com reservas. Digo-o provavelmente porque nunca fui ao Tarrafal. A Ilha de Santiago, que apenas vislumbrei ao largo durante um cruzeiro pelo Atlântico onde também bordejei a Ilha do Fogo, não pertence ao grupo das que visitei. Estas limitam-se a São Vicente, Santo Antão, Sal e Boavista.cabo-verde-ptg

Porém, foi suficientemente demorado e profundo o conhecimento de São Vicente e do Mindelo, capital cultural do país, terra de Cesária Évora e Tito Paris. Comem-se no Mindelo talvez como em mais nenhum outro sítio as especialidades gastronómicas de Cabo Verde, como a barriga de atum, a garoupa Madeira, o cherém, o carrasco ou a cachupa guisada e ainda se ouve, nos locais certos, o melhor das suas mornas dolentes e melodiosas. A fabulosa arquitectura colonial de ícones como o Palácio do Governador faz-nos esquecer a grotesca réplica da Torre de Belém que desfeia um pouco a avenida marginal, junto ao típico mercado do peixe, antes da magnífica praia da Laginha.

Acabo-verde-s-vivente famosa e festivaleira Baía das Gatas não me fez, no entanto, ignorar a distante praia selvagem de Palha Carga que obriga a uma demorada viagem 4×4 pelas colinas escalvadas até à outra costa.

A paixão local pelo futebol, e pelo nossos clubes, apenas me surpreendeu porque nunca consegui perceber as razões pelas quais era o Boavista uma das suas escolhas desportivas prioritárias…

A luta contra a natureza hostil de São Vicente traduz-se no aproveitamento da rara água até à sua mais ínfima e preciosa gota. Ali entende-se o valor da água que aqui tanto desperdiçamos! Todos os dias, nos antigos e prestáveis ferrys, inúmeros recipientes trazem de Santo Antão a água que ali abunda, num surpreendente contraste natural. Santo Antão, distância de horizontes sem fim, terra de trapiche, calda e grogue. Sobretudo grogue, fortíssimo, em cada frequente destilaria entre os coqueirais.

Ter assistido, ao vivo, às festas juninas de São Vicente e Santo Antão, o Kolá San Jon, ancestrais tradições de Kau Berdi, foi um espectáculo inesquecível, apenas  comparado aos arraiás populares no interior serrano do Rio Grande do Norte, em Portalegre RN, subordinados aliás ao mesmíssimo pretexto de São João Baptista. Coincidências? Não!

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Nós, os portugueses, somos estimados em Cabo Verde. Sem remorsos ou reservas de colonialismo.  Em cada diálogo o sentimos, em cada encontro o vivemos, evidente sinal dos séculos de partilha, embora desigual, de um passado comum. E foi em Santo Antão que mais o senti, em escolas perdidas pelo meio de agrestes montanhas e, sobretudo, no testemunho do ancião cujo nome perdi, recitando-me de cor páginas e páginas da História de Portugal, da tal com nomes, datas e episódios que envergonharam a minha ignorância. E descrevendo-me ainda a faustosa vida de salão, aqui já com retoques e expressões francesas –autre fois, pas-de-quatre, quadrille– regressando no entanto às memórias lusitanas, incontornáveis.

Lembrei-me de que eu próprio também soube o nome das cordilheiras de Angola, das vias férreas de Moçambique e dos rios, ou ribeiras, de Timor. Poderia ter ficado, então, surpreendido!?

Falou ele em Português, num claro Português.

Mas os cabo-verdianos, excepto em assuntos solenes, não comunicavam entre si em língua portuguesa, antes em crioulo. Creio, de forma intuitiva, que o crioulo é ali um factor de identidade, uma orgulhosa marca de sobrevivência étnica, quase rácica. Como a acrobática capoeira dos brasileiros, porém falada. Acho que os cabo-verdianos ajustaram ao longo de gerações, sabe-se lá desde quando, a língua dos colonizadores, interpretando-a a seu modo e sobretudo codificando-a. Ao ouvir o crioulo julgo escutar a expressão de um jogo oral articulado com regras simples mas inacessíveis. A sabedora contida no crioulo afigura-se-me como um enigma gramatical, onde apenas a fonética é vagamente familiar em relação à da língua de origem, o Português.

O crioulo, sabemo-lo pela experiência quotidiana, é o sistema e veículo comunicacional da diáspora cabo-verdiana. Bastam os sítios certos do Rossio, do Martim Moniz ou de Intendente para o provar. Por isso, quando me falam na CPLP lembro-me desta e de outras contradições internas.

Que o Português seja a língua oficial de Cabo Verde é uma convenção, fictícia, que a prática quotidiana desmente. Mas não misturo este fenómeno com a aberração constituída pela Guiné Equatorial enquanto membro da CPLP.

O Português é e será (!?), em Cabo Verde, uma realidade. Ao menos nos bastidores. Na Guiné Equatorial é uma grotesca farsa e nunca disso passará.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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