O Português em Cabo Verde – Hora di bai – II

O Português em Cabo Verde – Hora di bai, ja’n q’ré pa el ca manche!
(Hora de ir, já quero que não amanheça!)

Sinto mais próximo do meu o Português estimado na Galiza ou praticado em1-2006-07-28-cv-sv-mindelo-di Cabo Verde do que o usado no Brasil. Afirmo-o na base de experiências repetidas e reflectidas. Nem sequer sou capaz de, racionalmente, justificar o que sinto. Talvez porque os brasileiros o falam com certa e cantante sobranceria, em vez da honesta e humilde fraternidade que vislumbro nos galegos e nos cabo-verdianos. Talvez.

2-290px-2006-07-11-cv-sv-mindelo-crImpõe-se justificar esta evocação das saudosas idas ao arquipélago atlântico que um dia, entre outros, descobrimos. Ilhas de encanto com gente onde a cultura visceralmente se implantou, ganhando raízes e livre desabrochando ao calor húmido dos trópicos.

Há pouco, o jornalista Nuno Pacheco, cujos escritos me habituei e ler com3-mural-caboverde respeito e admiração, destacou no jornal Público o facto de Cabo Verde se preparar para adoptar e ensinar o Português como língua estrangeira. A nota mais significativa, que desde logo ressalta, é o facto de isso desmentir a unificação proclamada pelos defensores do miserando acordo ortográfico. Cabo Verde, tal como Portugal e o Brasil e logo a seguir a estes países, fora o terceiro Estado a oficializar tal acordo. Por quê e para quê, pode perguntar-se. Esta pretensa unidade é uma farsa e nem sequer seria necessário o corrente episódio para confirmá-lo.

7-portugues-publico-15-dez-16

Em princípios de 2013, há cerca de três anos, na fase de grupos da CAN (Campeonato Africano das Nações em Futebol), a selecção de Cabo Verde foi uma das sensações da prova. Ora acontece que os jogadores cabo-verdianos receberam então rigorosas instruções para apenas falar Português, sendo expressamente proibidas as entrevistas noutro idioma. A explicação desta ordem, aparentemente redundante e “patriótica”, foi simples, no entendimento do 4-feedback-uncle-sam-lpresidente Jorge Carlos Fonseca que passou tais instruções ao coordenador Gerson de Matos: “Uma das razões que levam a que o Português não seja tão conhecido internacionalmente é o facto de sermos tão educados com os estrangeiros e falarmos com eles outras línguas. Somos mais de 200 milhões de falantes de Português no mundo. Se fizermos questão de falar Português, talvez mais pessoas encarem a nossa língua de outra forma“.

Um Português para inglês ver, ou ouvir, eis o objectivo simples e lógico desta recomendação. Por dentro do grupo o crioulo, para uso externo o Português  fazendo coro e número estatístico. Pobre e frágil argumento de meras aparências, pouco depois esboroado…

6-a-bola

Porém, posso acusar Cabo Verde de tudo menos de incoerência. Assim, sendo o Português estudado como língua estrangeira, talvez se possa por lá manter. Pelo menos residualmente…

Os persistentes sintomas que Nuno Pacheco arrola, de Germano Almeida e5-img0082a-375x281 Mariza Rosabal e outros lhes poderiam ser anexados, constituíram um prudente a sábio aviso. No cretino acordo ortográfico caminhou-se no sentido inverso, o da perdição, omitindo as diferenças e procurando artificialmente aplaná-las. E agora? Restará ainda a necessidade de uma reforçada dose suplementar de bom senso ou de coragem aos pseudo-académicos e sobretudo aos ignorantes políticos a quem indevidamente foi conferida autoridade científica ou legal na matéria?

Cabo Verde dá-nos uma lição.

Estaremos à altura de entendê-la?

António Martinó de Azevedo Coutinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s